Atrações

Galerie Vivienne – a mais famosa passagem coberta de Paris

28 de dezembro de 2015

As Galerias ou Passagens cobertas de Paris são uma atração à parte na cidade. Infelizmente, muitas foram demolidas, mas as que estão de pé fazem a alegria dos turistas e dão orgulho aos parisienses. Depois de falar da Passage des Panoramas e da Passage du Caire, agora, seguindo a ordem cronológica, é a vez da mais famosa de todas: a Galerie Vivienne.

Galerie Vivienne

A região onde fica a rue Vivienne já era, há alguns séculos, muito prestigiada. A rua foi aberta em 1631 para ligar o Palais-Royal à muralha de Louis XIII. Desde muito cedo, o lugar atraiu banqueiros, bancários e uma série de outros trabalhadores que lidava com dinheiro. Em 1780, o que hoje chamamos de Quartier de la Bourse, já que a Bolsa de Valores foi instalada ali, já era um bairro de ricos, com, inclusive, muitos palacetes de nobres e burgueses. O nome da rua, Vivienne, vem de uma velha família burguesa da região, os Viviens.

Galerie Vivienne
A entrada da rue Vivienne. Na fachada, alegorias e símbolos do comércio

E ali no número 6 da mesma rua morava um homem com uma visão de futuro: Maître Marchoux. Em 1823, ao se tornar Presidente da Chambre de Notaires de Paris (uma espécie de associação de tabeliães), ele resolve comprar o imóvel onde vivia e algumas casas ao lado. Impulsionado pelo sucesso da Passage des Panoramas, a ideia era criar ali um “atalho” entre as ruas Vivienne, des Petis-Champs e de Petits-Pères (hoje rue de la Banque). Pela vocação comercial dessa região e pela proximidade dos jardins do Palais-Royal, um dos lugares mais animados de Paris, a galeria tinha tudo para ser um sucesso e atrair muitos comerciantes e um público grande.

Galerie Vivienne

O senhor Marchoux queria que aquela fosse a mais bela das passagens cobertas e a que tivesse as melhores condições. Por isso para fazer o projeto e coordenar os trabalhos, ele chamou o arquiteto François-Jacques Delannoy. Este era um dos mais famosos arquitetos do seu tempo: havia ganhado, em 1778, o Prix de Rome, a premiação mais prestigiada da época.

Galerie Vivienne
A galeria fica ainda mais bonita com a decoração de natal

Inicialmente, a galeria se chamaria Marchoux, mas logo trocam o nome para Vivienne. Em 1826, após três anos de trabalhos, ela é inaugurada. O sucesso é imediato e quase toda a imprensa a elogia.

Galerie Vivienne
Vitrine da loja Catherine André

Logo, as setenta lojas, de diferentes tamanhos, da galeria são ocupadas. Desde o começo, era um comércio de produtos e serviços de qualidade, como boutiques de moda, cafés, restaurantes, livrarias, etc.

Galerie Vivienne

Uma curiosidade é que nesta época a Galerie chegou a ter um Cosmorama, isto é, uma espécie de ancestral dos planetários, onde sistemas de espelhos e telas pintadas davam uma visão de movimento dos astros. O pessoal se divertia e aprendia ao mesmo tempo.

Galerie Vivienne

E não somente lojas havia no lugar: a galeria abrigava também apartamentos. Entre os moradores ilustres, está Eugène-François Vidocq, um criminoso que virou policial e detetive, dono da primeira agência de detetive particular da cidade. Ele viveu na Galerie nos anos 1840 e, segundo uma história não comprovada, havia um caminho subterrâneo entre a Vivienne e o Palais-Royal que usava para sair de casa sem ser visto.

Galerie Vivienne
Várias escadas levam aos apartamentos, mas esta é a mais bonita. A porta fica fechada, mas eu pedi para um morador, que estava saindo, abrir pra mim

A ascensão do rei Louis-Philippe, em 1830, ao trono francês inicialmente favorece a Galerie Vivienne. O monarca proíbe a prática de jogos e prostituição nos jardins do Palais-Royal. Assim, a galeria atrai um público que, sem opção, procurava um novo lugar de diversão. Em pouco tempo, além dos comerciantes, costureiros e fornecedores, os corredores da Vivienne passam a contar também com jogadores e prostitutas entre os frequentadores do lugar.

Galerie Vivienne

Mas, sem jogo e sem prostituição, os Jardins do Palais-Royal começam a ficar vazios e isso reflete na Galerie Vivienne. Começa, então, o declínio dela, que vai se acentuar com o advento do Segundo Império, em 1848. Com as reformas do prefeito de Paris, Haussmann, o eixo do luxo da cidade vai, aos poucos, passando para a Madeleine e para a região da Champs-Élysées.

Galerie Vivienne
Entrada da rue de la Banque

No entanto, isso não significa que deixam de investir na Galeria. Em 1859, a filha e herdeira de Monsieur Marchoux, Hermance, doa todos os seus bens, inclusive a Vivienne, ao Institut de France. Ele, através da Académie de Beaux-Arts, é o proprietário até hoje.

Galerie Vivienne

A doação seria feita com uma condição: que os pintores e escultores, vindos da Académie Française, em Roma, recebessem, respectivamente 4 e 3 mil francos, vindos dos lucros da Galerie. A própria Hermance era artista: foi ela que esculpiu as cariátides de uma das fachadas da Vivienne, da que fica na Rue des Petits-Champs.

Galerie Vivienne
A obra de Hermance Marchoux na entrada da rua des Petits-Champs
Galerie Vivienne
Entrada da rua des Petits-Champs

No começo, por causa do abandono da Galeria, o novo proprietário pensa em vendê-la. Mas, nos anos 1880, faz um investimento na Vivienne que, até hoje, atrai a admiração dos visitantes: o piso em mosaico. Ele é obra do italiano Giandomenico Facchina, que, por coincidência, nasceu no mesmo ano da inauguração do lugar: 1826. Esperava-se, com a beleza do mosaico, reacender o interesse do público pela Galerie ou, ao menos, aumentar seu valor de venda.

Galerie Vivienne

Mas a Galerie Vivienne, apesar da decadência, ainda é palco de alguns eventos. Entre 1883 e 1884, ela chegou a abrigar uma exposição de arte de um grupo de artistas e escritores chamado Les Incohérents. Em 1888, é a vez de Henri Signoret abrir, no número 61, um teatro de marionetes, o primeiro de Paris. Encenando desde obras de Shakespeare até peças de Maurice Bouchor (estas criadas exclusivamente para os bonecos), o lugar funcionou até 1894.

Galerie Vivienne

Em 1903, o Journal des Débats chega a noticiar que a Galerie Vivienne em breve seria demolida, assim como aconteceu com várias outras passagens cobertas. Mas, felizmente, não se sabe bem como, ela foi poupada. Mas o declínio continua. Por várias décadas, os únicos frequentadores são praticamente os moradores do lugar.

Galerie Vivienne

Em 1961, a Galerie Vivienne está tão malcuidada, que um reparo de urgência da cúpula era necessário. Porém, durante os trabalhos, ela desmorona, caindo em cima de um dos operários. Quatro anos depois, em 1965, a americana Huguette Spengler, aluga o espaço de cinco lojas.

Galerie Vivienne

A nova ocupante é uma artista psicodélica e faz da galeria um espaço underground. Ela faz dos corredores espaços de performances, pinta as paredes e tetos com temas como florestas, por exemplo. Os comerciantes que ainda restavam não gostam da nova vizinha. Até que, em 1970, depois de gastar todo seu dinheiro com a Galerie, Huguette abandona o lugar. No mesmo ano, Kenzo realiza na Galerie seu primeiro desfile.

Galerie Vivienne

O renascimento da Vivienne começaria a partir de 1974, quando há um novo interesse pela arquitetura do século XIX. Em julho do mesmo ano, ela e a Galerie Colbert, sua rival, são inscritas no inventário dos Monumentos Históricos e começam a ser restauradas. Agora, definitivamente, o lugar não poderia ser demolido.

Galerie Vivienne

Pouco a pouco a Galerie Vivienne se torna de novo um lugar bastante frequentado. Há lojas principalmente de decoração e moda, como a de Jean-Paul Gaultier, inaugurada em 1986. Assim, como na época de suas origens, no século XIX, hoje a galeria atrai não somente os moradores de Paris como também os turistas. Além de ser inspiração para várias outras passagens cobertas ao redor do mundo.

Galerie Vivienne

Passeando pela Galerie Vivienne

A Galerie Vivienne tem 176 metros de comprimento e 3 metros de largura. Uma coisa interessante na sua história é que ao comprar os imóveis para construí-la, Maître Marchoux não demoliu as construções e sim as adaptou. A galeria tem a forma de um L e para resolver o problema da irregularidade do terreno, foram construídas escadas e uma rotunda. Nessa rotunda, ao centro, havia uma estátua de Mercúrio.

Galerie Vivienne

Na decoração das fachadas interiores vemos, esculpido, o caduceu, símbolo desse deus romano, que representa o comércio. Também há cornucópias, isto é, vasos em forma de chifres repletos de flores e frutas, que representam a abundância, a agricultura e, novamente, o comércio. Vemos ainda coroas de louros e balanças da Justiça.

Galerie Vivienne
O caduceu de Mercúrio, que simboliza o comércio

Em alguns espaços entre as curvas dos arcos e o entablamento (acabamento superior da fachada), há representações de figuras alegóricas, evocando, por exemplo, as artes e a agricultura. Enfim, praticamente toda a decoração da galeria simboliza a prosperidade e o sucesso. A cobertura da ala principal, inspirada na Grande Galerie du Louvre, é toda em vidro, o que permite a entrada de ar e a iluminação natural.

Galerie Vivienne

Galerie Vivienne

Essa preocupação com a decoração dá unidade à galeria, compensando as diferenças de suas alas. Essa ideia de conjunto é reforçada com os mosaicos de Facchina no solo. Aliás, o artista italiano, que já havia sido convidado para participar da decoração da Opéra Garnier, revoluciona a técnica do mosaico. Ela consiste em montar as peças no ateliê, colando-as em uma tela, e chegar com a obra pronta, bastando, portanto, instalá-la no lugar correto. Esse procedimento foi uma revolução, pois, além de ser mais rápido era também mais econômico.

Galerie Vivienne

As lojas são uma atração à parte na Galerie Vivienne. As de decoração apresentam objetos muito bonitos e curiosos. E para quem gosta de moda, ali é o paraíso, mas só para olhar, pois as roupas geralmente são caras. Não é raro ver editoriais de moda sendo realizados na galeria.

Galerie Vivienne

Já os fãs de livros vão à loucura com as livrarias, principalmente a Jousseaume, que era chamada de Petit-Siroux. Aliás, ela é a loja mais antiga da Vivienne: está no mesmo lugar desde 1826, ano da inauguração da galeria, e hoje é tocada por dois irmãos, herdeiros do primeiro proprietário.

Galerie Vivienne

Outra loja que adorei – e voltei a ser criança – é a de brinquedos Si Tu Veux. É pequena, mas, ao lado de artigos modernos, há muito brinquedo e jogo que tiveram origem na época dos nossos avós ou até bisavós.

Galerie Vivienne

Para comer, lugares famosos, como o salão de chá A Priori Thé ou o Bistrot Vivienne. Além de uma loja de guloseimas que quero voltar: Les Jours Heureux. Perto da entrada da Rue Petit-Champs há a loja de vinhos finos Legrand filles et fils, onde você também pode fazer uma degustação ou tomar um aperitivo.

Galerie Vivienne

Há também, galerias e comerciantes de arte, que fazem a alegria dos colecionadores.

Galerie Vivienne

E não dá para andar pela Galerie Vivienne sem pensar na literatura. A escritora Colette, que viveu nos arredores do Palais-Royal no final da vida, escreveu sobre a galeria em Trois, Six, Neuf (1941-1942). Ela costumava passear por ali e frequentar a livraria Petit-Siroux.

Galerie Vivienne

Já no cinema, a Vivienne foi cenário para algumas cenas do filme La Femme Publique, de 1984, do diretor polonês Andrzej Zulawiski. E vários filmes publicitários são rodados ali por ano.

Galerie Vivienne

Se você for passear na Galerie Vivienne com certeza vai encontrar ainda mais detalhes e coisas interessantes. Vai ver escritos, pintados no chão, e letreiros de antigas lojas, muitas delas que nem existem mais, ao lado de vitrines contemporâneas. E é essa mistura de passado e presente que faz o charme das passagens cobertas de Paris, dentre as quais a Vivienne é a mais famosa.

Galerie Vivienne

Galerie Vivienne
Entradas: 6, rue Vivienne, 4 rue des Petits-Champs e 5 rue de la Banque
Horários: todos os dias, das 8h30 às 20h30 (os horários das lojas variam, veja mais aqui).
Metrô: Bourse – linha 3

Galerie Vivienne

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Renata Rocha Inforzato

Sou de São Paulo, e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.

Comentário (1)

  • Direto de Paris - Jornalismo em Paris Responder    

    31 de março de 2017 at 1:01

    […] a popularidade crescente de passagens cobertas mais luxuosas, como a Galerie Vivienne, a Passage du Grand-Cerf é pouco a pouco abandonada. E isso se vê nos cronistas da época, que […]

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