Chambourcy

A casa de André Derain, um mestre do Fauvismo

27 de julho de 2022

Last Updated on 27 de julho de 2022 by Renata Rocha Inforzato

Em Chambourcy, uma cidade na região parisiense, está a casa de um dos pintores mais importantes do século XX: André Derain. E ela é aberta ao público.

Derain

Para entender um pouco mais a importância do lugar, vamos conhecer a vida do artista. André Derain nasceu em 1880, em Chatou, também na região parisiense. Seus pais eram comerciantes e haviam perdido vários filhos, só sobrando André e seu irmão mais velho, René, que morreu em 1890. Por isso, os pais queriam que ele fizesse estudos mais “convencionais”. 

casa de pintor

Mas André Derain prefere a pintura e começa a pintar aos 15 anos. Ele, então, se inscreve na Académie Carrière, onde também está Matisse. Algum tempo depois, o artista encontra Vlaminck, com quem parte pelos arredores de Paris, para os lugares que foram inspiração para os Impressionistas, algumas décadas antes. Eles, inclusive, trabalham ao lado da Maison Fournaise, cenário tão querido de Renoir. Em 1901, acontece, em Paris, uma grande retrospectiva dedicada a Van Gogh. E as cores do artista cativam Derain.

Derain

Assim, as viagens pelo Sena continuam. Mas suas obras mudam. Uma explosão de cores quentes vem substituir os tons pálidos de antes. Pouco depois, Derain parte para a região de Collioure, às margens do Mediterràneo, perto da fronteira com a Espanha. Desta vez, o companheiro de estrada é Matisse.

Parc Maison André

Eles expõem as obras desta viagem no Salão de Outono de 1905. E é nesse evento que nasce o termo Fauvisme: a sala VII, onde estão expostas as obras dos jovens artistas, como Derain, Matisse, Vlaminck, é chamada de ‘la cage aux fauves” (a gaiola das feras), por causa das cores e do modo como elas são utilizadas nas obras (o céu pintado de rosa, o rosto de amarelo, árvores vermelhas e por aí vai). A reação do público e dos jornalistas é violenta. E o crítico de arte Louis Vauxcelles usa o termo fauvismo para designar o conjunto das obras exposto na sala “gaiola” (cage). Matisse, Derain e Vlaminck foram os principais representantes deste movimento.

Derain

No mesmo ano, André Derain recebe a proposta do colecionador Ambroise Vollard que quer comprar suas obras e dar a ele uma viagem para Londres. A capital inglesa ganha novas cores através do olhar do artista. Mas a guerra chega e a obra de Derain fica mais sombria, mais realista.

Derain

Em 23 de julho de 1935, André Derain adquire a casa de Chambourcy, uma das mais antigas da cidadezinha. Após algumas mudanças na residência, o artista e sua esposa se mudam para o lugar em janeiro de 1936. Com um grande parque de 3 hectares, a construção também é conhecida como La Roseraie.

Casa Andre

Foi uma época difícil para o artista, pois alguns meses antes, em outubro de 1934, ele havia perdido o amigo e seu comerciante de arte, Paul Guillaume (veja sobre ele no texto sobre o Musée de l’Orangerie. O baque foi tão grande que André Derain pensa em abandonar a atividade artística. Ele decide, então, voltar para a região que o viu nascer e escolhe a calma cidadezinha de Chambourcy.

Foto André Derain

Ali, Derain continua sua obra. E com sucesso, até que a Segunda Guerra vai representar um golpe duro para ele. Quando a Alemanha ocupa a França, a casa do pintor é tomada pelos alemães. Além da tristeza de não poder ter o seu lar, André Derain vê a forma como os ocupantes a tratam. Eles chegam a brincar de jogar pequenas flechas nas estátuas do jardim. O artista se refugia em Paris.

Derain

Em 1941, André Derain e outros artistas são convidados a viajar para a Alemanha. Com a esperança de recuperar sua casa, ele aceita. Porém, eles são usados para a propaganda alemã e são vistos como traidores por aqueles que eram contra o Nazismo. 

Palacete

Ao final da guerra, Derain é julgado e impedido de expor. Ele se retira, então, em sua residência de Chambourcy, recuperada dos alemães. Ali, ele continua a pintar e também a esculpir. Mas, apesar do isolamento, o artista ainda costuma  receber os amigos em casa, como sempre fez. Georges Braque, Alberto Giacometti, Ambroise Vollard são algumas das pessoas que sempre visitam o casal. 

Derain

Esta será a última residência de André Derain. Em 14 de julho de 1954, ele é atropelado perto de casa e morre alguns dias depois, no hospital de Garches, em região parisiense, em 08 de setembro de 1954, em consequência dos ferimentos.

Parque Chambourcy

A casa de André Derain em Chambourcy

A casa-atelier comprada por André Derain é uma das mais antigas de Chambourcy. Ela foi construída no final do século XVII ou começo do XVIII e sofreu alterações no século XIX. A residência sempre pertenceu a famílias ilustres da região. Uma delas foi a família de Bigot de Sainte-Croix, que foi o último Ministro de Relações Estrangeiras de Louis XVI. Outra família rica que ocupou a casa foi a Bassan, comerciantes bem-sucedidos de estampas. 

Derain

Ao adquirir a propriedade, Derain constrói um ateliê no térreo, derrubando as divisões de alguns cômodos dali. A iluminação proporcionada pela grande janela com vista para o jardim era ideal para o seu trabalho. Ele faz um segundo atelier no primeiro andar, também bem iluminado, e um terceiro no parque para suas realizações em grande formato. Interessado por civilizações de várias partes do mundo, o artista enche sua casa com obras de sua coleção. Também colecionava quadros de outros artistas, mas esta segunda coleção não existe mais.

Derain

Já o parque possuía estátuas em estilo Neoclássico, um lago, uma cascata artificial e várias pequenas construções à moda do século XVIII, conhecidas como “fabriques”. Havia também construções de uma antiga fazenda, uma quadra de tênis e uma Orangerie (onde se guardava as árvores frutíferas para o inverno). Esta última é a que Derain transforma em ateliê para suas obras em grandes formatos.

Banco de parque

Foi ali em Chambourcy que André Derain desenvolve sua carreira como escultor. Em uma noite de 1938, uma violenta  tempestade atingiu a casa, provocando a queda de uma grande árvore, além de destruir várias roseiras que haviam inspirado o nome do lugar (Roseraie). A árvore caída, com suas raízes soltas revela um solo argiloso fino e maleável. Perfeito para um artista curioso.

Cartazes

Ao entrar em contato com a argila do parque, Derain começa a produzir suas obras em terracota, como máscaras, bustos, figurinhas, entre outras. E, em um pavilhão ao lado da casa, ele cria um ateliê de escultor, com uma roda de oleiro para fabricar suas peças e um forno para assá-las. Outra curiosidade é que no parque havia até animais, como pavões, bodes e até cabras, além de gatos e cachorros. E circulavam ali à vontade.

Cavalete

Após sua morte, Alice continua vivendo no lugar até morrer, em 20 de  julho de 1975, aos 91 anos. Depois, a sobrinha do artista, Geneviève Taillade, que foi um dos seus modelos preferidos, mora na casa durante uns doze anos. Ela morre em fevereiro de 2013. 

Derain

Em 14 de abril de 1988, a casa é vendida ao doutor Albert Badault e sua esposa. Amantes de arte e cultura, eles vivem ali com os filhos e realizam trabalhos importantes. Eles também abrem a propriedade ao público, para que as pessoas possam sentir o ambiente que acolheu André Derain por quase vinte anos.

Porta retrato

Em 17 de outubro de 2014, a casa e uma parte do parque são comprados pelo município de Chambourcy. Logo depois, começam os trabalhos para devolver à propriedade o aspecto que possuía na época de André Derain. A intenção é que o lugar abrigue também associações ligadas à cultura. 

Chão decorado

Na primavera de 2018 (primeira metade do ano), o parque, em tamanho reduzido, é aberto ao público. Em 12 de outubro de 2019, é a vez da residência ser inaugurada. Ela é definitivamente aberta aos visitantes em janeiro de 2020.

Árvore

A visita

A casa-atelier de André Derain até hoje impressiona por sua bela arquitetura. Ela possui um frontão com óculo. Já do lado do jardim é a grande janela saliente do salão que se integra perfeitamente com a natureza. A pedra ocre da construção e a cor azul das persianas aumentam ainda mais o charme da residência. Uma curiosidade do cuidado na restauração: no telhado da casa há uma paleta, homenagem à vida e à atividade do artista.

Derain

Derain

A casa de André Derain tem dois andares. O térreo é composto pela entrada, um vestíbulo onde está a escada para o primeiro andar. Depois, há uma pequena sala e um grande salão, este último com uma janela saliente enorme para os jardins. Nestes dois cômodos, ficam expostas, principalmente, obras de exposições temporárias, que acontecem regularmente ali. Também vemos por esses cômodos cartazes de exposições sobre o artista realizadas em várias partes do mundo.

Sala de museu

Derain

No terceiro cômodo do térreo, estão alguns objetos e móveis que pertenceram a André Derain. Destaque para o piano onde ele tocava, por hobby, algumas peças. Outro belo móvel que chama a atenção e que pertenceu ao artista é um grande armário. Também vemos ali vários objetos e fotos da família e de Derain.

Salão de artista

armário antigo

Subindo a escada, no primeiro andar tem uma sala onde um filme de uns 15 minutos mostra a vida e obra de André Derain. Depois, vemos algumas publicações dedicadas ao artista. Algumas dessas publicações podem ser compradas.

Derain

Mas o ponto alto vem em seguida: o atelier de André Derain. Ele é o único cômodo exatamente igual à época do pintor. É um verdadeiro mergulho na vida e criação do artista. Ele, ao longo de sua vida, se liga a várias correntes, além do Fauvismo. Artista completo, Derain se dedica também à poesia, à gravura, à escultura e à produção de cenários, decorações e figurinos para o teatro. E é todo este universo que encontramos no ateliê.

Atelier

Derain

Vemos suas obras, seus desenhos, rascunhos, moldes, as coisas que ele colecionava, seus objetos pessoais e de trabalho. Ao vermos o cavalete, sua paleta, os pincéis e as tintas, parece que entramos no mundo da criação de suas obras, de seu processo artístico. É como se André Derain estivesse ali ainda e tivesse saído no meio do trabalho para ir beber um café ou comer alguma coisa. E o mais incrível é que esta parte da casa visitei em uma visita guiada conduzida por ninguém mais do que a sobrinha-neta de Derain, Geneviève-Javotte Taillade. Foi uma visita mágica!

Paleta

Derain

Para quem gosta de arte e de conhecer as belas cidadezinhas da região parisiense, recomendo muito visitar a Maison André Derain. E depois você pode dar uma volta em Chambourcy, que parece saída de um livro de história. E, para os mais antigos, como eu, que conheceram a empresa de laticínios Chambourcy, ela tem sim a ver com a cidade. Mas, isto é assunto para um novo texto.

Parque municipal

Maison André Derain
64, Grande-Rue,
78240 Chambourcy
Horários: A Maison André Derain se visita durante as exposições temporárias ou em visitas guiadas (em francês, com possibilidade em inglês). Para saber mais sobre as datas e reservar a visita, clique aqui.
Tarifas: visita com guia, 10 euros. Reduzida (crianças de 8 a 17 anos): 5 euros.
Horários do parque: de 16 de abril a 14 de outubro, todos os dias, das 8h às 20h30. De 15 de outubro a 15 de abril, todos os dias, das 8h às 18h. A visita do parque é gratuita.

Derain

Como ir para Chambourcy

1) De Paris, pegar o RER A até Saint-Germain-en-Laye (última estação) e do terminal de ônibus situado ao lado, pegar o ônibus R4 até Chambourcy, descendo na parada André Derain. A viagem dura cerca de 1 hora a partir de Paris.
2) De Paris, pegar o RER A até Poissy (última estação) e da estação pegar o ônibus 8 e descer em Chambourcy, na parada André Derain. A viagem aqui também dura mais ou menos 1 hora a partir de Paris.

Se preferir ir de carro, veja o site do Via Michelin

Maison André Derain

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Renata Rocha Inforzato

Sou de São Paulo, e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.

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