Newsletter Direto de Paris #7

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Château de Villandry e seus jardins, no Vale do Loire

 

Olá! Espero que você esteja bem. Eu estou bem contente em chegar a este número 7 da Newsletter do Direto de Paris. E obrigada por fazer parte da lista de assinantes, que recebem o link por email para chegar até aqui. Se quiser sair desta lista, basta me escrever no email contato@diretodeparis.com, colocando o assunto (senão vai para a caixa de spam), que removo seu email sem problemas. Se quiser ler as edições anteriores da Newsletter, basta clicar aqui.

Agosto por aqui rima com auge do verão e férias. A maior parte da população viaja, seja para a França mesmo, seja para o exterior. Paris, por exemplo, fica praticamente só com os turistas. E alguns lugares, como alguns restaurantes, fecham por alguns dias. Como disse na Newsletter anterior, estou indo para o Vale do Loire. Mas, no meu caso, não são férias. Estou indo para visitar lugares sobre os quais vou publicar aqui no blog. Por isso, a maioria das seções aqui da News vai falar sobre o Vale, que é uma região cheia de coisas lindas para ver, principalmente castelos, e super especial para mim. Espero que gostem de conhecê-la um pouco mais.

 

Vale do Loire – A região dos castelos na França

 

Em primeiro lugar, quero deixar uma coisa clara: o título não significa que no Vale do Loire só tenha castelos para se ver. Ao contrário, a região, como a França inteira, tem muitas atrações, como parques, belas cidades, museus, etc. O título do texto também não quer dizer que outras regiões francesas não tenham castelos. Elas têm e bastante.

Usei esse título porque o Vale do Loire é conhecido por abrigar a maioria dos castelos mais famosos da França e muitos deles pertenciam aos reis. É o caso de Chambord, do castelo de Amboise, de Blois, só para citar alguns. A importância da região é bem antiga. Na alta Idade Média, por exemplo, o Vale do Loire foi local para a construção de várias abadias, que ficavam às margens do rio Loire. Um exemplo de abadia construída na época é a Abbaye de Marmoutier, que nós podemos visitar.

Ainda nesta época, a região começa a ver a ascensão de grandes senhores feudais. Os condes de Blois e condes de Anjou dominam não só o Vale do Loire, como boa parte do reino. E a rivalidade entre essas duas “maisons” é que vai ditar a construção dos primeiros castelos. Um exemplo, é Foulques Nerra (972 ou 987-1040), que vai construir vários châteaux, abadias e igrejas. Uma de suas realizações foi a construção do primeiro Château de Langeais, cuja história você vê aqui.

 

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Château de Langeais

 

O Vale do Loire é composto por diversas regiões antigas, como, por exemplo, o Anjou, a Touraine, o Orléanais. O século XII vê a ascensão de Geoffroy V le Bel, conde de Anjou, que é também conde da Touraine, que conquista a Normandia e se casa com Matilda, que era viúva do imperador do Sacro Império Romano-Germânico e filha do rei inglês Henry I. Geoffroy nada mais é do que o fundador da dinastia dos Plantagenetas, que vai governar a Inglaterra a partir do seu filho, Henry II, e será fundamental para a história do país. E na França, os Plantagenetas durante um tempo terão mais terras e serão mais poderosos do que o rei francês.

O rei Philippe Augusto é que vai reconquistar, alguns anos depois, as terras que eram dos Plantagenetas. Mas é somente em meados do século XV que os reis da França vão escolher a região do rio Loire para construir suas residências. Tudo começa porque, durante a Guerra dos Cem Anos, é no Vale do Loire que o futuro rei Charles VII encontra refúgio e apoio, em uma época em que sua própria mãe, Isabeau de Bavière, fez um acordo com os ingleses e o afastou da sucessão ao trono francês. Assim, Chinon é a sede do reino até 1450. Seus descendentes, futuros reis, continuam na região e constroem castelos, assim como os nobres que os seguiam. Azay-le-Rideau, Villandry, dentre outros, são exemplos de châteaux construídos pelos senhores da Corte.

 

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Château de Chambord

 

A presença dos reis no Vale do Loire como residência principal dura até 1540, quando o rei François I se instala na região de Île de France (a região onde fica Paris). Mas o Vale continua a ser importante para a monarquia, e podemos ver isso na história do Château de Chenonceau, que foi da favorita do rei Henri II, Diane de Poitiers, e, depois da morte do soberano, tomado dela pela rainha viúva, Catherine de Médicis.  Outras construções são realizadas nos séculos seguintes, como o Palais de Chanteloup, por exemplo. Fora as reformas urbanas e construções de pontes para atravessar o Loire. 

Após o período conturbado das guerras do século XX, o Vale do Loire vè o crescimento do turismo, a revalorização dos seus rios e patrimònio, e é recompensado com a inscrição de seu perímetro na lista de Patrimônios Mundiais da Unesco, em 30 de novembro de 2000. Então, fica a dica aqui: além dos castelos já citados, as cidades de Tours, BloisAmboise Orléans, Vendôme, Saumur são só alguns exemplos de lugares dessa região histórica que valem a pena serem visitados.

 

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Château de Chaumont-sur-Loire em meio à neblina

 

Para quem gosta de ler!

 

A Chave de Sarah (Elle s’appelait Sarah), Tatiana de Rosnay
Editora Suma (21 de agosto de 2008)
312 páginas

Este livro toca com maestria em uma das grandes feridas da França na Segunda Guerra Mundial: a captura de 13 mil judeus parisienses em 16 de julho de 1942. Confinados uma semana no Vélodrome d’Hiver, uma pista de ciclismo no centro de Paris, eles são levados para um campo de concentração no Vale do Loire antes de partir para Auschwitz. O foco da narração se concentra em duas personagens: Sarah, a pequena judia que é obrigada a deixar seu apartamento com a família, não sem antes esconder o irmão caçula no armário. E Julia, uma jornalista americana que recebe a missão de escrever sobre a história do Vel d’Hiv, como ficou conhecido o triste evento do 16 de julho.

Assim, a história vai se desenrolando com Julia descobrindo Sarah e algo que as liga, e tentando saber o que acontece com a menina. Hoje, assim como  Auschwitz, se pode visitar o lugar onde ficava o campo de Beaune-La-Rolande, no Vale do Loire, onde Sarah foi internada. A região abriga um museu memorial das crianças do Vel d’Hiv. A Chave de Sarah é um livro essencial sobre um evento ainda tabu na França, escrito de maneira envolvente. Foi um dos melhores livros que li recentemente.  Os personagens são fictícios, mas quantas Saras não morreram por causa do Vel d’Hiv?

 

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Personagem

Honoré de Balzac – Um filho do Vale do Loire

 

Não dá para falar do Vale do Loire sem mencionar Balzac. Um dos grandes nomes da literatura francesa não só é originário da região, como também se inspirou nela como cenário de muitos de seus livros. O escritor nasceu em Tours, uma das grandes cidades do Vale, em 20 de maio de 1799, de uma família burguesa que ascendeu socialmente durante a Revolução Francesa e o Primeiro Império (de Napoleão I).

 Após os primeiros anos de estudo em Vendôme, Balzac vai estudar em Paris em 1813. Na capital, ele descobre a vida parisiense, intelectual e mundana, e quer virar filósofo. Mas sua família quer que ele seja tabelião. Logo em seguida, o jovem resolve viver como escritor. Prolixo, publica sob pseudônimos, como, por exemplo, Horace de Saint-Aubin. Em 1823, começa a colaborar com jornais e se lança na edição. Mas a aventura como editor é um desastre. Um outro fracasso, desta vez do seu livro Wann Chlore, publicado em 1825, o faz decidir abandonar a escrita. Ele tenta ser tipógrafo, mas tem uma nova falência e novas dívidas. É Laure de Berny, uma mulher mais velha e que era sua amante desde 1822, que o ajuda financeiramente.

Balzac resolve voltar para a carreira de escritor e em 1829 conhece um relativo sucesso com La Physiologie du Mariage (Fisiologia do Casamento) e Les Chouans. A partir de então, passa a assinar suas obras com seu nome verdadeiro. Ele se torna um homem do mundo, colabora com vários jornais e frequenta vários salões literários, principalmente o da duquesa de Abrantès, que se tornará sua amante. Em 1831, ele começa a assinar como Honoré de Balzac (até então, ele assinava Honoré Balzac, sem o “de”).

 

 

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Atribuído a Achille Devéria, Portrait de Balzac, realizado em torno de 1825.

 

Em 1831, é publicada a obra La Peau de Chagrin, de narrativa filosófica e fantástica, um retrato sombrio dos tempos conturbados que vivia a França. Em 1832, ele é tentado pela política. Até então anti-liberal, ele se torna monarquista e católico, sob a influência da duquesa de Castries, por quem ele é apaixonado. Aliás, a paixão do escritor pela aristocrata vai provocar nele uma crise e, em 1832, ele se refugia no Vale do Loire, onde começa a escrever algumas obras. Aliás, ao longo da vida, ele vai passar várias temporadas na região.

Balzac organiza suas obras em um conjunto, La Comédie Humaine (A Comédia Humana). Seus romances são caracterizados, a partir de então, pelo retorno dos personagens, em um papel principal ou secundário. É o caso da obra Le Père Goriot (O Pai Goriot), publicada em 1835, onde Rastignac, visto em La Peau de Chagrin, aparece vinte anos mais novo. Em seus romances, ele transporta para a ficção toda a complexidade da sociedade francesa no período da Restauração e da Monarquia de Julho (primeira metade do século XIX). 

E Balzac é orgulhoso da sua empreitada. Ele escreve para a condessa Hanska, polonesa, seu grande amor e casada com um príncipe russo: “Quatro homens terão uma vida imensa: Napoleão, Cuvier, O’Connel e eu quero ser o quarto. O primeiro viveu a vida da Europa, ele se contagiou com o exército! O segundo se casou com o globo! O terceiro se personificou em um povo! Já eu terei levado uma sociedade inteira na minha cabeça!”

 

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Daguerreótipo de Honoré de Balzac feito por Louis-Auguste Bisson, em 1842

 

Assim, as publicações se sucedem, eis algumas: Le Lys dans la Vallée (O Lírio do Vale, 1835-6), Histoire de la Grandeur et de la décadence de César Birotteau (História da Grandeza e da Decadência de César Birotteau, 1837), Illusions Perdues (Ilusões Perdidas, 1837-1841) e várias outras. Ao final, A Comédia Humana conta com 2 500 personagens e 133 obras. Tudo classificado em três grandes conjuntos: Études des Moeurs (Estudos da Moral), Études Philosophiques (Estudos Filosóficos) e Études Analytiques (Estudos Analíticos). 

Em 14 de março de 1850, Balzac realiza o sonho de se casar com a sua amante de anos, a condessa Ewelina Hanska, que tinha se tornado viúva. Mas sua alegria é de curta duração, pois ele morre cinco meses depois, em 18 de agosto de 1850, por causa de edema, peritonite e gangrena. Mas dizem que morreu de tanto escrever e pelo consumo excessivo de café. Diz a lenda que, agonizando, o escritor teria chamado Horace Bianchon, seu personagem médico da Comédia Humana. Balzac é enterrado no Père Lachaise, em Paris, e é Victor Hugo que faz sua oração fúnebre.

 

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Auguste Rodin, Buste de Balzac, 1892, Victoria and Albert Museum

 

Para Passear

Beaugency – Vale do Loire

 

Beaugency é uma pequena cidade bem bonita aqui no Vale do Loire. Sua história é muito antiga e vem do começo da Idade Média. Então, o seu centro histórico é cheio de monumentos e construções medievais, como a Tour César, a ponte do século XII e o castelo, só para citar alguns. Aliás, o Château de Beaugency é uma atração à parte. Construído no século XI, ele foi reformado no Renascimento e é um ótimo exemplo de residência senhorial. Hoje abriga um centro de arte contemporânea e projeções. Beaugency também fica às margens do rio Loire, o que lhe confere belas paisagens. Além disso, a cidade está inscrita na lista dos “100 Plus Beaux Détours de France” (100 mais belos circuitos da França), o que já vale a visita. Estou voltando lá agora em agosto e em breve vai ter uma matéria fresquinha aqui no site. Para saber mais sobre Beaugency, veja este site

 

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As ruas históricas de Beaugency

 

Château d’Azay-le-Rideau – Vale do Loire

 

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Para mim, este é um dos mais belos Castelos do Vale do Loire. É citado várias vezes por Balzac em Le Lys dans la Vallée (O Lírio do Vale). Construído na primeira metade do século XVI por Gilles Berthelot, é uma joia em puro estilo Renascimento Francês. Sua história é tão movimentada quanto o château, já que Berthelot teve o seu château confiscado pelo rei François I e sua esposa, Philippe, levou anos tentando recuperá-lo, sem sucesso. Depois de vários proprietários, Azay-le-Rideau foi adquirido pelo Estado em 1905, que, desde então, fez várias restaurações, a fim de manter o monumento com todo o brilho da época da sua construção.

Além da sua bela arquitetura exterior, as salas do castelo são uma viagem no tempo e cheias de beleza. Com móveis da época, tapeçarias e obras de arte, os cômodos de Azay-le-Rideau mostram bem como era a vida em um castelo no Vale do Loire. Além do Château, podemos visitar o parque de Azay. É um passeio agradável no meio de uma natureza preservada e com belas visões do castelo, cercado pelas águas. Para quem quiser saber mais e fala francês, várias visitas guiadas gratuitas acontecem por dia. Além do Château propriamente dito, vale a pena também passear pelo vilarejo, visitar a igreja Saint-Symphorien, caminhar por suas ruas históricas e à beira do rio Indre. Também vale a pena comer alguma coisa em um dos restaurantes do centro do vilarejo. Para saber mais sobre a história do castelo e como visitá-lo, veja esta matéria sobre o Château d’Azay-le-Rideau.

 

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O vilarejo de Azay-le-Rideau

 

Alguns eventos interessantes pela França

 

Como já é tradição por aqui, tenho três sugestões de eventos bem interessantes que acontecem na França. Quem estiver por estas bandas, pode aproveitar.

 

1) Arelate – Arles – Provence-Alpes-Côte d’Azur

Já pensou em visitar uma cidade cheia de monumentos da Antiguidade em um festival que te leva de volta à época dos romanos? Pois é o Arelate, que acontece agora no mês de agosto. São vários eventos: encenações, música, luta de gladiadores e até corrida de bigas. E tem vários ateliês para adultos e crianças aprenderem as profissões da antiguidade. Eu participei já deste festival duas vezes e adorei. Há atividades gratuitas e outras que são pagas. De 14 a 20 de agosto de 2022, vários horários. Para saber mais sobre o festival, clique aqui . E veja a matéria que fiz aqui no blog sobre o Arelate .

 

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2) Festival International des Jardins – Chaumont-sur-Loire – Val de Loire

O Château de Chaumont-sur-Loire é um dos mais imponentes do Vale do Loire. Mas ele é também conhecido por seu festival de jardins, que acontece no parque. Paisagistas e artistas do mundo todo vêm aqui apresentar suas criações contemporâneas a partir de um tema dado. São cerca de 30 jardins que evoluem ao longo dos seis meses de evento. Junto com os jardins, encontramos várias instalações de arte contemporânea. Já visitei este festival e vou este ano de novo. É bem legal. Vai até 6 de novembro de 2022. Para mais informações, veja o site oficial do evento.

 

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3) Festival de la Chaise-Dieu – Chaise-Dieu – Auvergne-Rhone-Alpes

Desde 1966, a abadia de La Chaise-Dieu acolhe este festival de música clássica na segunda semana de agosto. São cerca de 30 concertos que acontecem na igreja da abadia e, com o tempo, apresentações também foram sendo realizadas em outros monumentos do departamento da Haute-Loire. O festival se articula em três eixos: piano, música sacra e sinfonias. E artistas renomados do mundo todo fazem parte da programação. Além disso, o próprio vilarejo La Chaise-Dieu é uma atração à parte, com seu centro histórico e seus monumentos de arte românica. De 18 a 28 de agosto de 2022. Mais informações sobre o evento e preços, veja neste site .

 

 

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E a Newsletter especial Vale do Loire termina aqui. Espero que você tenha gostado de conhecer um pouco mais a região. Se tiver sugestões, pode deixar um comentário aqui ou escrever para contato@diretodeparis.com (colocando o assunto para não cair na caixa de spam).

Se você gosta do meu trabalho e quer apoiar o Direto de Paris, pode me ajudar através do Paypal (email diretodparis@gmail.com) ou usar o PIX a chave é o email contato@diretodeparis.com . Desde já agradeço, pois com seu apoio vou poder publicar mais conteúdo de qualidade e frequência aqui no site e em outros lugares também. Um grande abraço e até logo!

 

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Renata Rocha Inforzato

Sou de São Paulo, e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.

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