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Place Vendôme – a praça mais luxuosa de Paris

4 de agosto de 2017

É impossível passar pela Place Vendôme e não se admirar com a sua beleza. Com construções simétricas, lojas luxuosas e a sua coluna que emana poder, ela tem uma história bem interessante, que vou contar aqui.

Place Vendôme

No final dos anos 1670, já existia um projeto de se construir uma praça na área. Em 1685, François-Michel Le Tellier, conhecido como marquês de Louvois, que era Surintendant des Bâtiments, Arts et Manufactures do reino (Superintendente de Construções, Artes e Manufaturas), retoma a ideia. O objetivo era dar à capital uma bela praça e facilitar a circulação das ruas próximas da Saint-Honoré.

Place Vendôme

O marquês convence, então, Louis XIV a comprar o Hôtel de Vendôme, um palacete que testemunhou os amores do rei Henri IV e sua favorita, Gabrielle d’Estrées. A compra do edifício custou 660 mil livres (a moeda da época), o que fez dele um dos entulhos mais caros da História, já que foi demolido logo em seguida. A Coroa também desapropriou construções vizinhas, como o Convento dos Capuchinhos que havia ali.

Place Vendôme

Louvois encomenda o projeto da praça à Jules Hardouin-Mansart, um dos arquitetos mais prestigiados da época, responsável por várias outras construções para o rei. Ele é assistido por Germain Boffrand, que era seu aprendiz na época, mas depois será igualmente famoso ao construir vários palacetes por Paris, como, por exemplo, o Hôtel de Soubise. A ideia era uma praça retangular, com três lados e o quarto lado aberto para a rua Saint-Honoré. As construções, com galerias, abrigariam edifícios públicos. Os trabalhos começam em 1686.

Place Vendôme

No meio da praça, uma estátua equestre de Louis XIV, em trajes de imperador romano e com peruca, obra que foi encomendada a François Giradon e inaugurada em 1699. Ela tinha sete metros de altura. Durante um tempo, os arquitetos pensam em abrir uma rua que ligasse a nova praça à Place des Victoires, também obra de Hardouin-Mansart, para que, assim, as duas estátuas de Louis XIV pudessem ser contempladas. Mas, a ideia é abandonada, pois seria ainda mais caro fazer mais desapropriações para abrir a rua.

Place Vendôme

Aliás, é em 1699, que o projeto da Place Vendôme é completamente mudado. A morte de Louvois, em julho de 1691, e a falta de dinheiro tornam o plano inicial inviável. Então, Louis XIV vende o terreno à cidade de Paris. Ela, então, com a ajuda de especuladores financeiros, termina os trabalhos. Mas o traçado é profundamente modificado.

Place Vendôme

Em vez de retangular e aberta, a Place Vendôme agora será octogonal e fechada, em estilo clássico. As fachadas que já haviam sido construídas são demolidas. As construções são suntuosas, as novas fachadas aumentam 20 metros à frente, o que reduz o espaço público, mas atende aos interesses financeiros, já que aumenta a superfície e o valor dos terrenos construídos. Assim, a ideia dos edifícios públicos é abandonada, cedendo lugar aos palacetes privados.

Place Vendôme
Cour Vendôme – uma passagem que dá para a praça

Além de uma moldura luxuosa para a estátua do rei, a Place Vendôme torna-se resultado de uma bem-sucedida especulação financeira. Após a construção das fachadas, os arquitetos, incluindo o próprio Hardouin-Mansart e Boffrand, vendem os terrenos aos empresários do setor financeiro, que constroem os palacetes. Um deles, o banqueiro John Law, em 1718, compra, sozinho, metade da praça. Com todas essas mudanças, os trabalhos são terminados somente por volta de 1720.

Place Vendôme
Mascarão – esse tipo de decoração está presente em todas as construções da praça

Porém, no final do século XVIII, a Revolução Francesa chega e com ela a destruição de todos os símbolos monárquicos e clericais do país. Assim, em 12 de agosto de 1792, a estátua de Louis XIV na Place Vendôme é derrubada e derretida. Uma curiosidade é que a data é exatamente cem anos depois da construção da obra: em um dos cascos do cavalo da estátua estava marcada a data da sua realização: 12 de agosto de 1692.

Place Vendôme

A praça é abandonada. Os detritos ficam no chão, misturados ao mato que começa a crescer no local. Até que, em 1806, o novo imperador, Napoleão I, decide reutilizar o lugar. Ele tinha, desde 1803, a ideia de construir um monumento à glória do exército francês, inspirado na Coluna de Trajano, que fica em Roma. Ele era um apaixonado por arte italiana.

Place Vendôme

Então, em janeiro de 1806, Napoleão assina um decreto que determina a construção, na Place Vendôme, de uma coluna que celebrará as conquistas do Imperador e do exército francês. O império ainda celebrava a vitória na Batalha de Austerlitz, em dezembro de 1805.

Place Vendôme

Para decorar a coluna, o Directeur des Monnaies et des Museus (Diretor de Moedas e Museus, tradução literal), Dominique Vivant Denon, aconselha o imperador a derreter os 1200 canhões tomados dos austríacos e russos durante a Batalha de Austerlitz. Com as 150 toneladas do bronze derretido, o artista Pierre Bergeret realiza as 76 cenas em baixo-relevo em uma frisa em espiral. Ela conta os feitos do exército francês na Batalha d’Austerlitz, desde a entrada de Napoleão em Strasbourg até a volta triunfal a Paris.

Place Vendôme

Já a coluna em si é obra dos arquitetos Jean-Baptiste Lepère e Jacques Gondouin. Ela repousa sobre um pedestal, que é decorado por baixos-relevos mostrando os troféus do exército austríaco amontoados, um símbolo da derrota para a França, com uma inscrição em latim. No topo da coluna, uma estátua de Napoleão, realizada por Antoine-Denis Chaudet. Ela mostra o imperador com uma coroa de louros, segurando na mão esquerda uma espada e na direita um globo. Em cima deste globo, uma vitória alada, deusa que simboliza a vitória sobre os inimigos. A coluna é inaugurada em 15 de agosto de 1810.

Place Vendôme
Pedestal da coluna
Place Vendôme
Inscrição que diz: “Napoleão imperador Augusto consagrou, à glória do grande exército, esta coluna, monumento feito do bronze conquistado do inimigo durante a guerra da Alemanha, em 1805. Guerra que, sob seu comando, foi terminada em apenas três meses”.

Porém, com a derrota de Napoleão, a estátua é destruída em 1814. Em 1825, a Compagnie du Gaz instala quatro candelabros à gás nos quatro cantos da coluna. Em 1833, o rei Louis-Philippe I encomenda a Émile Seurre uma estátua de Napoleão, com seu famoso chapéu, para a coluna. Hoje, a obra está no pátio dos Invalides. A estátua que vemos hoje foi realizada por Augustin Dumont a mando do imperador Napoleão III, que queria homenagear o tio. Ela é inspirada na primeira obra, a de Chaudet, e mostra Napoleão I com a coroa de louros, a espada na mão esquerda e o globo com a vitória na direita.

Place Vendôme

Foi nessa época, em meados do século XIX, que os joalheiros se instalam na praça. Chaumet, Van Cleef & Arpels são alguns dos nomes de lojas que vemos até hoje. Já na época da Commune de Paris, em 1871,a Colonne Vendôme é derrubada mais uma vez. Em 1873, o governo manda reconstruí-la às custas de Gustave Courbet, um dos maiores artistas da época, acusado de ser o mandante da destruição da coluna. Com os bens confiscados, ele parte para a Suíça e morre em 1877, antes de conseguir pagar a primeira parcela da reconstrução do monumento.

Place Vendôme

Place Vendôme

Place Vendôme

Algumas curiosidades da Place Vendôme

1) A praça já teve vários nomes: Place des Conquêtes, Place Louis-le-Grand, antes de voltar a se chamar Place Vendôme, um pouco antes da Revolução, em homenagem ao palacete que ficava ali. A coluna também teve vários nomes: Colonne d’Austerlitz, Colonne des Victoires, Colonne de la Grande Armée e, enfim, Colonne Vendôme.

Place Vendôme

2) No número 15, funciona um dos hotéis mais famosos do mundo, o Ritz. Ele ocupa o palacete conhecido como Hôtel Gramont e foi inaugurado em 1898. Várias personalidades já se hospedaram ali, incluindo Marcel Proust, Charles Chaplin, Ernest Hemingway, entre outros. Coco Chanel chegou a morar ali e, hoje, a praça abriga uma das suas boutiques.

Place Vendôme

Place Vendôme
A loja, na mesma praça

3) No outro lado da praça, no número 8, ficava a sede do Reseau Saint-Jacques, primeira rede da Resistência Francesa, criada por Maurice Duclós. Ela estabelece, ali na Place Vendôme, a primeira ligação de rádio entre Paris e Londres, em abril de 1941, durante a Segunda Guerra Mundial.

Place Vendôme

Place Vendôme

4) Já em um modesto cômodo do número 12, morria, em 1849, Frédéric Chopin.

Place Vendôme

Place Vendôme

5) Em frente, no número 13, no antigo Hôtel de Bourvallais, onde funciona o Ministério da Justiça, há um mètre-étalon em mármore, instalado durante a Revolução. Havia 16 pela cidade, para familiarizar os moradores com a nova unidade de medida. Além desse da Place Vendôme, somente o da rue de Vaugirard ainda existe.

Place Vendôme

6) Em 1772, a Place Vendôme era palco da feira de Saint-Ovide. Ela funcionava de meados de agosto até meados de setembro. Até que, em 1777, foi destruída por um incêndio.

Place Vendôme

7) Desenhadas por Jules-Hardouin-Mansart, Germain Boffrand, Jacques V Gabriel e outros arquitetos famosos da época de Louis XIV, várias fachadas são classificadas como Monumentos Históricos.

Place Vendôme

8) A Place Vendôme é conhecida por sua simetria e luxo. As construções são marcadas por arcos, pilastras de ordem coríntia e, no alto, águas-furtadas, iluminadas por lucarnas e janelas tipo olho de boi, alternadas. Em cada ângulo da praça, belos edifícios compostos por um avant-corps (uma construção à frente) com três arcos, com um frontão triangular esculpido e colunas coríntias. Em cada lado desse tipo de construção, um arrière-corps (uma construção mais recuada) com um só arco.

Place Vendôme
Uma lucarna entre dois olhos-de-boi
Place Vendôme
No centro da construção, observe que as três arcadas estão mais à frente (avant-corps). O arco à direita e o arco à esquerda desses arcos centrais estão mais recuados (arrière-corps)

Place Vendôme

Recentemente, a Place Vendôme passou por uma restauração, que a tornou ainda mais bela e aumentou o espaço para os pedestres circularem por ali. Vale a visita!

Place Vendôme

Place Vendôme
75001 – Paris
Metrôs: Tuileries – linha 1
Opéra – linhas 3, 7 e 8.
Madeleine – linhas 8, 12 e 14.

Place Vendôme

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Renata Rocha Inforzato

Sou de São Paulo, e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.

Comentários (6)

  • Luiz Jr. Fernandes Responder    

    12 de agosto de 2017 at 13:13

    Olá , sempre que visito seu blog fico numa vontade maluca de mudar todos os meus planos de viagem e mandar ver pra Paris hehehe, fotos lindas e inspiradoras para uma viagem até a França! abração!

  • Alessandra Fratus Responder    

    12 de agosto de 2017 at 20:16

    Que legal! Conheço tão pouco de Paris que fico babando com essas histórias que nos levam pra outros tempos… que fotos lindas. Essa praça parece realmente super luxuosa! O azul do céu deixou tudo parecendo um conto de fadas! Adorei!

  • Flávia Donohoe Responder    

    13 de agosto de 2017 at 16:05

    Já visitei a cidade algumas vezes, mas sempre fica faltando alguma coisa, essa praça é uma das que nunca tive muito tempo de conhecer, quem sabe numa próxima visita, as fotos ficaram bem inspiradoras e deu vontade de ir conhecer já!

  • angela sant anna Responder    

    15 de agosto de 2017 at 13:36

    nuss quanta treta numa só praça e muito dinheiro pra demolir depois ne haueha fez uma busca historica muuito boa ai hein! vou add a praca na minha proxima visita a paris

  • Mayte Scaravelli Responder    

    16 de agosto de 2017 at 10:58

    Renata, adoro os seus relatos! É muito gostoso conhecer Paris com você, muitas vezes passamos por lugares, praças, prédios e monumentos sem nem imaginar o significado de tudo aquilo, o que aconteceu naquele lugar e quanta história esse pedacinho da cidade esconde.

    Eu fiquei admirada com a coluna, como pode tanta perfeição e tanta história em um lugar só! Lindo e interessante.

    Adorei as curiosidades, com certeza o dia em que eu passar pela cidade luz estarei com o seu post em mãos para não perder nenhum detalhe desse lugar.

  • Viajar pela história - Catarina Leonardo Responder    

    16 de agosto de 2017 at 14:56

    Adorei… ou não tivesse eu um blogque onde explico o que vemos quando viajamos. Acho que não faz sentido nenhum passar pelos locais e tirar apenas uma foto. Muito interessante saber mais sobre esta praça.

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