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Véro-Dodat – a galeria coberta que pouco mudou

28 de fevereiro de 2019

A Véro-Dodat é uma galeria coberta que fica perto do Louvre e do Palais-Royal, no centro de Paris. É um lugar bonito, com mais de cem anos de história e curiosidades que tornam a visita ainda mais interessante.

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A história da Galerie Véro-Dodat começa com dois charcuteiros, Benoît Véro e François Dodat. Ambos tinham lojas ali perto de onde seria construída a galeria. A loja de Véro ficava na rue Montesquieu e a de Dodat era na rue Saint-Denis, perto da Porte Saint-Denis. Os dois eram conhecidos em Paris e haviam feito fortuna.

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Em 1819, Véro compra o Hôtel Quatremère, um palacete do século XVII construído a mando de Dreux d’Aubray, conselheiro de Estado e capitão da prisão do Châtelet. Aí vem uma curiosidade: o oficial d’Aubray era pai de Marie-Madeleine Dreux d’Aubray, marquesa de Brinvilliers, que o mata envenenado. Ela assassina, também com veneno, seus dois irmãos e uma irmã, até que é presa e executada, em 1676, na então Place de Grève, onde hoje fica o Hôtel de Ville (a prefeitura de Paris).

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Além de adquirir este trágico palacete – o Hôtel Quatremère -, Benoît Véro também compra os lotes vizinhos. A intenção era construir ali uma passagem coberta. Neste começo do século XIX, a especulação imobiliária estava a todo o vapor e várias passagens cobertas estavam sendo construídas. Era um negócio bem lucrativo abrir uma. Véro então se associa a François Dodat e, juntos, constroem a galeria, que é inaugurada em 1826.

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A profissão dos dois proprietários, que eram charcuteiros, provoca risos na época. Diziam que era uma passagem coberta construída com golpes de cervelas (salsichão com especiarias) e de salsichas. Mas o fato é que a Galerie Véro-Dodat conhece um grande sucesso logo na sua inauguração. E isso é provocado, principalmente, por três fatores.

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Primeiro, ela fica entre o Palais-Royal e o bairro des Halles (onde ficavam os mercados centrais). E esses lugares eram alguns dos mais movimentados de Paris. Para ir de um até o outro, a melhor forma de cortar caminho e se proteger da chuva e do frio era passando pela Galerie Véro-Dodat. Com isso, as lojas estavam sempre cheias de clientes.

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Outro motivo era que ali em frente a uma das saídas da galeria, onde hoje é a rua Jean-Jacques-Rousseau, ficavam as Messageries Laffite-et-Caillard, um serviço de diligências que percorria praticamente a França toda. Como naquela época ainda não havia as estradas de ferro, as pessoas viajavam com essas diligências. Além da Laffite, várias outras empresas ficavam nos arredores da galeria. Assim, os passageiros e acompanhantes acabavam visitando a Galerie Véro-Dodat para comprar algo ou comer nos seus restaurantes.

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O terceiro motivo, não menos importante, era a própria decoração da galeria, aclamada pelas pessoas da época. As fachadas das lojas são criadas de maneira idêntica, dando uniformidade ao conjunto. Tudo é feito com materiais de ótima qualidade. O chão, por exemplo, é de mármore. A cobertura é quase totalmente de vidro, porém, em algumas partes há um teto de motivos decorativos de caixotões revestidos por telas representando figuras mitológicas, algo não visto em outras passagens cobertas da mesma época.

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Pintura representando Mercúrio

Assim, além de ser um lugar muito frequentado, a Galerie Véro-Dodat era considerada uma das mais luxuosas de Paris. E as lojas que ela abrigava na época eram bem interessantes.

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A mais famosa delas é a Maison Aubert. Além de comercializar estampas e gravuras, a loja era o lugar de edição, impressão e venda de dois jornais: La Caricature (1830) e Le Charivari (1833). A caricatura fazia sensação neste período. Vários artistas publicavam em jornais e revistas satirizando a Monarchie de Juillet (Monarquia de Julho) e o rei Louis-Philippe I. O dono da loja e dos jornais, Charles Philippon, provocou escândalo ao retratar o rei em forma de pera.

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Vários artistas famosos na época, como Honoré Daumier, Paul Gavarni, Jean-Jacques Grandville e outros publicavam suas caricaturas nos dois jornais, que eram os mais importantes desta área. E, depois de publicadas, as obras eram expostas na vitrine da loja, atraindo uma multidão de curiosos. A sua boutique ficava no número 38, bem na entrada da galeria que dava para a rue du Bouloi.

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No segundo andar do mesmo imóvel ficava o apartamento da atriz Élisabeth Rachel Félix, conhecida somente como Rachel. Ela morou ali de 1838 a 1842. Já famosa na época, ela era amiga de vários artistas, escritores, políticos, etc. Adorava receber esses amigos em casa. O escritor Alfred de Musset descreve uma visita a ela na obra Le Souper chez Mademoiselle Rachel, de 1839. Nascia ali uma bela amizade, que muitos suspeitavam e ainda suspeitam que era colorida.

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Em 1840, o apartamento da atriz pega fogo. O incêndio havia começado no primeiro andar, nas reservas da Maison Aubert. Mas, de acordo com os jornais da época, nada de grave aconteceu. O fogo só havia provocado um pouco de medo e a queda de uma parte do teto.

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Outra loja famosa nos primeiro anos da Galerie Véro-Dodat é a do senhor Bontoux, no número 30. O pessoal vinha de longe para comprar suas timbales, uma espécie de empadão que pode ser de carne, legumes, peixes, etc. A loja até ficou famosa, pois uma de suas balconistas foi tema de um artigo na publicação Le Plus Belles Femmes de Paris (As Mais Belas Mulheres de Paris). A clientela masculina dobrou.

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Pintura do teto: anjinho representando as artes

Um dos lugares para comer nesse período é o Café de l’Époque. Foi ali que o poeta Gérard de Nerval, um frequentador da galeria, tomou uma bebida antes de ir se matar por enforcamento no bairro do Châtelet, ali perto.

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Além de todas essas lojas, havia ainda boutiques de moda, de novidades, de presentes, duas livrarias, comerciantes de quadros, vendedores de malas, de guarda-chuva, etc. Até lojas e profissões hoje não tão comuns, como, por exemplo, um peleiro para viagens, marcavam presença na Véro-Dodat.

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A partir do Second Empire (Segundo Império,1851-1870), a Galerie Véro-Dodat começa a entrar em decadência. Com o surgimento das estradas de ferro, as pessoas não usavam mais as empresas de diligências ali perto da galeria. Com isso, o movimento já começa a diminuir. A coisa só piora a partir de 1880, quando as Messageries Laffitte-et-Caillard, a mais importante empresa de diligências, fecha.

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Além disso, a opinião pública não é mais tão favorável à galeria. Dizem que ela é sombria, que ali falta o ar e a luz do dia. E que quando os globos à gás estão acesos, a temperatura fica muito elevada e o cheiro é insuportável. O jornal Le Monde Illustré, de 1893, chega a publicar que a Galerie Véro-Dodat é triste como a morte.

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Mas, apesar disso, a galeria continua a sobreviver. Em 1913, ela abriga um cabeleireiro, um comerciante de cartões-postais, uma grande livraria, uma loja de doces, etc. Na antiga loja de Aubert se instala um vendedor de malas. Em um artigo para o jornal Le Figaro, Georges Cain diz que a galeria é “Correta, fria e impecável”. Em 1915, com a abertura da rua du Colonel-Driant, a Véro-Dodat deixa de ser atalho entre o Palais-Royal e o bairro des Halles.

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Detalhe da decoração de caixotões do teto

Durante a Segunda Guerra Mundial, a galeria é abandonada. Suas construções servem para depósito para o amadurecimento de bananas. Dizem que os porões esconderam os “résistants”, ou seja, as pessoas que lutavam contra o governo nazista que dominava Paris e metade da França.

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Em 9 de junho de 1965, a Galerie Véro-Dodat entra na lista de Monumentos Históricos. Nos anos 1970, ela só não é abandonada graças aos antiquários. Em 1997, é restaurada e revalorizada. Hoje, a galeria ainda abriga lojas tão diversificadas como antigamente. Estão ali presentes dois restaurantes: o Véro-Dodat, no número 19, e o mesmo Café de l’Époque dos tempos de Gérard de Nerval, no número 35. Vemos também antiquários, galerias de arte, joalheiro, um perfumista, um restaurador de instrumentos de corda, lojas de moda e acessórios, de luxo, entre outros comércios.

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A decoração da Galerie Véro-Dodat

Esta galeria é uma das que menos mudou desde a sua inauguração, em 1826. Com seus oito metros de comprimento e quatro de largura, ela ainda conserva um charme antigo como se tivesse saído de uma das obras de Balzac.

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Sua decoração foi bem pensada e a restauração de 1997 praticamente não alterou nada. O estilo é o Neoclássico, muito em voga na época. As 38 lojas que a compõem são uniformes, com vitrines e grandes portas de vidro. Em torno delas, decorações em cobre e ferro fundido que imitam ouro e formam arcos. Essas portas e vitrines são separadas por meias-colunas com capitéis trabalhados. As fachadas são em madeira imitando o acaju. Os nomes das lojas são marcados por belas letras douradas.

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Para separar as boutiques, há colunas pintadas para dar o efeito de ónix. Acima delas, globos, que na época eram iluminados a gás e hoje são elétricos. A decoração deles é em cobre, com a presença de anjinhos sentados em cornucópias, que representam a abundância. Já embaixo das colunas, a decoração é uma lira esculpida. A presença dos globos e a quantidade de vidros e espelhos, que refletem a luz, dão um efeito de profundidade para a galeria.

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Entre o térreo e o primeiro andar, há uma frisa de palmitos e rosáceas. As janelas deste andar mostram que ele é composto por apartamentos. Acima, uma frisa emoldura todo o teto. Ela é decorada por palmitos e o caduceu de Mercúrio, deus que representa o comércio.

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Já o teto, como escrevi acima, é diferente do das outras galerias. Ele é dividido entre partes de vidro e outras com decoração de caixotões, onde há telas que representam deuses da mitologia. São eles: Ceres, Mercúrio, Minerva e Apolo. Eles são identificáveis pelos seus atributos e representam, respectivamente, a agricultura, o comércio e as artes.

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Pintura representando Ceres
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Pintura representando Apolo

Em cada lado de cada uma dessas obras, telas retangulares representam anjinhos em grisaille (monocromáticos) em diversas posições.Todo esse conjunto é acompanhado por uma decoração dourada.

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Pintura com anjinho representando as artes e o conhecimento

O chão é em ladrilhos, onde preto e branco se alternam, aumentando a ilusão de profundidade. Nas duas entradas, o nome da galeria está escrito em letras de ferro. Na entrada da rue du Bouloi, há uma sacada com dois nichos. Neles estão duas estátuas. A primeira, à esquerda, representa Mercúrio com seu capacete alado e o caduceu. À direita, está Hércules, com a pele do leão de Neméia no ombro direito. Na mitologia, o herói mata o animal com as próprias mãos no primeiro de seus dozes trabalhos.

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No canto superior de cada porta de entrada, no lado interior, grandes anjos seguram objetos relacionados às atividades exercidas na galeria.

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Com tantos detalhes para ver, passear na Galerie Véro-Dodat é bem interessante. E depois você pode aproveitar para provar um de seus restaurantes. Ah, e uma última curiosidade: até poucos anos atrás, a passagem tinha duas zeladoras. Cada uma delas lavava metade da galeria, nem um milímetro a mais.

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Entrada da rue Jean-Jacques-Rousseau

Galerie Véro-Dodat
19, rue Jean-Jacques-Rousseau e 2, rue du Bouloi
75001 Paris
Metrô Palais-Royal-Musée-du-Louvre – linhas 1 e 7.
Horários: de segunda a sábado, das 7h às 22h.
Para mais informações, veja aqui

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Pintura representando Minerva.

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Renata Rocha Inforzato

Sou de São Paulo, e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.

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