Parques & Jardins

Parc de Bercy – dos vinhos a Niemeyer

29 de maio de 2015

O que não falta em Paris é área verde. Cada bairro tem a sua, entre parques e jardins, ponto de encontro de moradores e visitantes. O que é interessante também é que cada um desses espaços tem uma particularidade, quase sempre ligada ao seu contexto de criação ou ao seu bairro. E é nesse espírito de descoberta que hoje vamos falar do Parc de Bercy. Se você não está curioso para ler, saiba que o lugar abriga uma obra brasileira. Quer saber qual?

Parc de Bercy

O local onde fica hoje a região de Bercy era, há muitos séculos, um pântano, formado pelas águas do Sena e de vários outros riachos. Restos de cerâmica e de objetos pessoais mostram que o lugar é ocupado desde a Idade do Bronze.

Parc de Bercy

Na época em que Paris ainda era Lutèce, nos tempos dos romanos, já se cultivava vinhas na região. Claro que não era dentro dos limites urbanos, ficava um pouco afastado. Mais tarde, no século XII, Louis Le Gros dá a então ilhota de Bercilius para a abadia de Montmartre. No século seguinte, a cidade já possuía um dos maiores vinhedos da Europa, atraindo pessoas de várias outras regiões. Até que no século XVII, Louis XIV abre, onde hoje fica a área de Bercy, o primeiro entreposto de vinho.

Parc de Bercy

Essa atividade vai marcar os séculos seguintes. O comércio de vinho cresce sem parar, sobretudo no século XIX. Como Bercy era fora da cidade, não eram cobradas taxas para o produto. Ao mesmo tempo, o fato de ser ao lado do Sena e da capital tornava sua localização bem estratégica. O vinho chegava de barco pelo rio, de regiões como a Bourgogne, era desembarcado e colocado em vagões que percorriam 9 km de trilhos. Depois, nos entrepostos, a bebida era descarregada, engarrafada e armazenada ali mesmo.

Parc de Bercy

A partir de 1809, o barão Jean-Dominique Louis, Ministro das Finanças do império, compra dos comerciantes de vinho vários terrenos na área. Apesar das diversas inundações do Sena e do incêndio de 1819, no qual 115 mil litros de bebida são perdidos, o comércio atinge seu ápice. Os entrepostos são aumentados e chegam a 42 hectares. Árvores plantadas a cada 12 metros protegiam os barris.

Parc de Bercy

Ainda no século XIX, o bairro era conhecido como Joyeux Bercy (algo como Feliz Bercy). Ali o vinho era mais barato (chamado de Guinguet). Por isso, várias guinguettes (uma espécie de cabaré popular, o nome é derivado da bebida) se instalaram no local, onde a população se reunia para se divertir. Havia jogos, torneios e até fogos de artifício.

Parc de Bercy

A região atraía ainda toda uma gama de comerciantes, como condutores de carruagens, engarrafadores de bebidas, bombeiros. Um tipo de atividade interessante era o vendedor de gemas de ovos. Como a clara era usada na clarificação do vinho, o pessoal vendia o que sobrava, ou seja, a gema.

Parc de Bercy

No começo do século XX, Bercy é o maior mercado de vinho da Europa. Mas a partir de 1930, começa o declínio: as mudanças nas técnicas do armazenamento e a demolição de uma parte do entreposto fazem a atividade cessar pouco a pouco. A queda se acentua em 1960. Em 1970, os entrepostos são desativados e, na década seguinte, demolidos. Ai vinha a questão: o que fazer no local?

Parc de Bercy

Decidiu-se, então, pela construção de casas, de um conjunto esportivo (Le Palais Omnisports de Paris) e de um parque de 13 hectares. Em 1987, é realizado um concurso para o paisagismo do lugar, que é vencido pelos paisagistas Ian Le Caisne e Philippe Raguin. O Parc conta também com o projeto dos arquitetos Bernard Huet, Madeleine Ferrand, Jean-Pierre Feuges e Bernard Leroy.

Parc de Bercy

A ideia é fazer um jardim de memória em um traçado contemporâneo, ou seja, que lembre o passado do lugar. Tanto é que até os trilhos e as ruínas do antigo Petit Château de Bercy continuam ali e os vemos enquanto passeamos pelo local. Cerca de 200 árvores centenárias também foram preservadas, como plátanos, castanheiras, bordos, etc. A inauguração do parque acontece em 1993.

Parc de Bercy

Visitando o parque

O Parc de Bercy é meio que dividido em três partes, duas delas separadas pela rua Kessel. Elas são ligadas por duas passarelas. A ordem de visita não importa, mas vou mostrar aqui a que fiz, partindo do metrô Cour Saint-Émilion.

Parc de Bercy

Parc de Bercy

1) Jardim Romântico – É toda a primeira parte do parque, ou seja, toda a área antes da passarela. Ele é cortado por riachos, onde nadam os patos. No centro de um dos lagos, a escultura Demeure X, de Etienne Martin, de 1968.

Parc de Bercy

Parc de Bercy
Demeure X, de Etienne Martin

No meio de outro lago está a Maison du Lac, onde funciona a Agence Parisienne du Climat , que realiza palestras ligadas a temas ecológicos. Essa construção é a antiga casa dos guardas que moravam ali para vigiar os entrepostos.

Parc de Bercy
Maison du Lac

Nessa parte, há também um mirante não muito alto e um anfiteatro de flores.

Parc de Bercy
Anfiteatro
Parc de Bercy
Um pequeno mirante

Parc de Bercy

2) Jardin du Philosophe – faz ainda parte do Jardin Romantique. Nele, podemos ver as arcadas do antigo mercado de Saint-Germain.

Parc de Bercy

Parc de Bercy

Logo em seguida, depois da passarela, vemos a segunda parte do parque, cheia de vestígios do passado.

3) Ruínas – À esquerda, vemos as ruínas do Petit Château de Bercy, do século XVIII. Ele pertenceu à Madame Parabère, amante do regente Philippe d’Orléans, que governava a França enquanto Louis XV era menor de idade.

Parc de Bercy

4) Jardin des Bulbes – Dominado por uma espécie de gruta verde, tem os canteiros em forma de ondas. Ali perto, um reservatório de água cercado por colunas e com patos. É o jardim que representa a primavera. Ele é também chamado de Jardin Yitzhak Rabin.

Parc de Bercy

Parc de Bercy

5) Jardin des Senteurs – Fica à esquerda do Jardin des Bulbes. É uma área formada por buxos e canteiros de flores, que variam de acordo com a estação.

Parc de Bercy

6) Verger (Pomar) – Fica à direita do Jardin des Bulbes. Há laranjeiras, cerejeiras, entre outras árvores frutíferas. No fundo, a Orangerie, onde algumas árvores são guardadas durante o inverno e que acolhe algumas exposições temporárias no resto do ano.

Parc de Bercy

Parc de Bercy
A Orangerie

7) Pavillon du Vent (Pavilhão do Vento) – Há uma torre (Tour des Vents), com instrumentos de medição. Ao lado, um Chair restaurado, onde o vinho era engarrafado e que hoje abriga exposições temporárias. As flores são claras, com predominância do branco. Essa cor, mais o elemento ar (vento) representam o inverno.

Parc de Bercy
Pavillon du Vent

8) Potager (Horta) – Fica logo em seguida ao Pavillon du Vent. Ele abriga diversos legumes e plantas que são cultivados pelos alunos das escolas do bairro. Ali também acontecem ateliês destinados às crianças.

Parc de Bercy

9) La Maison du Jardinage – É o antigo escritório onde as taxas eram pagas. Hoje é um lugar para os amantes da jardinagem. Ela abriga uma biblioteca especializada no assunto, salas para exposições temporárias, além de uma estufa, onde também acontecem ateliês, principalmente aos sábados.

Parc de Bercy
Maison du Jardinage

Parc de Bercy

10) Les Treilles – Fica à esquerda do pomar e em frente à Maison du Jardinage. É uma área cheia de flores de todos os tipos e cores. A estrutura que abriga os canteiros é uma latada, que era usada também para segurar as parreiras. Ou seja, uma referência ao passado do local.

Parc de Bercy

11) O vinhedo – Também em frente à Maison du Jardinage, é a mais óbvia lembrança do passado do parque. Ali estão plantadas 400 vinhas dos tipos chardonnay e sauvignon.

Parc de Bercy

De responsabilidade da prefeitura de Paris, elas dão cerca 200 litros de vinho branco por ano. No centro, uma chaminé, que lembra o elemento fogo. Como a colheita das uvas acontece no outono, essa é a estação que o vinhedo representa.

Parc de Bercy

12) Labyrinthe – Fica à esquerda da Maison du Jardinage. É um labirinto formado por Ifs (teixos, um tipo de árvore ou arbusto) no centro do qual está uma pedra negra. Essa pedra lembra o elemento terra, cujo centro é quente. Por isso o jardim representa o verão.

Parc de Bercy

Parc de Bercy

13) Roseraie – Fica à esquerda do vinhedo. É um roseiral, que floresce mesmo no mês de junho. A predominância ali é de rosas brancas e vermelhas.

Parc de Bercy

Parc de Bercy

Logo depois, fica a terceira parte do parque, com o gramado.

14) Pélouse (gramado) – é pontuado por nove quiosques. É ali que fica também o carrossel para as crianças. Duas curiosidades: no loca, fica a Cinemateca Francesa. O prédio é obra do arquiteto Frank Gehry, e abrigava o antigo Centro Cultural Americano (1994).

Parc de Bercy

Parc de Bercy

A outra curiosidade é uma escultura vermelha ali no gramado. Essa obra, feita de aço, foi realizada por Oscar Niemeyer e representa uma mão aberta oferecendo uma flor. Daí o nome Fleur de Niemeyer. Ela tem 6 metros de altura e 12 metros de amplitude.

Parc de Bercy
Fleur de Niemeyer, 2007

A história dela é bem interessante: o arquiteto brasileiro oferece a obra, ainda em projeto, à cidade de Paris em 2005, ano do Brasil na França. A oferta teria sido acompanhada pelas seguintes palavras: “Fiz um croqui, que surgiu no espaço. Fiz uma mão aberta com uma flor, alguma coisa que transmita a solidariedade, uma coisa vaga, como um sonho”. A escultura foi inaugurada em 30 de janeiro de 2007, ano do centenário de Niemeyer.

Parc de Bercy

15) A Cascata – Ela leva para um terraço, onde estão 21 esculturas de bronze chamadas Les Enfants du Monde, de Rachid Khimoune, de 2001.

Parc de Bercy

Parc de Bercy

Cada uma dessas obras foi realizada em um país diferente – tem o Brasil – a partir de fôrmas feitas com placas de esgoto. Há uma réplica em cada país de origem.

Parc de Bercy
Les Enfants du Monde, Rachid Khimoune
Parc de Bercy
Antonio le Brésilien (Antonio, o brasileiro), de Rachid Khimoune
Parc de Bercy
Felipe le Mexicain (Felipe, o mexicano), de Rachid Khimoune

A partir do terraço, vemos a passarela Simone de Beauvoir, que liga o Parc de Bercy até a Bibliothèque National de France (BNF)

Parc de Bercy
Passarela Simone de Beauvoir

O Parc de Bercy ainda é um local pouco visitado pelos turistas, em comparação a outros parques de Paris. Mais um motivo para conhecê-lo. Para as crianças também é um bom passeio pois há vários brinquedos espalhados pelo parque para elas brincarem.

Parc de Bercy

Parc de Bercy
O parque possui várias entradas: rue Paul-Belmondo, rue Joseph-Kessel, rue de l’Ambroisie, rue François-Truffaut, quai, boulevard e rue de Bercy, rue de Cognac, rue de Pommard, cour Chamonard
75012 – Paris
Metrô – Cour Saint-Émilion, linha 14
Bercy – linhas 6 e 14
Horários: de 1º de maio a 31 de agosto, segunda a sexta, das 8h00 às 21h30. Sábados e domingos, das 9h00 às 21h30. De 1º a 30 de setembro, segunda a sexta, das 8h00 às 20h30. Sábados e domingos, das 9h00 às 20h30. De 1º a 25 de outubro, segunda a sexta, das 8h00 às 19h30. Sábados e domingos, das 9h00 às 19h30. De 26 de outubro a 28 de fevereiro, segunda a sexta, das 8h00 às 17h45. Sábados e domingos, das 9h00 às 17h45. De 1º de março a 30 de abril, segunda a sexta, das 8h00 às 19h00. Sábados e domingos, das 9h00 às 19h00. A parte do gramado fica aberta sempre.

Parc de Bercy

Parc de Bercy

* Reserve hotel para Paris e outras cidades do mundo com o Booking
* Compre seu seguro de viagem com a Real ou com a Mondial
* Para fazer passeios e excursões, contate a ParisCityVision
* Para transfer e passeios privados, contate a França entre Amigos
* Compre ingressos fura-fila para várias atrações de Paris e outras cidades com a Ticketbar
* Alugue um carro com a Rentalcars
* Saiba mais sobre Cursos de idiomas no exterior

Renata Rocha Inforzato

Sou de São Paulo, e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.

Comentários (12)

  • vania hirata Responder    

    30 de maio de 2015 at 1:46

    Sempre um prazer ler os seus posts … Vou ter que voltar a Paris …nao conheci esta joia de lugar …grata pelas dicas!.

    • Renata Inforzato Responder    

      31 de maio de 2015 at 21:10

      Oi Vania, Paris vale toda uma vida para conhecer, é muita coisa… Obrigadão pelo seu comentàrio, fiquei bem feliz. Um beijo

  • Regina Maria Responder    

    30 de maio de 2015 at 12:39

    Mais uma vez parabéns pelas informações às quais vc. nos dá acesso. Aprecio muito sua forma de enxergar os locais.

    Um abraço

    Regina Maria

  • Pepita Guimaraes Responder    

    31 de maio de 2015 at 20:07

    Que lugar maravilhooooooooso!!!!!!!!!!!

  • Gustavo Responder    

    27 de junho de 2015 at 18:56

    Vou à Paris 2x por ano e nunca fui! Agora irei! Obrigado pela informação.

  • Liliane Inglez Responder    

    28 de junho de 2017 at 2:12

    E eu que pensava que o último vinhedo de Paris fosse o de Montmartre!
    Muito bom o post! Gostei demais e espero visitar este parque! Um abraço!!!!

    • Renata Rocha Inforzato Responder    

      8 de julho de 2017 at 22:14

      Oi Liliane, pois é, e tem ainda outros vinhedos. Em breve escreverei sobre eles. Tomara que você venha logo pra visitar o parque e outras atrações. Um beijão

  • Anita Responder    

    18 de agosto de 2017 at 23:02

    Sempre descobrindo lugares novos para nos brindar e aguçar nossa curiosidade e paixão por Paris!
    Obrigada!!!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

O Direto de Paris usa cookies para funcionar melhor. Mais informações

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

Close