Lorient

Lorient La Base – A lembrança da Segunda Guerra

13 de abril de 2019

O assunto deste texto é um dos lugares mais estratégicos durante a Segunda Guerra Mundial: a Base Naval de Lorient. Hoje, ela um caso bem-sucedido da reconversão de um local militar para uma área de negócios, esportes, cultura e lazer.

Segunda Guerra

Em maio de 1940, a Alemanha ataca a França, derrotando o exército francês e provocando mais de 100 mil mortes. Os alemães continuaram avançando pelo país, aniquilando os franceses e causando pânico na população. O governo do Marechal Philippe Pétain pede o armistício, que é assinado em 22 de junho. No mesmo mês, os soldados alemães invadem a Bretagne (Bretanha), região onde fica a cidade de Lorient.

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A intenção de Hitler é que o III Reich se estenda para o Atlântico. Por isso, eles começam a construir suas principais bases de submarinos em cidades portuárias da Bretagne: Brest, Saint-Nazaire e Lorient. Além da posição estratégica, Lorient já possuía estruturas militares, o que facilitaria o trabalho dos alemães.

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O local escolhido é a Presqu’Île de Keroman. O canteiro é enorme e considerado prioritário por Hitler. Os trabalhos começam em fevereiro de 1941 e são realizados por etapas. A supervisão fica a cargo do Estado-Maior da Organização Todt. Mil toneladas de concreto serão usadas por dia e cerca de 15 mil operários trabalharão na construção da base.

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Esses trabalhadores eram franceses e estrangeiros. Os primeiros, em grande parte, vinham atraídos pelos salários, já que o desemprego era grande na França ocupada. Já os segundos eram prisioneiros de guerra, principalmente espanhóis, italianos e pessoas do Leste Europeu. Uma curiosidade: é difícil determinar o número de mortos ali, já que, além das condições rudes de trabalho, haviam os bombardeios.

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Assim, a Festung Lorient (o nome escolhido) se torna a maior base de submarinos da Europa, com nada menos do que 26 hectares. Ela possui 21 instalações. Elas são a ligação entre a casamata e o mar. Há três bunkers para os famosos submarinos U-Boot alemães: K1 com cinco instalações, e K2 e K3 com sete instalações cada. Há também dois dombunkers (bunkers enormes, cuja forma lembra uma igreja), um tanque de água e vários espaços, como abrigos, ateliês, construções para serviços logísticos, etc.

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A Base de Keroman pode abrigar até 30 submersíveis e suas tripulações. Para abastecer o local, é construída uma estrada de ferro que vai até o centro de Lorient. Assim, a cidade se torna a sede da Direção Geral da Guerra Submarina, sendo o coração das operações alemãs nos mares do mundo.

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E para proteger a base, um sistema defensivo bem complexo é elaborado nos arredores, com cerca de 450 casamatas, redes de arames farpados, ouriço theco (um tipo de obstáculo anti-carro), além de minas dissimuladas pelas praias.

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Em 1942, a Batalha do Atlântico, travada entre a Inglaterra e a Alemanha desde 1939, continua. Em 14 de janeiro de 1943, o Primeiro-Ministro britânico Winston Churchill lança uma ordem ao comandante da aviação estratégica: por causa da ameaça dos submarinos U-Boot, as zonas onde eles estão instalados deveriam ser atacadas e destruídas.

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Os ataques deveriam ocorrer à noite e não deveriam visar diretamente as instalações militares e sim bombardear os seus meios de abastecimento, isolando, assim, as bases dos submarinos. Em 1940, Lorient já havia sido bombardeada pelos britânicos e americanos. Mas, é a partir desta ordem de Churchill, que os ataques causam danos consideráveis.

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A partir de 15 de janeiro de 1943, a cidade sofre uma série de bombardeios: mais de três mil imóveis são destruídos. A população quase toda foge dali nas semanas seguintes. Lorient é, então, praticamente destruída.

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Em agosto de 1944, as tropas americanas avançam pela Bretanha. Os alemães se reagrupam em torno da Base de Submarinos sob as ordens do comandante, o general Wilhelm Fahrmbacher. Mas a liberação não ocorre rapidamente. Em novembro de 1944, as Forces Françaises de l’Intérieur (FFI) e a 94a. divisão de infantaria americana cercam a região.

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A Guerra ali ainda prossegue até 10 de maio de 1945, quando é assinado o armistício. Dois dias depois, o general Fahrmbacher entrega a sua arma ao general americano Herman Frederick Kramer. Assim, ao final da Guerra, o saldo de navios afundados pelos submarinos alemães foi de 2800, a maioria civis. Já dos 168 submarinos que usaram a Base de Lorient, 138 foram destruídos pelos aliados.

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Na liberação, em 1945, a Base naval de Lorient muda de nome. Ela passa a se chamar Jacques Stosskopf. Jacques era chefe de seção de Construções Novas ali no arsenal. Com a chegada dos alemães a Lorient, ele continua no cargo, pois, sendo originário da região da Alsácia, falava fluentemente o alemão. Porém, ele era contra os nazistas e passa a ser espião para a rede de resistência Alliance.

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Assim, ele passa para os aliados toda a movimentação da Base, as construções das instalações secretas e os horários dos submarinos. Porém, em 21 de janeiro de 1944, ele é preso e logo em seguida enviado ao campo de concentração de Struthof, onde morre em 1º de setembro do mesmo ano.

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Não há muitos detalhes da história da Base naval de Lorient no Pós-Guerra. O que se sabe é que a Marinha Francesa toma posse do lugar. Exercícios militares são realizados no local até 1995 e, dois anos depois, em 1997, o Estado francês abandona de vez a Base. Aí a questão passou a ser: destruir ou não o lugar?

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Felizmente, a decisão foi pela reconversão da Base Submarina de Lorient, ou, como atualmente é conhecida, Lorient La Base. Os trabalhos de adaptação começaram em 2001. Hoje, ela abriga várias instalações. Há um centro de negócios, o Celtic Submarine; um pólo de Course au Large (Regatas por etapas), o maior da Europa; restaurantes e museus. Além de visitas guiadas que contam a história, sem rodeios, do lugar.

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O que visitar em Lorient La Base?

1) Cité de la Voile Éric Tabarly (Cidade da Vela Éric Tabarly) – Esse museu é muito legal até mesmo para quem não entende nada de velas, veleiros e regatas. Éric Tabarly foi um grande velejador francês que, por suas vitórias, contribuiu para a popularização do esporte no país. Ele morreu no Mar da Irlanda em 13 de junho de 1998.

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A construção que abriga o museu é obra do arquiteto Jacques Ferrier e foi criada em 2008. A visita é bem interessante e interativa. No começo, uma projeção de 120m2 mostra um oceano, como se estivéssemos navegando, já nos introduzindo no tema de velejar. Depois, detalhes técnicos sobre as partes de um veleiro, como ele é construído e como manejá-lo são mostrados ao visitante. Uma parte bem interessante da visita é a que mostra o que é necessário, inclusive em relação à comida, antes de embarcar em um veleiro que vai partir ao mar.

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Há também vários filmes sobre Éric Tabarly, sobre as competições de vela, sobre resgates no mar, etc. Durante a visita, podemos penetrar no interior de um Pen Duick, um dos veleiros de Tabarly. Por fim, uma série de simuladores e jogos nos fazem entrar na pele de um velejador. Adultos e crianças adoram, inclusive eu. O prédio do museu está ligado à Tour des Vents, com 31 metros de altura, de onde se tem uma bela vista da enseada.

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Cité de la Voile Éric Tabarly
Horários: são bem variáveis ao longo do ano. Para saber as horas de abertura durante a sua estadia, clique aqui
Tarifas: 12,50 euros. Famílias até 4 pessoas (sendo dois adultos no máximo): 37 euros. Crianças de 7 a 17 anos: 9,30 euros. Crianças de 3 a 6 anos: 3,10. Gratuito para crianças menores que 3 anos.
Para saber mais, consulte o site da Cité

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Dá pra brincar também de controlar esses mini-veleiros

2) Sous-Marin Flore (Submarino Flore) – Este conjunto é composto pela visita a um museu criado em uma das antigas instalações da Base e a descoberta do submarino Flore. Porém, ao contrário do que podemos pensar, não se trata aqui de um submarino alemão. O Flore fazia parte da Marinha Francesa e “trabalhou” de 1964 a 1989. Com 57,85 metros de comprimento e peso de 800 toneladas, ele era o quinto dos submarinos de alta performance conhecidos como Daphné e podia acolher até 50 membros de tripulação. O Flore foi aberto para visitas em 2010.

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A visita começa com o museu. Ali grandes telas explicam os fatores ligados à posição estratégica de Lorient. Em seguida, aprendemos sobre os espaços de um submarino, que é bem interessante. Depois, uma projeção nos mostra os conflitos ideológicos e militares do Século XX.

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Aí vamos conhecer o Flore, propriamente dito. Entramos no submarino, aprendemos sobre sua função, suas capacidades de ataque, velocidade, etc. É muito legal! E, para tornar a visita mais interessante, ela é feita com audioguia, onde antigos tripulantes nos contam os segredos e curiosidades da vida dentro de um submarino. E tem o áudio em português.

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Sous-Marin Flore
Horários: As horas de abertura variam muito durante o ano. Para consultá-las, veja este link.
Tarifas: 9,60 euros. Famílias (até 4 pessoas, sendo 2 adultos no máximo): 29 euros. Crianças de 7 a 17 anos: 7,20 euros. Crianças menores de 7 anos: gratuito. Há outros bilhetes combinados com outras atrações e passes. Veja mais aqui.
Mais informações sobre a visita, consulte o site do museu

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3) Musée Sous-Marin (Museu Submarino) – Foi aberto em 1999 no coração da Base. O lugar em que está instalado já é interessante. Trata-se do mais antigo centro de salvamento de submarinos do mundo, que fica em um bunker de 15 metros de altura e foi, após a liberação, rebatizado pelos franceses de Tour Davis. Durante 50 anos, gerações de tripulantes de submarinos treinavam aqui como proceder em caso de naufrágio.

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A visita do museu é guiada e se concentra em dois aspectos. O primeiro é a Batalha do Atlântico, com documentários e imagens de arquivo. testemunhos, etc. Destaque para filmes e fotos realizados embaixo d’água de navios e submarinos afundados.

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O segundo aspecto é o centro de salvamento em si. Ele foi construído em 1942 pelos alemães para abrigar o simulador de salvamento chamado Tauchtopf. Em 1953, a Marinha Francesa passa a usar o lugar e o simulador, instalando ali o Centro de Treinamento Individual de Salvamento. O bunker passou a ser chamado de Tour Davis, em homenagem ao inventor do escafandro autônomo de sobrevivência.

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Assim, no museu podemos ver e entender esse simulador. O guia nos explica como ele é feito e como os tripulantes o usavam para treinar o salvamento. O tamanho do negócio impressiona. É mais do que interessante. Outra coisa que achei bem legal é que há várias roupas de mergulho expostas, o que mostra a evolução do material e equipamento ao longo das décadas.

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Musée Sous-Marin
Horários: Julho e agosto, aberto todos os dias, de 13h30 às 18h30. No resto do ano, aberto aos domingos, das 14h às 18h.
Tarifas: 5,50 euros. Crianças de 7 a 17 anos: 3,50 euros. Família (até 4 pessoas, sendo 2 adultos no máximo): 16 euros.
Para saber mais, veja o site do Musée Sous-Marin

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4) Visita guiada do K3 – O K3, como escrevi acima, é um dos bunkers de submarino construídos pelos alemães. Ele pode ser visitado, através de um tour guiado que é comprado na bilheteria da Cité de la Voile. E vale a pena! No passeio, que dura mais ou menos 1 hora e meia, aprendemos sobre a história da Segunda Guerra ali em Lorient, sobre a história da Base, as diferentes partes e etapas da sua construção e sobre como ela funcionava.

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Por onde os submarinos entravam

Em seguida, entramos no K3: conhecemos os diferentes “cômodos” do bunker. Aprendemos como era o trabalho ali, como os submarinos entravam e saíam, e muitas outras curiosidades e anedotas. No final, subimos até o seu topo, de onde temos uma bela vista da Base, do cais, do mar e dos arredores.

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Visita guiada do K3
Duração: 1h30
Tarifa: 6,20 euros. 3,10 reduzida.
Comprar na bilheteria da Cité de la Voile Éric Tabarly
Para mais informações e próximas datas, consulte o site do Patrimoine Lorient.

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5) Restaurantes, lojas e passeios – Depois de fazer todas essas visitas interessantes, nada como flanar pela Base e seus arredores. Ela abriga também restaurantes variados, lojas e ateliês de empresas de construção de barcos, principalmente veleiros.

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Além disso, nada mais agradável do que um passeio pelo cais, admirando o mar, os veleiros e vendo a atividade dos velejadores. Os mais corajosos podem sair ao mar para aprender a velejar com um profissional. Muitas equipes francesas de vela utilizam a Base para treinar antes das principais competições. É dali que saem, também, alguns barcos da empresa Escal’Ouest, que faz diversos passeios de barco na região (que são adquiridos através do Office de Tourisme de Lorient ou no site da companhia).

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Enfim, recomendo muito a visita da Lorient La Base, principalmente se você for fã de história da Segunda Guerra Mundial. Se tiver um dia livre, aconselho a usá-lo ali mesmo, visitando as diferentes atrações e fazendo o passeio de barco. Não vai se arrepender.

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Como ir até Lorient La Base – A partir do centro de Lorient, para os mais esportivos, é possível ir a pé. A caminhada dura entre 30 e 40 minutos. Já se preferir, pode pegar o ônibus T2. Mais informações sobre os horários, tarifas e os pontos onde ele para, veja aqui.

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Como ir até Lorient – De Paris, a partir da Gare de Montparnasse, você pega o trem para Lorient. A viagem dura pouco mais de 3 horas. Para saber sobre os horários e preços, acesse o site da OUI.sncf.

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Renata Rocha Inforzato

Sou de São Paulo, e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.

Comentários (3)

  • Paula Responder    

    17 de abril de 2019 at 0:34

    Que interessante, Renata! Não sabia dessa parte da História, não imaginava encontrar isso na Bretanha!

  • Denise Barreto Responder    

    18 de abril de 2019 at 10:11

    Nada como conhecer a história para entender o percurso da humanidade, não é?!? Local interessantíssimo; ótima pedida. Obrigada por compartilhar!

  • Marcela Marques Responder    

    18 de abril de 2019 at 14:05

    Nossa, como eu nunca tinha ouvido falar desse lugar? Muito obrigada por compartilhar seu texto riquíssimo em detalhes. Muito importante conhecer essa lembrança da segunda guerra

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