Atrações

Arènes de Lutèce – Uma herança dos romanos no meio de Paris

2 de julho de 2014

Demorei muito tempo para visitar as Arènes de Lutèce. E, no entanto, é um lugar importantíssimo para a história de Paris. Junto com as termas de Cluny, elas são os únicos elementos bem conservados da época em que os romanos conquistaram a cidade. E, o mais incrível, é que por duas vezes elas quase foram destruídas.

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No século I d.C, Paris se chamava Lutèce (Lutetia em latim) e contava com cerca de 20 mil habitantes. Como quase toda cidade do Império Romano, tinha termas, templos e, é claro, as arenas, estas últimas construídas no final do século ou no começo do II.

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Elas eram situadas fora da cidade, para que também as pessoas dos arredores pudessem ir. Mediam cerca de 130 metros de comprimento por 100m e largura e podiam acolher mais ou menos 17 mil espectadores.

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O que chamam de arenas, na verdade era um amphithéâtre à scène, ou seja, um anfiteatro que possuía um palco de 41 metros de comprimento, decorado provavelmente com nichos, estátuas e várias cores. Era utilizado para peças, que poderiam também ser cantadas ou mímicas. Já a parte central, a arena propriamente dita, era o lugar para os combates de gladiadores ou entre gladiador e animais.

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Os construtores souberam aproveitar o declive natural do terreno para fazer o anfiteatro. Isso era uma característica das cidades galo-romanas e possibilitava economizar tempo, material e dar estabilidade à construção.

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Estima-se que havia 35 fileiras na arquibancada. Os escravos, mulheres e pobres ficavam na parte superior. Já os ricos e nobres na parte inferior, em lugares com seus nomes gravados. No verão, havia uma cobertura em tecido.

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A fachada era monumental, ritmada por 41 baias, separadas por colunas. O acesso se dava por duas grandes entradas, inclinadas e com 5,90 metros de largura. Salas de serviço, chamadas de cárceres, ficavam perto delas.

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A vida as arenas é relativamente curta. Elas começam a ser abandonadas mais ou menos no século IV e são, pouco a pouco, destruídas. Desde 285, várias de suas pedras são reutilizadas na construção da muralha da Île de la Cité – que os habitantes ergueram para se proteger das invasões bárbaras – e de casas.

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Depois de abandonado, o lugar se transformou em uma necrópole: foram encontrados objetos dos séculos V e VI d.C. No século XIII, as arenas desaparecem: são soterradas pela terra e entulho, resultado do fosso cavado em torno da muralha de Philippe Auguste.

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Alguns séculos depois, mais precisamente no XVII, um convento, Notre-Dame-de-Lion, e seus jardins se instalam ali, onde antes ficava as arenas.

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E elas ficam esquecidas por muito tempo. Aliás, já tinham entendido falar delas em um documento medieval, mas ninguém sabia exatamente onde ficavam. Até que, em 1869, ao escavar o lugar para a abertura da rua Monge, a parte norte das arenas é encontrada. O responsável pelo feito é o arqueólogo e arquiteto Théodore Vacquer.

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Mas o terreno pertencia à Compagnie des Omnibus que, em 1870, durante a terraplanagem da área para a construção de um depósito, decide demolir as arenas. Inicia-se então um movimento para preservar o local, mas a comissão de monumentos históricos faz uma avaliação desfavorável do lugar. E o prefeito Haussmann parece não querer gastar dinheiro para restaurar as arenas.

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Assim, uma parte delas é demolida: a Compagnie des Omnibus constrói ali seus escritórios e, ao longo da rua, casas são erguidas. Depois do abandono do século IV, é a segunda vez que as arenas correm risco de desaparecer por completo.

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Somente em 1883, com a intervenção de pessoas influentes, entre elas o escritor Victor Hugo, é que a cidade de Paris adquire o terreno e resolve preservar as arenas, declarando-as Monumento Histórico. Em seguida, começa uma segunda campanha de escavações, que tem como resultado a descoberta da parte sul. Até um esqueleto de 2,10m é encontrado.

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Em 1917, Louis Capitan, médico, arqueólogo e professor do Collège de France, financia novas escavações e a restauração, esta realizada pelo arquiteto Jules Formigé. É mais uma reconstituição, mas que dá bem a dimensão do que eram as arenas. O lugar se torna, então, um jardim público, com 12 160 metros quadrados, bancos, grades, etc.

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As Arènes de Lutèce hoje abrigam cerca de 7 mil arbustos, plantas herbáceas e heras. Muitas árvores também decoram o jardim, como, por exemplo, um grande freixo que faz sombra na arena. No verão, elas aliviam o calor e o sol que bate forte ali no jardim (pois é um lugar alto).
Atrás das arenas, há uma alameda de sóforas ao lado de uma área reagrupando as pedras tiradas ao longo das escavações.

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Em qualquer hora do dia, encontramos muitas crianças jogando futebol e senhores disputando uma partida de petanca (jogo que lembra a bocha). Mas é um lugar muito calmo, pois nem escutamos os carros das ruas ao lado. Assim, é muito gostoso sentar ali, sentir a paz do local e imaginar como era há mais de dois mil anos. Para terminar, uma dica: o Musée Carnavalet abriga os objetos encontrados nas arenas.

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Square des Arènes de Lutèce
59 rue Monge
75005 Paris
Metrô Monge – linha 7
Cardinal Lemoine – linha 10
Entrada também pela rue des Arènes e rue de Navarre
Horários: do horário de inverno (fim do horário de verão) até final de fevereiro, segunda a sexta, das 8h às 17h45. Finais de semana e feriados: abre às 9h.
De 1º de março ao horário de verão, segunda a sexta, das 8h às 19h. Sábados, domingos e feriados, abertura às 9h.
Do horário de verão a 30 de abril, segunda a sexta, das 8h às 20h30. Finais de semana e feriados: abre às 9h.
De 1º de maio a 31 de agosto, segunda a sexta, das 8h às 21h30. Sábados, domingos e feriados, abertura às 9h.
De 1º a 30 de setembro, segunda a sexta, das 8h às 20h30. Finais de semana e feriados: abre às 9h.
De 1º de outubro ao horário de inverno, segunda a sexta, das 8h às 19h30. Sábados, domingos e feriados, abertura às 9h.

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Renata Rocha Inforzato

Sou de São Paulo, e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.

Comentários (10)

  • Karla Gê Responder    

    2 de julho de 2014 at 12:29

    oi, Renatinha!

    Adorei o post! Bem que eu gostaria de ter lido um post desses antes de visitar as arenas em 2010…acho que teria aproveitado mais! Vou voltar lá quando der!
    Me lembro de ver aquelas pessoas jogando bola e petanque e achar um barato como Paris preservava a parte antiga de sua cidade e a mesma era usada pelas pessoas de hoje para outros fins….mas volto lá numa outra oportunidade!
    Victor Hugo foi “o cara”, né? Ele foi responsável pela preservação de muita coisa que temos hoje em Paris. Vai ver é por isso que gosto tanto dele! rs
    Só um detalhe off-topic: percebi que vc já está francesa! Em vez de escrever : “Aliás, já tinham ouvido falar delas em um documento medieval…”, vc escreveu como dizem os franceses “entendido falar”….achei bacana! Isso mostra o quando vc internalizou a língua e a cultura francesas! rs
    beijão

    • Renata Inforzato Responder    

      2 de julho de 2014 at 13:50

      Oi Karlinha, da próxima vez que vc vier, vc vai com certeza. Não fica longe de onde vc se hospeda. Tb adoro Victor Hugo. Na verdade, entendido falar não está errado. Eu tinha escrito “ouvido falar”, mas como se tratava de um documento, achei estranho e mudei. Um beijão e obrigada por comentar

      • Karla Gê Responder    

        2 de julho de 2014 at 22:26

        Eu sei que não está errado, Renatinha, só comentei pq achei bacana vc ter escrito assim, já que mostra o quanto vc internalizou a língua, o que é ótimo, né? Tenho uma conhecida que mora em Paris e que sempre diz “Faça atenção” em vez de “Tome cuidado”….acho um barato! 🙂
        Quando eu voltar a Paris, se der, levo minha mãe nas arenas sim! E vou ler seu post pra ela antes, assim já vamos com mais conhecimento do local!
        beijão

        • Renata Inforzato Responder    

          3 de julho de 2014 at 18:19

          Oi Karlinha, mas pra misturar os dois idiomas é um pulo. Tem horas que vou ao dicionário para verificar se não escrevi besteira rsrsrs. Traga ela sim, e espero que vcs venham logo. Sua mãe é muito simpática. Obrigada por sempre estar lendo o blog. Um beijão

  • Fernanda Scafi Responder    

    2 de julho de 2014 at 16:49

    Eu visitei em 2003!!! rs E aliás achamos um restaurante demais ali pertinho! Pena que não lembro o nome…

    • Renata Inforzato Responder    

      2 de julho de 2014 at 19:05

      Oi Fê, ali tem uns lugares ótimos para comer. Mas tem tantos que a gente até esquece. Obrigadão por comentar. Um beijo

  • Square Captain – o jardim que celebra a biodiversidade | Direto de Paris Responder    

    6 de julho de 2014 at 0:36

    […] ← Arènes de Lutèce – Uma herança dos romanos no meio de Paris […]

  • Natalia Itabayana Responder    

    7 de julho de 2014 at 8:22

    Nos encantamos com esse lugar quando visitamos ano passado, aproveitamos pra fazer um piquenique e relaxar numa sombrinha fresca por lá. Graças à Victor Hugo, ainda podemos ver este vestígio precioso da ocupação romana. E graças a ele também que fiquei sabendo da existência das arenas.

    • Renata Inforzato Responder    

      7 de julho de 2014 at 22:17

      Oi Nat! Victor Hugo foi um herói, além de gênio. Ele e todos os intelectuais apaixonados por História é que salvaram todo esse patrimônio que vemos pela França hj. Um beijão e obrigada por comentar

  • Musée de Cluny – o museu da Idade Média nas antigas termas de Paris | Direto de Paris Responder    

    12 de outubro de 2015 at 15:29

    […] contei aqui neste texto das Arènes de Lutèce sobre a Paris na época dos romanos. Eles construíram uma série de coisas além das arenas, como, […]

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