Exposições

Artemisia – Poder, glória e paixões de uma pintora

14 de julho de 2012

Essa é uma exposição que está nos seus últimos dias: acaba domingo, dia 15. Mas a intenção aqui é escrever um post sobre arte e ver se é uma boa para o blog. Então, vamos lá.

A exposição das obras de Artemísia, apresentada pelo museu Maillol, em Paris, é a primeira na França consagrada à artista. São cerca de 50 obras, vindas de vários museus europeus, americanos e de coleções particulares.

Documentário sobre a vida de Artemisia

O interessante dessa exposição é que ela não segue uma ordem cronológica. Ao contrário, as obras da fase final da vida da artista, do período em que morou em Nápoles, é que são apresentadas primeiro. Mostrando no início a maturidade e o auge do seu talento, a exposição quer nos fazer conhecer e compreender a genialidade de Artemisia e deixar a sua conturbada vida particular em segundo plano. No final, são apresentados os quadros realizados pelos aprendizes de seu ateliê.

Alegoria da Pintura - 1637 - Roma, Galleria Nazionale di Palazzo Barberini

De fato, pouca gente conhece a pintora, eu mesma pouco sabia dela. Conhecia o nome, mas nem sabia situar em que época ela viveu. No entanto, Artemísia foi uma das maiores pintoras do século XVII. Ela figura, na História da Arte, ao lado dos grandes nomes da pintura mundial.

Cleópatra - 1635 - Roma, Coleção Particular

Mas quem foi Artemisia Gentileschi?

Em uma época onde mulher só poderia ser virgem, esposa, freira ou prostituta, Artemisia ousou ser pintora. Até havia algumas mulheres artistas, mas eram subordinadas a seus maridos. Uma mulher só poderia se aventurar no mundo das artes se o marido tivesse a mesma profissão que ela, já que era proibido ao “sexo frágil” negociar encomendas, comprar materiais e receber pagamentos.

Betsabé no banho - 1636-1639 - Londres, Matthiesen Gallery

E Artemisia quebrou esse paradigma, pois, apesar de casada, foi sua própria agente e empresária, negociava de igual para igual com seus mecenas. E seu prestígio foi tão grande, que ela foi a primeira mulher a ingressar, em 1616, na Academia das Artes do Desenho (Accademia delle Arti del Disegno), com sede em Florença. Foi também grande amiga de grandes artistas e intelectuais da época, como Galileu Galilei, com quem trocaria correspondências por muitos anos.

Virgem amamentando - 1616-18 - Paris, Coleção particular

O problema é que a pintora ficou conhecida nos séculos seguintes mais pela sua vida privada do que pelas suas qualidades como artista. Assim como em sua carreira Artemisia foi à frente de seu tempo, na vida pessoal não fazia por menos: sedutora, teve muitos amantes, entre artistas e mecenas, muitos dos quais o marido tinha conhecimento.

Autorretrato com o alaúde - 1615-1619 - Minneapolis, Curtis Gallery

O mais importante deles, o florentino Francesco Maria Maringhi, com quem Artemisia manteria um caso até o final da vida de ambos (não se sabe quem morreu primeiro), era assessor do duque Cosme II de Médici, o todo-poderoso de Florença. Maringhi era amigo da pintora e de seu marido e cuidava das encomendas de Artemisia, quando esta resolveu deixar Florença e voltar para Roma. Enquanto trocava cartas de negócios e amizade com Pieroantonio – o marido -, com Artemisia a correspondência falava de negócios, claro, mas também de amor.

Retrato de uma dama sentada - 1620 - Coleção particular

Mas, boa parte dos especialistas prefere associar a impetuosidade da obra e vida da artista com o estupro que ela sofreu aos dezessete anos, em 1611, por parte de um colaborador de seu pai, chamado Agostino Tassi. Mas, na verdade, Artemísia, após ser violentada, manteve um relacionamento sexual de nove meses com Tassi, pois acreditava nas promessas de casamento feitas por ele. Porém, o pintor já era casado.

Judith e Holofernes - 1612 - Nápoles, Museo Nazionale di Capodimonte

O que pode tê-la marcado, contudo, é o processo que seu pai abriu contra o ex-colaborador, que durou nove meses. Nesse tempo, além de sofrer humilhantes interrogatórios, a jovem italiana chegou a ser torturada. Detalhe: o processo não foi pelo estupro e sim pela promessa de casamento não cumprida por Tassi, que foi condenado ao exílio fora de Roma, mas nunca cumpriu a pena. No final, a condenada foi Artemisia, que, além de ter a perda da virgindade tornada pública, ainda foi obrigada a se casar com Pierantonio Stiattesi, um pintor medíocre, irmão do notário que trabalhava para seu pai.

Judith e a serva com a cabeça de Holofernes - 1617-1618 - Florença, Galeria Palatina

No entanto, dizer que a obra de Artemisia foi consequência de sua vida pessoal é reduzir sua importância. A artista tinha um talento raro e, desde cedo, seu pai, o também pintor Orazio Gentileschi, percebeu isso. Nos idos dos séculos XVI e XVII era comum um pai pintor fazer de seu filho seu aprendiz. Às filhas cabia apenas aprender a arrumar o ateliê. Elas só se tornavam aprendizes na falta de irmãos homens e somente para aliviar a carga do pai. Geralmente, se casavam com algum aprendiz do ateliê e este, sim, tornava-se o herdeiro do mestre. Artemisia tinha cinco irmãos, todos homens, e foi ela a aprendiz, formada desde cedo por seu pai. Ela seria a herdeira da arte de Orazio.

Retrato de um gonfaloneiro - 1622 - Bolonha, Collezioni Comunali d'Arte

E através da primeira obra assinada por Artemisia, Susanna e i vecchioni (Susanna e os Velhos, 1610), portanto, antes do estupro, podemos ver a dramaticidade, sentir a angústia da personagem, a malícia, a cobiça e a violência moral dos dois velhotes. O que prova que o caráter real, nu e cru, dramático e violento de suas telas é mais consequência do temperamento impulsivo de Artemisia do que dos revezes que sofreu durante sua juventude.

Susanna e os velhos - 1610 - Pommersfelden, Coleção Schönborn

Seu talento era tão grande, que ela assimilou melhor que seu pai as inovações trazidas por Caravaggio. Especializando-se no nu feminino e no retrato, Artemisia levou para suas obras o contraste entre luz e sombra para dar destaque às formas e volumes, acentuando a dramaticidade das pinturas; a escolha em representar personagens não idealizados e a atenção aos detalhes, como, por exemplo, à textura dos tecidos ou aos movimentos dos músculos.

Nascimento de São João Batista - 1635 - Madri, Museo Nacional del Prado

As poucas mulheres pintoras da época especializavam-se em retratos, mas Artemisia revolucionou essa área. Seus personagens não são estáticos, passivos, eles mostram movimento, drama, vontade, mesmo pelo olhar. Suas heroínas são vivas, ativas e, como a própria artista, protagonistas de seus destinos ou, ao menos, de seus dramas. E, se necessário, Artemisia não hesitava em ser o modelo de suas próprias telas, assim como o fora para as obras de seu pai, o que era considerado um escândalo.

Dânae - 1612 - Saint Louis, The Saint Louis Art Museum

Artemisia tinha consciência do seu valor. Além de negociar pessoalmente as encomendas que recebia com as pessoas mais importantes das cidades onde viveu – Roma, Florença, Veneza, Londres e Nápoles – , a pintora fazia ainda sua autopromoção, enviando suas obras para que potenciais mecenas conhecessem seu trabalho. Se um quadro fazia sucesso, não hesitava em repetir o tema, mas fazia questão de dizer que sempre tinha imaginação para não fazer composições totalmente iguais.

Corisca e o Satyro - 1635-1640 - Coleção particular

E ela sabia, também, o quanto o fato de ser mulher influía na sua carreira, na percepção desta em um mundo extremamente masculino. Em uma de suas cartas para seu último mecenas, ela escreve: “Você encontrará em mim a alma de um César em um corpo de mulher”. E Artemisia estava certa, tanto que, mais de 400 anos depois, suas obras estão aí como testemunhas de sua genialidade e talento.

Museu Maillol - Paris

Cronologia
8 de julho de 1593 – Nascimento, em Roma, de Artemisia, filha mais velha do pintor Orazio Gentileschi.
1608 – 1610 – Começa a pintar suas primeiras obras.
1611 – Artemisia é violentada por Agostino Tassi, colaborador de seu pai.
1612 – Orazio abre um processo contra Agostino por violar a honra de sua filha. Artemisia é obrigada a se casar com Pierantonio Stiattesi.
1613 – O casal deixa Roma e parte para Florença. Artemisia começa a pintar para o duque Cosme II de Médici, por intermédio de Francesco Maria Maringhi, seu amante.
1616 – Artemisia é a primeira mulher a ser admitida na Academia das Artes do Desenho (Accademia delle Arti del Disegno).
1620 – Por causa de inúmeras dívidas, Artemisia e Pieroantonio fogem para Roma. Ela realiza várias encomendas e faz nome na cidade.
1623 – Segundo documentos, Artemisia não vive mais com Pieroantonio.
1627 – Parte para Veneza, onde também adquire uma boa reputação como artista.
1630 – Parte para Nápoles a convite do duque de Alcalá, vice-rei do Reino de Aragão (reino que depois formaria a Espanha). O sul da península italiana era parte da Coroa de Aragão desde 1504, sendo denominada Reino de Nápoles.
1637 – A contragosto parte para Inglaterra a convite do rei Charles I. Seu pai Orazio ali estava desde 1626.
1639 – Morte de Orazio.
1640 – Artemisia volta para Nápoles. Ela dirige seu próprio ateliê e tem diversos colaboradores, incluindo sua filha Palmira (a única sobrevivente de seus quatro filhos).
1654 – Data do último documento com referência à pintora. Supõe-se que ela tenha morrido em 1656 durante a epidemia de peste.

Informações:
Exposição: POUVOIR, GLOIRE ET PASSIONS D’UNE FEMME PEINTRE
Museu Maillol
61 Rue de Grenelle 75007 Paris, França.
Metrô: Rue du Bac, linha 12.
Horários: aberto todos os dias, 10h30 às 19h00. Quinta-feira até às 20h45
Tarifa: 11 euros
Até domingo, 15 de julho.

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Renata Rocha Inforzato

Sou de São Paulo, e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.

Comentários (4)

  • Juliana Responder    

    16 de julho de 2012 at 1:00

    Rê, que historia fascinante a dessa artista! E os quadros dela são mesmo belíssimos, fortes, com muita personalidade. Obrigada por me trazer, ao menos textualmente, a experiência de visitar essa exposição super interessante!! E que venham muitas mais! Beijos!

  • Juliana Responder    

    16 de julho de 2012 at 1:01

    Que maravilhoso é o “Retrato de uma dama sentada”! Queria ter visto ao vivo…

    • Renata Inforzato Responder    

      9 de agosto de 2012 at 13:47

      Ju,

      Obrigada! Eu amei conhecer a vida e obra de Artemisia. Conhecendo um pouco você, tenho certeza que iria adorar

      beijos

  • Guia Galeria Degli Uffizi – para desvendar um dos museus mais fascinantes de Florença | Direto de Paris Responder    

    27 de fevereiro de 2015 at 22:58

    […] mulher à frente do seu tempo, que conseguiu manter um ateliê e viver da sua arte (já falei dela aqui). Enfim, para fechar a visita com chave de […]

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