Lens

O Louvre-Lens, no Norte da França

5 de setembro de 2021

Last Updated on 5 de setembro de 2021 by Renata Rocha Inforzato

Você já ouviu falar do Museu do Louvre, em Paris, não é? Mas o que muita gente não sabe ainda é que existe o Louvre-Lens, no norte da França. E é sobre ele o tema desta matéria.

Louvre-Lens

A ideia de descentralizar o Louvre vinha sendo debatida desde 2001. Mas como criar um museu do Louvre em outro lugar da França, com um conceito diferente e, ao mesmo tempo, mantendo o prestígio que o museu parisiense tem? Era um desafio e tanto.

Bolha de Piquenique
Área de Piquenique

Entre 2001 e 2003, as equipes do museu trabalharam nessa descentralização. Em abril de 2003, o projeto é entregue ao Ministério da Cultura, que o valida em junho do mesmo ano. A ideia era criar um outro Louvre em uma região onde houvesse falta de uma atração deste tipo.

Louvre-Lens

O presidente do museu, Henri Loyrette, e sua equipe viajam para Bilbao, na Espanha, para ver como o Museu Guggenheim transformou a cidade. Também vão para Liverpool, onde os antigos bairros perto do porto foram transformados. Os resultados desses projetos os animam a prosseguir no projeto do outro Louvre.

Luxor
Luxor, Egito – Em torno de 1279-1213 a.C. – Alto-relevo do pedestal de um obelisco do Templo de Luxor. Babuínos. Granito rosa.

No início, três cidades são consideradas para abrigar o novo museu: Lyon, Montpellier e Nantes. Daniel Percheron, presidente do Conseil Régional du Nord-Pas-de-Calais, logo sugere Lens, localizada no Norte da França. Porém, Valenciennes, Arras, Boulogne-sur-Mer, Calais e Amiens, que ficam na mesma região, chamada então Nord-Pas-de-Calais, também se candidatam.

Louvre-Lens

A partir de outubro de 2003, cada cidade tem 45 dias para elaborar um projeto. O prefeito de Lens na época, Guy Delcourt, cria uma brigada de choque para elaborar um dossiê consistente. A cidade era capital do Bassin Minier e a ideia era aproveitar este passado rico e popular como uma vantagem que poderia ajudar na atratividade do museu.

Parc Lens

Assim, não por acaso, o local escolhido pela administração da cidade para abrigar o Louvre era a La Fosse (fossa) 9-9 bis, um lugar que teve a atividade mineira até mais ou menos 1960 (no restante da região, a mineração acabou depois, nos anos 1990). A partir de então, a equipe municipal dispunha somente de 1500 horas para preparar o lugar antes da visita decisiva do Ministro da Cultura, Renaud Donnedieu de Vabres, marcada para acontecer em 20 de julho de 2004.

Louvre-Lens
Galerie des Expositions Temporaires (Galeria de Exposições Temporárias)

No dia do evento, ao sair do terreno da Fosse, o Ministro da Cultura encontra, por acaso, três viúvas de mineradores. Elas moravam ali perto e tinham saído para ver o que se passava. Ao ver o ministro, uma delas diz: “Seria bom ver o Louvre chegar em uma antiga fossa. Meu marido morreu de silicose depois de tanto ter se dedicado às minas. Mesmo com uma bengala, vamos visitar o museu”. De Vabres, o ministro, fica tocado com essas palavras e marca um novo encontro com elas. Parece que Lens sai à frente na disputa pelo Louvre.

Louvre-Lens

Porém, nos meses seguintes, nada ainda é decidido. Embora o Presidente do Louvre, Loyrette, prefira Lens, é preciso esperar as decisões do Presidente da República, que era Jacques Chirac, e do então Primeiro-Ministro, Jean-Pierre Raffarin. Após muitas discussões, em 29 de novembro de 2004, Lens é oficializada como sede do novo Louvre.

Obras de Pierre-Henri de Valenciennes
Obras de Pierre-Henri de Valenciennes realizadas em 1780.

O próximo passo era, então, escolher quem construiria o museu. No final de 2004, uma licitação é lançada pelo Conselho Regional, com 120 inscritos. O valor inicial do projeto é fixado em 117 milhões de euros. A divisão dos trabalhos fica assim: a região é responsável pela construção do museu, mas o programa científico e cultural fica a cargo do Louvre.

Louvre-Lens

Em maio de 2005, seis escritórios de arquitetura são finalistas e eles têm até 25 de julho para apresentar suas maquetes. Uma curiosidade: o arquiteto Jean Nouvel faz parte do júri que avalia os projetos. Em 26 de setembro, o vencedor é escolhido: é o escritório da agência de arquitetura SANAA.

Caminho para o museu

Criada pelos arquitetos japoneses Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa, em 1995, é a SANAA quem realiza o projeto que mais se aproxima dos ideais de Henri Loyrette, presidente do Louvre: uma construção que “se apaga” diante do seu conteúdo (ou seja, diante das obras de arte que ela abriga), ao contrário do belo palácio do Louvre em Paris.

Louvre-Lens

Outra exigência é que o Louvre-Lens não seria apenas um museu, mas um museu-parque. Assim, os 22 hectares do lugar seriam aproveitados. Para a criação deste parque, a escolhida foi Catherine Mosbach, arquiteta-paisagista. O problema é que os 117 milhões deveriam cobrir a construção do museu e do parque, e só o projeto da SANAA para a realização dos edifícios do museu custaria muito mais do que isso.

Parc do Louvre-Lens

Começam as negociações para reduzir o custo do projeto. Enquanto isso, em outubro de 2006, a equipe de responsáveis e políticos fazem uma nova viagem a Bilbao e conversam com várias pessoas da cidade para ter mais noção do impacto do Guggenheim na sociedade local. Também visitam o Museu de Belas-Artes para ver as salas de exposições, que eram bem iluminadas, como queriam no projeto do Louvre-Lens.

Quadro Claude-Marie Dubufe
Claude-Marie Dubufe – La Famille Dubufe, 1820, Óleo sobre tela.

No segundo semestre de 2007, os custos iniciais são elevados para 127 milhões de euros (museu e parque). O pré-projeto definitivo é aprovado em novembro do mesmo ano e onze dias mais tarde ocorre a apresentação da maquete oficial. A previsão de inauguração do museu é para o ano de 2009.

Exposição temporária
Uma das exposições temporárias

Uma vez aprovado o projeto, começam as licitações para a construção do museu propriamente dita. O ano é 2008. Os lotes de licitação são divididos em cinco áreas: alicerces, desenvolvimento exterior, elevadores, eletricidade e canalização. Porém, por causa do baixo orçamento, quase não há candidatos. Assim, a construção sofre atrasos e o museu não poderá ser inaugurado nem mesmo em 2010.

Louvre-Lens

As licitações são revistas e lançadas no outono de 2009, com um nível orçamentário que pode atingir 150 milhões de euros. Desta vez, várias empresas se apresentam e a licitação é um sucesso. Mas o projeto do parque é colocado em espera, pois deverá sofrer ajustes para ficar mais barato. Logo em seguida, o canteiro é retomado e a data prevista de inauguração passa a ser 4 dezembro de 2012. Em 4 de dezembro de 2009, é colocada a primeira pedra do futuro Louvre-Lens.

Paul Delaroche
Paul Delaroche – Napoléon Bonaparte franchissant les Alpes au Col du Grand-Saint-Bernard en 1800. – Óleo sobre tela, 1848 (Napoleão Bonaparte atravessando os Alpes no desfiladeiro do Grand-Saint-Bernard)

Já em 2012, os últimos cem dias antes da inauguração são usados para as operações de instalação das obras. Serão 900 obras-de-arte expostas no futuro museu. Como previsto, em 4 de dezembro de 2012, o Louvre-Lens é inaugurado com a presença do então Presidente da República, François Hollande. Inicialmente, de 7 a 9 de dezembro, o museu fica aberto somente para os moradores da região, ou seja, do antigo Bassin-Minier (Bacia Mineradora). No dia 12, ocorre a abertura para o público em geral.

Louvre-Lens

A visita
Uma curiosidade é que o Louvre-Lens é um museu “sem coleção”, ou seja, ele não tem um acervo permanente. As obras que ele expõe são trocadas periodicamente (não há uma frequência exata) e vêm do Louvre de Paris. Sendo assim, o conjunto que eu vi pode ser diferente daquele que você viu ou vai ver. E isso não é ruim, pois mostra um museu que não se cansa de mudar, assim como a própria arte.

Galerie du Temps

A arquitetura do Louvre-Lens é bem acessível, tendo por objetivo fazer cada visitante se sentir acolhido. E está em comunhão com a beleza e a fragilidade do terreno que a abriga. A superfície desse terreno é de 20 hectares e a da construção é de 28 mil metros quadrados.

Louvre-Lens

O programa arquitetônico é fragmentado em cinco construções principais: a Galerie du Temps (onde estão expostas as obras), a Galerie des Expositions Temporaires, o Hall d’Accueil (recepção e centro de recursos), a Scène (sala de espetáculos) e o Pavillon de Verre (reservas e restauração das obras). Elas seguem a disposição dos antigos cavaliers, que eram os trilhos pelos quais o carvão das minas era transportado. Esta organização “descentralizada” das construções oferece vários percursos para o visitante. Assim, a visita não segue uma ordem pré-estabelecida.

Arquitetura do museu

As construções são horizontais, não passam de 6 metros de altura, o que combina com as antigas casas dos mineiros dos arredores, que são bem baixas. Vidro e alumínio são os materiais predominantes, assim há um jogo de transparências e reflexos deformados. A mudança das estações e das horas provocam uma variação de luz, dando vida a todo esse conjunto.

Louvre-Lens

Hall d’Accueil
A entrada se dá pelo Hall d’Accueil, um quadrilátero de vidro de 3600 metros quadrados. É um espaço de deambulação claro e luminoso, habitado por cilindros de vidro de 3 metros de altura, como se fossem bolhas flutuantes. Eles acolhem espaços funcionais, como o centro de recursos (mais detalhes no final do texto), a livraria-boutique, a cafeteria e até um espaço para piquenique. Coladas ao Hall d’Accueil, temos: a Galerie du Temps, a leste, e a Galerie des Expositions Temporaires, a oeste.

Hall d'Accueil musée

Galerie du Temps
É um espaço de 3 mil metros quadrados sem separação, onde as obras escolhidas são expostas. É uma exposição semi-permanente, pois essas obras podem mudar de tempos em tempos (frequência que pode variar de meses a anos).

Louvre-Lens

O período mostrado vai do terceiro milênio antes de Cristo até meados do século XIX. São cinco mil anos de obras vindas da Europa, Oriente Próximo, Egito, Índia, Américas e África. Além do acervo do Louvre de Paris, algumas das obras vêm também do Musée du Quai Branly-Jacques Chirac.

Galerie du Temps

Não há itinerário imposto. O visitante percorre as cerca de 200 obras na ordem em que preferir, podendo ir e voltar como quiser. Elas são apresentadas em ordem cronológica e reagrupadas em ilhotas. Agrupamentos que são realizados por critérios temáticos, formais e iconográficos. A percepção pode ser de cada obra individualmente, do conjunto de obras de uma ilhota, ou, ainda, da correspondência entre várias ilhotas.

Louvre-Lens
Assiute, Egito. Em torno de 1950 a.C. Porteuse d’Offrandes (Carregadora de Oferendas), madeira pintada.

A escolha do Louvre-Lens em expor seu acervo em um espaço aberto, ininterrupto, é para destacar que as várias civilizações têm mais em comum do que imaginamos, sobretudo no que diz respeito às artes. Para nos ajudar a entender e situar as obras, há uma frisa cronológica no alto da parede, percorrendo toda a galeria, além de textos e mapas espalhados pelas ilhotas.

Coleção de arte

Aqui vão alguns destaques das obras expostas na Galerie du Temps durante a minha visita. Os períodos da História não mudam, o que muda é o conjunto de obras apresentado. Como já escrevi acima, a frequência da mudança do acervo pode variar de meses a anos. E ela pode ser realizada por partes também.

Louvre-Lens

Antiguidade
O museu começa apresentando obras das civilizações que ocuparam a Mesopotâmia, região situada entre os rios Tigre e Eufrates, onde fica o atual Iraque, e que é considerada por muitos especialistas como o berço da civilização. Vemos obras dos Babilônios e Assírios, por exemplo.

Arte da Mesopotâmia
Girsu, Mesopotâmia. Em torno de 2400 a.C. Homme debout en prière (Homem em pé em oração).

Na área das Civilizações Antigas, havia também bastante coisa do Império Persa, que se estabeleceu inicialmente no planalto iraniano por volta de 2000 a.C. e que se estendeu por uma extensa área até 330 a.C.

Louvre-Lens
Suse (Irã atual), em torno de 510 a.C.. Fragmento da decoração da sala do trono do palácio do rei Darius I: Esfinges aladas

Já sobre o Egito, acho que nem preciso falar. Há muitas obras. Vemos estátuas, estelas e imagens dos deuses, vindas da época do Antigo Império (2700-2200 a.C.). Dos períodos mais “recentes”, é impossível não se encantar pelas peças trabalhadas em ouro.

Arte do Egito Antigo
Gizé, Egito. Em torno de 2500-2350 a.C. Le Majordome Kéki “doyen de la maison”, fonctionnaire de pharaon. (O mordomo Kéki, “decano da casa”, empregado de faraó).

E é claro que o mundo dos mortos não poderia ficar de fora, como os amuletos para espantar os maus espíritos e os sarcófagos, por exemplo. A mudança nas estátuas, o culto dos animais e o luxo crescente das necrópoles e santuários também são mostrados em obras de períodos posteriores da Civilização Egípcia.

Louvre-Lens

Arte egípcia
Mênfis, Egito. Em torno de 500 a.C. Tropa de servidores funerários (ouchebtis) em nome de Neferibreheb.

As civilizações Micênica e Minoica, que se desenvolveram no período Pré-Homérico (2000-1100 a.C.) na área geográfica que será a Grécia, também contam com obras na Galerie du Temps.

Louvre-Lens
Peloponeso, Grécia. Em torno de 1325 a.C. Figure féminine vêtue (figura feminina vestida)

Do Período Arcaico (800-500 a.C.) da civilização grega, vemos no Louvre-Lens principalmente as pinturas em vasos e as estátuas de homens e mulheres nus, chamados, respectivamente, de kouroi e korai. O apogeu da arte na região foi durante o Período Clássico (500-338 a.C.), o que podemos ver aqui no museu através da riqueza da pintura em cerâmica e do estatuário em mármore e bronze.

Arte grega
Paros (Arquipélago das Cíclades), Grécia. Em torno de 540 a.C. Jovem Nu (Kouros). Estátua proveniente do Santuário de Asclépio, deus da Medicina.
Louvre-Lens
Lucânia (atual Basilicata, Itália). Em torno de 380 a.C. Vase (cratère) à volutes: concours musical entre le dieu Apollon et le satyre Marsyas. (Vaso – cratera – à volutas: concurso musial entre o deus Apolo e o sátiro Marsias)

Com o surgimento do império comandado por Alexandre, o Grande, tem início o Período Helenístico, quando a cultura grega é levada para todos os confins conquistados pelo imperador. É desenvolvida uma arte da Corte, muito ligada à pessoa do soberano. E também há belas estátuas e até sarcófagos. E pude vários exemplos desta época no acervo do museu.

Mundo helenístico
Sidon, Fenícia (Líbano atual). Em torno de 325-300 a.C. Sarcófago com tampa esculpida com um rosto feminino

Indo para a Itália, no Louvre-Lens estão expostas algumas obras da civilização Etrusca, que ocupava a porção central da Península Itálica. E é claro que não poderiam faltar exemplares realizados pelo Império Romano, que chega a dominar um território gigantesco. Maravilhados pela cultura da Grécia, os romanos realizam muitas réplicas de obras gregas e também executam obras novas, inspiradas nessa civilização.

Arte romana
Itália. Em torno do ano 150. Júpiter, rei dos deuses romanos

Eles também desenvolvem uma arte de poder, como, por exemplo, nas representações de imperadores, generais e membros das elites. Outro destaque da cultura romana é a arte funerária, o que podemos ver nos sarcófagos cheios de relevos realizados por eles. Também eram excelentes na criação de mosaicos e afrescos, com os quais decoravam suas residências.

Louvre-Lens
Itália. Em torno do ano 160. Marco-Aurélio, imperador romano (161-180).
Mosaico romano
Utique (atual Tunísia). Em torno do ano 250. Fragmento de moisaico de uma decoração de fonte. Cupidos brincando com golfinhos.
Louvre-Lens
Detalhe do mosaico

E outras civilizações, como astecas ou incas, por exemplo, também podem figurar na coleção do museu. Como escrevi ali em cima, as obras expostas mudam, então, a minha visita pode ser diferente da sua.

Arte fenícia
Tiro, Líbano atual. Em torno de 1400-1200 a.C. Mulher nua com uma criança (uma deusa da fertilidade?)

Idade Média
Começamos a admirar a coleção de Arte Medieval a partir da Arte Bizantina. O nome vem de Bizâncio, que era a capital do Império Romano desde 330 d.C, durante o reinado de Constantino. Era uma arte também muito religiosa, pois o Cristianismo tinha se tornado a religião do Estado no ano de 380. Em 395, o Império Romano se divide e nasce o Império Romano do Oriente ou Bizantino. Assim, ao longo dos séculos seguintes, a Arte Bizantina foi evoluindo. À herança greco-romana são acrescentadas influências orientais. E as obras expostas no Louvre-Lens deste período mostram bem essas características.

Louvre-Lens
Constantinopla (hoje Istambul). Em torno de 1100-1150. Ícone: o Cristo abençoando e a Virgem em oração. Lápis-lazúli, ouro, prata dourada e pedras preciosas.

Então, a partir daqui falamos em Império Bizantino e já estamos na Idade Média. O tema principal da Arte Bizantina é imperial e religioso, ou os dois juntos. Como exemplo, temos os bustos de imperadores desta época. Já nas artes ditas privadas vemos obras realizadas com ouro, marfim, além dos esmaltes e cerâmicas.

Arte Bizantina
Em torno de 440. Príncipe da família do imperador do Oriente Teodósio II (408-450).

Na Europa Ocidental, aparecem as primeiras igrejas. A arte funerária é rica: os relevos dos sarcófagos estão cada vez mais trabalhados. Em 1054, acontece a separação da igreja do Ocidente e do Oriente. Com as Cruzadas e as peregrinações, a Igreja Católica do Ocidente vai alcançar uma grande glória. Monastérios e universidades serão criados. Os religiosos se tornam mecenas. É a época da Arte Românica, que se desenvolve entre os séculos XI e XII, de arquitetura monumental, com esculturas, pinturas e objetos com muita riqueza de detalhes. E o acervo do Louvre-Lens apresenta alguns exemplos.

Louvre-Lens
Limoges, França. Em torno de 1185-1200. Relicário em forma de igreja: O Cristo em majestade e Crucificação.

No século XII, aparecem as primeiras manifestações do que seria a Arte Gótica e que vai durar ainda quatro séculos. Na França é o começo da época das catedrais, que eram construídas cada vez mais altas, como status de poder do bispo local. As fachadas dos edifícios são ricamente esculpidas; no interior o vitral proporciona uma luz mágica. As estátuas religiosas ficam mais expressivas, menos sisudas e com ainda mais detalhes. O Cristo fica mais indulgente e a Virgem mais maternal.

Arte gótica
Nolay, ducado da Bourgogne (França). Em torno de 1400-1425. Retábulo da igreja Saint-Martin: a Virgem e o Menino entre os doze Apóstolos.
Louvre-Lens
Em torno de 1306. Jacente de Blanche de Champagne (morta em 1283), duquesa da Bretagne, vinda da Abadia de Hennebont (Bretanha, França atual).

No Louvre-Lens vemos também obras do Islã, que começa na Idade Média (o profeta Maomé morreu em 632). No século IX, a cidade de Suse, no oeste do atual Irã, se torna um centro produtor de arte, principalmente de cerâmicas. As belas caligrafias islâmicas (árabes) decoravam não só livros, como também monumentos e objetos do cotidiano.

Louvre-Lens
Objetos do Irã. Em torno de 1150-1250.

Já nos séculos XIII e XIV, as técnicas de metal incrustado e de vidro esmaltado dourado dão o tom da atividade artística. A Síria exporta garrafas e lamparinas destinadas a grandes construções. No Irã, a dinastia dominante encoraja as artes e a ciência. Mausoléus ricamente decorados são construídos, a caligrafia, a cerâmica e a pintura atingem um alto grau de refinamento artístico.

Arte medieval islâmica
Irã – Em torno de 1250-1300. Placa de revestimento com decoração de lamparina.

Idade Moderna

Como não poderia deixar de ser, o Louvre-Lens tem em seu acervo obras do Renascimento, este movimento que começa na Itália em meados do século XV e que foi marcado por um recentralização em torno do homem e um retorno à Antiguidade.

Sandro Botticelli
Alessandro di Mariano di Vanni Filipepi ou Sandro Botticelli – La Vierge et l’Enfant entourés de cinq anges, em torno de 1470. (A Virgem e o Menino cercados por cinco anjos)

Os temas religiosos ainda são presentes, mas os mitológicos ganham cada vez mais espaço. Assim como os retratos, que se democratizam por toda a Europa graças às inovações picturais, como a pintura à óleo, por exemplo.

Rafael
Raffaello Santi ou Sanzio, conhecido como Rafael – Portrait de Doña Isabel de Requesens (1509-1522), vice-reine de Naples, dit autrefois Portrait de Jeanne d’Aragon, cerca de 1518. (Retrato de Dona Isabel de Requesens, vice-rainha de Nápoles, conhecido antigamente como Retrato de Joana de Aragão).

Andando pela Galerie du Temps, também admiramos as belas obras do Barroco. Esse movimento se espalha pela Europa no século XVII sob o impulso da Contra-Reforma, que visava barrar a influência do Protestantismo.

Rubens
Pierre-Paul Rubens, Le Roi Ixion trompé par Junon qu’il voulait séduire, cerca de 1615. (O rei Íxion enganado por Juno, que ele queria seduzir).

Promovido pela Igreja Católica, no Barroco os temas religiosos voltam ao centro da criação artística. As pinturas e esculturas têm um aspecto dramático, propício para suscitar as emoções de quem as vê. É a arte da surpresa e da fantasia, feita por movimentos, jogos de curvas, de volutas e de espirais.

Louvre-Lens
Charles Le Brun. Sainte Marie-Madeleine renoçant aux vanités du monde, 1654-1657. (Sainta Maria-Madalena renunciando às vaidades do mundo).

Continuando nosso passeio pela Galeria do Louvre-Lens, chegou a vez do Classicismo. Trata-se de um movimento artístico que se caracteriza pelo senso de proporção, a busca pela harmonia das formas e o gosto pelas composições equilibradas e estáveis.

Louvre-Lens
Gilles Guerin. Louis XIV, roi de France (1643-1715), terrassant une figure allégorique de la Fronde, 1653. (Luis XIV, rei da França, esmagando uma figura alegórica da Fronde).

Iniciado na Itália no final do século XVI, ele encontra um terreno fértil para se desenvolver na França. É contemporâneo ao Barroco, mas é o oposto dele. A paisagem, que era um pano de fundo para pinturas religiosas e mitológicas, torna-se um tema autônomo. Na escultura, há a busca pela perfeição nas formas e nas proporções, com inspiração nas obras da Antiguidade.

Claude Lorrain
Claude Gellée, conhecido como Claude Lorrain. Paysage avec Paris et Oenone, dit Le Gué, 1648. (Paisagem com Paris e Enone.)

O museu também apresenta várias obras das três civilizações que dominam o mundo muçulmano nos séculos XVI, XVII e XVIII. A começar pelo Império Otomano, um dos mais poderosos da época. E desse período, destacamos a cidade de Iznik, um importante centro artístico de produção de cerâmica para todo o império. Também foram realizadas belas obras em marchetaria, metais preciosos, couro, etc.

Império otomano
Iznik, Turquia. Prato com buquê de tulipas e cravos, entre 1560 e 1580.

Na região da Pérsia (Irã), a dinastia Safávida toma o poder na virada do século XVI. Tem-se início, então, um período de mais de dois séculos onde a região se tornará um centro artístico efervescente. Serão produzidos belas cerâmicas, objetos em metais, em pedras e tapeçaria e livros.

Louvre-Lens
Irã. Garrafa decorada com um pavão em uma paisagem, entre 1650-1700.

Na Galerie du Temps há também obras da época do Império Mongol. Entre os séculos XVI e XVIII, esta civilização vai dominar o subcontinente indiano. É uma era de prosperidade e poder. E as artes não ficam atrás. O exemplo mais conhecido é o Taj Mahal, mas os mongóis realizaram belas obras também em madeira, marfim, metal, tanto para decoração de seus edifícios quanto em objetos de uso cotidiano.

Louvre-Lens
Índia. Pequeno cofre de viagem, entre 1600 e 1700.

Na Europa, principalmente na segunda metade do século XVIII, o Iluminismo vai provocar uma reavaliação de ideias e preconceitos em várias áreas, inclusive no campo artístico, com o Neoclassicismo, por exemplo. A descoberta de Pompéia e Herculano dá um novo impulso à inspiração na Antiguidade. No Louvre-Lens as obras escolhidas retratam bem o desenrolar desta época.

Iluminismo
Élisabeth-Louise Vigée-Le Brun. Portrait du peintre Joseph Vernet, 1778. (Retrato do pintor Joseph Vernet).

As esculturas parecem saídas de templos antigos e servem, inclusive, para decorar jardins. Há também uma proliferação de bustos de grandes homens da sociedade, inspirados nos antigos bustos dos imperadores romanos. Ao mesmo tempo, uma nova estética se desenvolve. Na pintura, os retratos voltam a ganhar força e as cenas de gênero, que mostram situações do cotidiano, até então consideradas temas banais, passam a ser usadas com caráter moralizante.

Louvre-Lens
Jean-Antoine Houdon. Portrait de l’écrivain et philosophe Jean-Jacques Rousseau, 1779. (Retrato do escritor e filósofo Jean-Jacques Rousseau).

E a visita à Galerie du Temps continua com as obras do século XIX. O Neoclassicismo continua em voga, e isso será até meados do século, com sua influência na Arte Clássica Greco-Romana e a busca pela harmonia das formas. Há uma valorização pelo passado histórico, o que na França se traduz pela representação de grandes feitos de sua História.

Louvre-Lens
Nicolas-Germain Charpentier, d’après Jean-François-Théodore Gechter. Pendule décorée du combat de Charles Martel et d’Abdérame, roi des Sarrasins, 1833. (Pêndulo decorado com o combate de Charles Martel e Abdérame, rei dos Sarracenos).

O começo do século é a época do Primeiro Império, com a política expansionista de Napoleão Bonaparte. Tanto nos anos do imperador como nas décadas seguintes, os temas históricos e mitológicos oferecem um terreno fértil para o mito de Napoleão. Ele é representado como herói tanto na pintura quanto na escultura, assim como alguns de seus aliados militares.

Napoleão
Louis-François Jeannest. Napoléon Bonaparte, Empereur des Français de 1804 à 1815 sous le nom de Napoléon I, et sa seconde épouse l’impératrice Marie-Louise d’Autriche, 1812. (Napoleão Bonaparte, Imperador dos franceses de 1804 a 1815, sob o nome de Napoleão I, e sua segunda esposa, a Imperatriz Maria-Luisa da Áustria).

Também são mostradas na Galerie obras do século XIX de outras correntes artísticas, como o Romantismo, e também de outros lugares, como, por exemplo, o mundo muçulmano. Há alguns retratos de soberanos de dinastias orientais da época. Enfim, a visita acaba em meados do século XIX, época da Revolução Industrial.

Louvre-Lens
Muhammad Hasan Afshar. Muhammad Shah Qajar, troisème souverain de la dynastie qajare, 1837-1838. (Muhammad Shah Qajar, terceiro soberano da dinastia qajar).

Galerie des Expositions Temporaires (Galeria de Exposições Temporárias)
Tem uma superfície de 1700 metros quadrados, que podem ser fechados de acordo com a necessidade de cada exposição. Ao todo, são organizadas duas exposições temporárias de envergadura internacional por ano.

Louvre-Lens

Pavillon de Verre (Pavilhão de Vidro)
É um vasto pavilhão de 1000 metros quadrados, no qual os espaços fechados no interior são moduláveis. É ali que ficam algumas obras vindas dos museus de Hauts-de-France (nome atual da região à qual pertence a cidade de Lens). O Pavillon abriga, também, as reservas e o ateliê de restauração. Como o pavilhão é de vidro, esses espaços são visíveis e o público pode ver como as obras são guardadas e restauradas. Para completar o percurso, há um espaço multimídia com mais informações sobre o Louvre-Lens.

As reservas do museu
As reservas do museu

O museu oferece, ainda, uma sala de espetáculos, chamada La Scène, com capacidade para 250 pessoas. Além de um Centro de Recursos, localizado no Hall d’Accueil, com uma biblioteca de mais de seis mil obras, dotada de equipamentos multimídia e que abriga espaços para grupos, famílias e eventos. Também no Hall d’Accueil, não poderia deixar de mencionar a Cafeteria, com pratos rápidos e doces com produtos da região. Pedi uma torta salgada de Maroilles, um queijo do Norte da França, e estava deliciosa.

Louvre-Lens

Louvre-Lens
Doce no formato dos terrils (montanhas de dejetos das minas de carvão, tipicas da região). Com pâte sablée (massa para tortas e doces mais arenosa), com amêndoas e musselina de castanhas cristalizadas.

O Parque
Não dá para falar do Louvre-Lens sem falar de seu parque. Afinal, ele é um museu-parque e um aspecto não pode ser concebido sem o outro. Este grande espaço verde prolonga o museu no exterior, inclusive do ponto de vista patrimonial. Sua aparência remete vagamente aos jardins ingleses e japoneses.

Louvre-Lens

Parc du Musée

O parque soube aproveitar os terrils (espaços planos ou colinas artificiais com dejetos, nesse caso não-poluentes, das minas), os antigos conjuntos de residências dos mineradores e toda a infra-estrutura que ficou ali com o abandono da atividade das minas do lugar. Até a vegetação que cresceu espontaneamente no local foi aproveitada.

Louvre-Lens
Terril plano (esse chão escuro).

Louvre-Lens

Os antigos trilhos, que levavam o carvão das minas até a rede ferroviária, chamados cavaliers, também foram aproveitados no parque. Eles viraram espaços de caminhada.

Louvre-Lens

Os reflexos do verde e das flores nas paredes de alumínio do museu provocam um efeito muito bonito e que muda de acordo com as horas do dia. Desde 2020, o Louvre-Lens propõe um projeto de instalações efêmeras de arte contemporânea pelo parque, uma reafirmação da vocação deste grande espaço verde como parte do Louvre-Lens.

Vegetação do parque

Louvre-Lens
99 rue Paul Bert
62300 Lens.
Horários – Museu: De quarta a segunda, das 10h às 18h. Fechado em 01 de janeiro, 01 de maio e 25 de dezembro.
Parque: Aberto todos os dias, das 7h às 21h.
Tarifas – Museu: Gratuito para a visita da Galerie du Temps e Pavillon de Verre.
Exposições temporárias – Tarifa: 10 euros. Reduzida (18 a 25 anos): 5 euros. Menores de 18 anos não pagam.
Várias visitas guiadas podem ser feitas, inclusive da reserva do museu. Mais informações, veja aqui.

Louvre-Lens

Como ir ao Louvre-Lens:
A partir de Paris, na Gare du Nord, pegar o trem em direção a Lens. Há trens diretos ou com correspondência em Lille ou Arras. A viagem pode durar de 1h a 2h horas (depende do trem). Para mais informações sobre horários e preços, consulte o site da OUI.sncf, a companhia de trens francesa.
Chegando na estação de Lens, são, mais ou menos, uns 15 minutos de caminhada. Mas é tudo bem sinalizado e o caminho passa pela cidade e segue os antigos trilhos das minas, em um lugar bem bonito.

Louvre-Lens
Uma parte do caminho para o Louvre-Lens

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Renata Rocha Inforzato

Sou de São Paulo, e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.

Comentários (3)

  • Marilda Teixeira Responder    

    7 de setembro de 2021 at 13:33

    Mais completo do q isso, impossível! Seu post do Louvre-Lens é um passeio pela História da Arte. Embora eu não seja muito fã de arquitetura “moderna”, esse lugar me encantou pela interação com a paisagem. Isso para nào citar as peças expostas, é claro. Afinal, é o Louvre! Ah, e confesso q a cafeteria é um espaço bastante atraente (rsrsrs). Aquele “Terril” me deu água na boca! Obrigada por me apresentar a essa preciosidade q é o Louvre-Lens. Bjs

  • Marcela Responder    

    15 de outubro de 2021 at 15:16

    Achei muito interessante conhecer o Louvre Lens no Norte da França! Estou planejando uma road trip e vou dar uma passada por lá, adoro museus!

  • Fernanda Responder    

    16 de outubro de 2021 at 22:44

    Nem lembrava mais que o Louvre tinha inaugurado um museu no norte da França! rs Mas realmente, esses grandes museus tem um acervo tão enorme, que acho ótima a ideia de fazer filiais em áreas onde estão faltando opções culturais para a população. Fora que também atrai mais turistas pro local. Só não gostei do prédio em si, moderno demais e destoando mais do acervo…

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