Atrações

Passage Choiseul – a passagem das artes e da comida

22 de setembro de 2017

Faz tempo que não tem texto sobre as passagens cobertas de Paris. Então, a matéria desta semana é sobre uma passagem que foi restaurada há pouco tempo e que é cheia de lugar para comer: a Passage Choiseul.

Passage Choiseul

No texto sobre a Passage des Panoramas, contei como nasceu, a partir do final do século XVIII, este novo tipo de atração parisiense. Desde esta época muitas passagens e galerias cobertas foram construídas, principalmente na década de 1820. É o caso da Passsage Choiseul, que é o tema deste post.

Passage Choiseul

Em 1825, havia uma operação para reorganizar o bairro, que fica perto da Ópera. A ideia era abrir uma rua cercada por duas passagens cobertas paralelas. Assim, os problemas de circulação, que afetavam muito a área, seriam resolvidos. O projeto tinha uma inovação para a época: ele seria financiado não somente por organismos públicos, mas também por particulares. Os investimentos, por assim dizer, estatais seriam bancados pelo Ministère de la Maison du Roi e pela cidade de Paris. Já a parte privada ficou a cargo do banco Mallet.

Passage Choiseul

O banco possuía um quadrilátero no bairro, com quatro palacetes com jardins. Então, a nova rua e as passagens seriam construídas ali. Além da rua e das galerias, estava prevista também a construção de habitações. Então, no começo do ano de 1825, foi dada a autorização para a abertura da rue Monsigny e a primeira passagem começa a ser construída.

Passage Choiseul

No mesmo ano, o Théâtre Feydeau, que ficava ali perto e onde se encenava comédia italiana, seria demolido por razões de segurança. Vendo que um novo teatro atrairia ainda mais pessoas para a área, os banqueiros conseguiram convencer o governo a incluir este teatro ao projeto. Ele ficaria no centro do terreno e isolado por uma praça.

Passage Choiseul

Com isso, o tamanho previsto para a rue Monsigny foi reduzido para a metade e a construção de duas passagens abandonada, ficando restrita a uma só. O Ministère de la Maison du Roi compra o terreno para o novo teatro, com a ajuda da cidade de Paris e do banco. E, assim, o Théâtre Royal de l’Opéra Comique é inaugurado em 1829 a partir do projeto dos arquitetos Jean-Jacques Huvé e Louis de Guerchy. Essa construção teria várias destinações até ser fechada em 1878 e cedida, em 1892, ao Banque de France.

Passage Choiseul

Já para a passagem, o arquiteto inicial foi François Mazois. Porém, ele morre em 1826, no meio dos trabalhos, que são terminados por Antoine Tavernier. O nome da passage foi escolhido por causa de uma das ruas perto da entrada: a Rue de Choiseul. É como se a passagem fosse um prolongamento desta rua.

Passage Choiseul

No lado oposto da Passage, foi construída uma pequena galeria, a Galerie de l’Opéra Comique, por causa do teatro. Mas pouco se sabe sobre ela e foi demolida em 1890. Em 1829, Tavernier constrói, em perpendicular e anexada à Passage Choiseul, a estreita Passage de Saint-Anne, dando mais uma saída ao conjunto, desta vez para a rue Saint-Anne. Esta pequena galeria foi construída no terreno de um antigo convento e usou paredes já existentes. E foi ali, em um dos apartamentos da Passage Saint-Anne, que Allan Kardec viveu os últimos anos de vida e morreu, em 1869.

Passage Choiseul
A Passage Sainte-Anne, que é parte da Passage Choiseul
Passage Choiseul
A entrada da Passage Sainte-Anne, na rue Sainte-Anne

Quando a Passage Choiseul é inaugurada, em 1827, não é acolhida com muito entusiasmo. É que ela possui uma decoração muito simples, principalmente se comparada com a Galerie Vivienne e a Galerie Colbert, que faziam mais sucesso na época. Já neste começo, a Passage Choiseul possuía dois cafés, um em cada extremidade, um restaurante, duas boutiques de moda e três gabinetes de leitura. Mas o destaque do lugar era sua vocação para o teatro.

Passage Choiseul

Para começar, o Théâtre Royal de l’Opéra Comique era um sucesso e atraía os elegantes da cidade. Estes faziam questão de desfilar pela passagem com seus belos trajes e muita gente ia até ali só para vê-los chegar e partir. Dizem até que o rei Louis-Philippe I mandou construir uma passagem subterrânea que ligaria a sala de espetáculo à Passage Choiseul, para poder chegar até sua carruagem, estacionada na entrada, em caso de revolta. O que se sabe é que os arquitetos do teatro já haviam construído um subterrâneo ligando o vestíbulo do teatro à passagem coberta.

Passage Choiseul

Mas outro teatro agitava a passagem. Era o Théâtre des Jeunes Elèves de M. Comte, construído ali mesmo, dentro da galeria, e inaugurado quase ao mesmo tempo que ela, em 1827. Era um lugar destinado às crianças, onde elas mesmas interpretavam as peças. Entre os espetáculos, shows de magia realizados pelo próprio Louis Comte e depois por seu filho, Charles Comte. Porém, em 1846, um decreto passa a proibir que crianças menores de 15 anos participem das encenações. Assim, o sucesso do teatro começa a diminuir.

Passage Choiseul

Até que, em 1855, Charles Comte passa o teatro a Jacques Offenbach por 25 mil francos. Jacques tinha uma sala de espetáculos na Champs-Élysées, mas, com o fim da Exposição Universal de 1855, a famosa avenida já não atraía tanta gente. Assim, ele instala o seu Théâtre Bouffes-Parisiens ali na Passage Choiseul, no lugar do antigo teatro do Senhor Comte. E está no mesmo lugar até hoje, com uma entrada para a passagem e outra para a rue Monsigny.

Passage Choiseul

Uma curiosidade é que, ainda no século XIX, dizia-se que a Passage Choiseul tinha cheiro de laranja. É que a fruta estava na moda e os passantes atravessavam a galeria enquanto chupavam laranjas.

Passage Choiseul
Entrada rue Dalayrac

A literatura é outro aspecto importante do lugar. A partir de 1865, Alphonse Lemerre abre sua livraria e editora na passagem. Até 1910, quando ele fecha o comércio por questões de saúde, passam por ali três gerações de poetas. O mais famoso deles é Paul Verlaine, que publica seus primeiros versos na Passage Choiseul, pois Lemerre foi o seu primeiro editor.

Passage Choiseul

Em 1899, Ferdinand e Marguerite Destouches se instalam na Passage Choiseul, primeiro no número 67 e depois no 64. Eles tinham uma loja de objetos e roupas de vários tipos no térreo e, assim como vários outros comerciantes do lugar, moravam nos andares superiores.

Passage Choiseul

Passage Choiseul

O casal tinha um filho único, Louis-Ferdinand, que, anos depois, vai se transformar no famoso e controverso escritor Céline. O autor descreve a Passage Choiseul em duas de suas obras: Voyage au Bout de la Nuit e Mort à Crédit. Nesta última, ele chama a passagem de Passage des Bérésinas e faz uma descrição da galeria não muito elogiosa. Segundo ele, “é um lugar onde apodrecemos em meio à urina e excrementos de pequenos cães e o cheiro de gás”.

Passage Choiseul

Porém, apesar da falta de entusiasmo na época da sua inauguração e da descrição de Céline, a Passage Choiseul não conhece o declínio e continua a ser muito visitada, ao contrário das outras passagens cobertas da mesma época. Na década de 1930, ela abriga muitas lojas dos mais variados tipos, com bares e cafés bastante frequentados.

Passage Choiseul
Interior da loja Boisnard

Em julho de 1974, a Passage Choiseul é classificada como Monumento Histórico. Contudo, a falta de manutenção ao longo dos anos a desgasta e a cobertura de vidro, apesar de ser reformada em 1980, chega a ser coberta com um plástico. Em 2013, começa a restauração da passage. A cobertura e o chão, este último bem simples, reencontram sua beleza. Os trabalhos ainda continuam, agora centrados nos pequenos detalhes da decoração.

Passage Choiseul

A visita
A Passage Choiseul é uma das mais longas de Paris, com 190 metros de comprimento. A largura é de 3,90 metros. Ela possui duas entradas principais: rue de Petits-Champs e rue Saint-Augustin. E duas entradas secundárias: rue Sainte-Anne e rue Dalayrac.

Passage Choiseul
Entrada rue Saint-Augustin

Uma curiosidade é que na entrada da rue Saint-Augustin, encontramos elementos do Hôtel de Gresvres, um dos palacetes que pertencia ao banco Mallet e que foi demolido para a construção da passagem. Os portões destas entradas principais são envidraçados, para proteger os passantes de correntes de ar.

Passage Choiseul
Uma parte da entrada do Hôtel de Gresvres que foi aproveitada na Passage Choiseul

Dentro da galeria, as fachadas e construções são quase idênticas, compostas por quatro andares cada uma. O primeiro e segundo, geralmente, são usados pelas lojas. E os dois últimos como residência, sendo o último andar acima da cobertura de vidro, em mansarda. Há ainda uma cave. O que diferencia um pouco os imóveis é a decoração de cada loja ou restaurante.

Passage Choiseul

Passage Choiseul

Ritmada por arcadas e uniforme, ela tem decoração discreta: poucas pinturas, poucos espelhos e o chão e a cobertura são bem simples. Destaque para um relógio no alto da passagem que ainda funciona e bem. E um discreto vitral.

Passage Choiseul

Passage Choiseul

Passage Choiseul

A Passage de Choiseul é um lugar muito frequentado. As lojas que hoje estão ali são variadas, vendem desde roupas e sapatos até obras de arte e objetos raros. Para comer, também encontramos de tudo: de comida vietnamita até restaurantes italianos. Aliás, foi a passagem coberta com mais restaurantes que eu vi. Dá vontade de experimentar todos.

Passage Choiseul

Passage Choiseul

Passage Choiseul

Um dos destaques entre as boutiques é o Magasin Lavrut, que vende material de pintura e artesanato desde 1922 e, desde então, é uma das lojas favoritas dos artistas de Paris.

Passage Choiseul

Passage Choiseul

Outra coisa que achei interessante é o Zen Bar à Sieste: um bar para tirar um cochilo, com a opção de massagem e outros tratamentos para relaxar.

Passage Choiseul

E sem, esquecer, é claro, do Théâtre Bouffes-Parisiens, até hoje oferecendo uma variedade de peças ao longo do ano.

Passage Choiseul
A entrada externa do Théâtre Bouffes-Parisiens

Passage Choiseul
23 rue Saint-Augustin; 40 Rue des Petits Champs; 6-46 rue Dalayrac e 59-61 rue Saint-Anne
75002 Paris
Metrô: Quatre-Septembre – linha 3
Horários: de segunda a sábado, das 8h às 20h.

Passage Choiseul

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Renata Rocha Inforzato

Sou de São Paulo, e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.

Comentários (6)

  • Gabriela Torrezani Responder    

    24 de setembro de 2017 at 13:02

    Que beleza essa passagem! As lojas, os detalhes arquitetônicos, o charme típico de Paris… adorei! Só fui uma vez à cidade e fiquei mais presa no circuito tradicional do turismo, mas volto agora em novembro e com certeza absoluta irei atrás da Passage Choiseul!

  • Flávia Donohoe Responder    

    24 de setembro de 2017 at 23:51

    que post adorável, eu adoro esses tipos de passagens, não tinha nem ideia que elas eram tão importantes para a cidade, agora quero voltar à cidade e vê-las com outros olhos.

  • Tina Wells Responder    

    25 de setembro de 2017 at 6:22

    Super interessante pois a gente nem imagina o quanto tem de história por trás de ruelas, becos e “passages”! Parece ser um lugar bem aconchegante também! Vou procurar conhecer da próxima vez que estiver em Paris! Ainda mais que Kardec morou ali perto!

  • Giulia Sampogna Responder    

    25 de setembro de 2017 at 14:29

    Realmente é uma ótima dica. Meu irmão me levou aí e eu não tinha ideia do nome. Paris é sensacional em cada esquina e lugares que só os locais conhecem.

  • angela sant anna Responder    

    25 de setembro de 2017 at 17:04

    quanta historia numa passage, construção, demolição…como pode um lugar tão estreitinho ter tanta história ne! fiquei interessada naquela restaurante vietnamita, AMOOO

  • Viajar pela história - Catarina Leonardo Responder    

    27 de setembro de 2017 at 0:24

    Paris é realmente uma cidade mágica e este local é um verdadeiro encanto! Adorei saber mais dos detalhes da passagem.

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