Newsletter Direto de Paris #4

Newsletter 4

Olá! Aqui vai mais uma edição da Newsletter do Direto de Paris. Se você recebeu o link é porque optou por assiná-la. Se mudar de ideia e quiser sair da lista, é só me escrever. A edição deste mês, maio, está cheia de atrações. É que nós estamos entrando no período mais agitado do ano, que vai até setembro. É quando as temperaturas realmente começam a subir, os dias já estão bem mais longos e a França pipoca de eventos e comemorações. Também é a época onde a maioria das atrações turísticas já está aberta (estou falando daquelas que fecham no inverno). Para quem vem à França, maio é um dos melhores meses para viajar, pois ainda não tem o calorzão e nem as multidões do verão. Se você gostou desta edição e quiser ler as edições anteriores, é só clicar aqui.

 

 

8 de maio de 1945 – Um dia de vitória

 

O 8 de maio de 1945 é um dia importante não só na França como em toda a Europa. É nesta data que acaba oficialmente a Segunda Guerra Mundial na Europa, digo “na Europa” porque na Ásia ela continua, como nós sabemos, até setembro, quando o Japão se rende depois de sofrer com as bombas de Hiroshima e Nagasaki.

Alguns dias antes, em 2 de maio, acontece a Batalha de Berlim, vencida pelas tropas da União Soviética. É quando o Terceiro Reich desmorona. O quartel general das tropas aliadas (Estados Unidos, Reino Unido, França e União Soviética) era em Reims, na França, e foi ali, em 7 de maio de 1945, que foi assinada a rendição do exército alemão. As lutas deveriam acabar em 8 de maio, às 23h01. O General Charles de Gaulle, herói francês da Guerra, diz então, através da rádio: “A guerra está ganha, aqui está a vitória”. Às 15 horas do dia 8, todos os sinos de todas as igrejas da França começam a tocar.

 

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A prefeitura de Reims

 

No dia e hora estabelecidos para o final dos combates, 8 de maio às 23h01, em Berlim, o Alto Comando Alemão assina uma nova capitulação com a presença de representantes dos países aliados. A Alemanha havia perdido definitivamente a guerra.

Na França, o 8 de maio é um feriado. Porém, nem sempre foi assim. Em um primeiro momento, uma primeira lei (alguns dizem de 1946, outros de 1953) declara o dia como feriado. Porém, em 11 de abril de 1959, o mesmo general de Gaulle suprime o feriado em nome da amizade franco-alemã. Depois de muitas mudanças, em 1981, no governo de François Mitterrand, volta-se a comemorar a data como um feriado.

Uma curiosidade é que nem todos os países dão o 8 de maio como feriado. No Reino Unido, apesar da lembrança, é um dia comum, ou seja, não é feriado. Nos Estados Unidos também não é. E em Moscou a data é comemorada no dia 9 de maio. É que, por causa do fuso horário, 8 de maio às 23h01 na Alemanha já era 9 de maio em Moscou.

 

 

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Vista da cidade de Reims, na região de Champagne, onde era o quartel-general das tropas Aliadas

 

 

Para quem gosta de ler!

 

A Bicicleta Azul (La Bicyclette), Régine Deforges.
Best Seller; Edição de bolso (19 junho 2009)
490 páginas

 

Esta obra é a primeira de uma série de livros e foi publicada em 1981. A protagonista é Léa, uma jovem de 17 anos e que vive na França ocupada pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. O nome bicicleta azul é porque na época o país estava dividido entre zona ocupada pelos alemães e zona livre, e para se deslocar de uma até a outra, normalmente usava-se uma bicicleta. Na história, acompanhamos a protagonista através do interior da França para escapar dos alemães e se engajar com aqueles que lutavam contra o Nazismo. E vemos também o seu processo de amadurecimento como mulher, nos relacionamentos amorosos e de amizade

Outros dois livros da saga, Vontade de Viver e O Sorriso do Diabo, continuam a história de Léa durante a Segunda Guerra Mundial. Já os restantes contam o pós-Guerra, com a participação da personagem em outros conflitos pelo mundo. É quase um clássico francês e foi editado várias vezes no Brasil.

 

 

A Bicicleta Azul

 

 

 

Personagem

Charles de Gaulle – O líder francês da Segunda Guerra

 

Como estamos falando de Segunda Guerra até agora, nada como falar de um francês que foi o líder dos franceses na luta contra o Nazismo: Charles de Gaulle. Ele nasceu em 22 de novembro de 1890, em Lille, Norte da França, terceiro de cinco irmãos. Sua família era de juristas, então, era relativamente bem de vida. Ele estuda em escolas católicas, chegando a estudar na Bélgica quando as congregações religiosas são proibidas na França, em 1905. Depois, termina sua formação em escolas militares.

Em 1912, quando sai da escola, de Gaulle se junta ao 33.º regimento de infantaria em Arras, também no Norte da França sob o comando do coronel Pétain. Durante a Primeira Guerra, luta como capitão, é ferido várias vezes e, em 1916, é capturado pelos alemães. Por tentar fugir, é internado em um campo para oficiais “menos dóceis”. Mas mesmo neste lugar, ele tenta escapar cinco vezes.

Em 1922, de Gaulle volta para a França, entra para a Escola de Guerra e também desenvolve suas teorias militares, tais como La Discorde chez l’ennemi (A Discórdia no inimigo), 1924, Le Fil de l’épée (O Fio da Espada), 1932, entre outras. Quando a Segunda Guerra começa, ele é coronel e comanda o 507.º regimento de veículos de combate em Metz, na região da Lorraine.

Charles de Gaulle
Charles de Gaulle em 1942. Créditos: Office of War Information, Overseas Picture Division.

Na Batalha da França, em maio de 1940, as tropas francesas perdem. Em junho, de Gaulle, promovido a general, é nomeado subsecretário da Guerra e da Defesa Nacional, encarregado de coordenar a ação militar da França e do Reino Unido. Enquanto os alemães avançam e as tropas inglesas saem da França (o filme Dunkirk mostra essa retirada dos ingleses), de Gaulle tenta convencer os franceses a continuar lutando. E é em vão, pois logo o Marechal Pétain pede a assinatura do armistício com os alemães. De Gaulle volta para Londres, onde passa a comandar as Forces Françaises Libres (FFL).

Em julho do mesmo ano, o Marechal Pétain, o mesmo que já foi comandante de de Gaulle, se torna o presidente da França no que é chamado de governo de Vichy, que é realmente comandado pelos alemães. A França fica dividida em zona ocupada e zona livre. A luta continua até que, em 14 de junho de 1944, de Gaulle desembarca na Normandia, na continuação da estratégia do Desembarque de Aliados na região. Em 25 de agosto, ele faz um discurso no Hôtel de Ville (prefeitura de Paris), e, em 9 de setembro, um governo provisório sob seu comando é instalado na França. Mas, em janeiro de 1946, ele pede demissão, por desacordo com a Assembleia. Em 1954, ele publica suas Memórias da Guerra. Em 1958, é nomeado Presidente do Conselho, encarregado de redigir a nova Constituição.

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Charles de Gaulle em 1961. Créditos: Par Bundesarchiv, B 145 Bild-F010324-0002 / Steiner, Egon / CC-BY-SA 3.0, CC BY-SA 3.0 de, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=9848371

No mesmo ano, 1958, é eleito indiretamente Presidente da República. A independência da Argélia, que era colônia francesa, vai deixar marcas em seu governo. Em 1965, ele é reeleito desta vez por sufrágio universal. Mas as contestações estudantes e trabalhistas de maio de 68 e as medidas autoritárias que de Gaulle usa para enfrentá-las enfraquecem o seu governo. Em 28 de abril de 1969, ele renuncia, após o fracasso de um plebiscito sobre a Regionalização da Reforma do Senado. De Gaulle, então, se retira para Colombey-les-Deux-Eglises, de onde começa a redigir suas memórias. Porém, somente o primeiro volume é concluído quando ele morre, em 9 de setembro de 1970.

Hoje, vários políticos franceses, tanto de esquerda quanto de direita, revendicam a herança política de Charles de Gaulle. E a cada eleição na França seu nome é mencionado e atrai eleitores até hoje.

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Charles de Gaulle ao microfone da BBC, década de 1940. Créditos: Autor desconhecido (BBC)

 

 

Para Passear
Maison Natale de Charles de Gaulle – Lille

 

Como já sabemos, Charles de Gaulle nasceu em Lille, uma bela cidade universitária no Norte da França. É ali que podemos visitar a casa onde o general nasceu e que hoje é uma casa-museu dedicada a ele. Na verdade, era a residência de seus avós, mas de Gaulle nasceu ali e sempre voltava para passar algum tempo durante a infância e juventude. É uma típica casa burguesa do século XIX e que é aberta ao público desde 1983. Os cômodos estão arrumados como na época da infância do general, podemos visitar cada um deles como se estivéssemos visitando a família. Foi feita uma verdadeira pesquisa de documentos e testemunhos para que o interior da residência fosse reconstituído. Em 2020, ela passou por uma nova restauração que deu ainda mais vida ao lugar. Se estiver em Lille, vale a pena conhecer. Para mais informações, veja o site do museu.

Maison Charles de Gaulle

 

 

Oradour-sur-Glane, na Nouvelle-Aquitaine

 

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A Europa tem várias cidades mártires, que foram destruídas durante a Primeira ou Segunda Guerras. Oradour-sur-Glane, na região de Nouvelle-Aquitaine, é uma delas. Em 10 de junho de 1944, o vilarejo, que até então era um lugar calmo e bucólico, é invadido pelos alemães, que dizimam a sua população e incendeiam as suas construções. Ao total foram mortas 642 pessoas. Nem crianças foram poupadas. Alguns poucos escaparam e passaram anos contando a história deste triste lugar.

Hoje, podemos visitar as ruínas queimadas de Oradour-sur-Glane. É chocante andar por suas ruas e ver os edifícios incinerados, imaginando o sofrimento dessas pessoas. Vemos máquinas de costura, placas de comércio e temos uma ideia de como os moradores estavam tranquilos em seus afazeres quando o vilarejo foi invadido e dizimado em questão de horas. Depois visitamos o cemitério, ali mesmo, onde as vítimas estão enterradas, o centro de interpretação, onde temos detalhes desse massacre e de outros que aconteceram em outros lugares da Europa durante a Segunda Guerra. Uma visita triste, mas necessária e que aconselho muito para quem visitar a região da cidade de Limoges. Para saber mais, veja a matéria completa que fiz sobre Oradour-sur-Glane

Oradour-sur-Glane

 

 

Alguns eventos interessantes pela França

 

E aí vou eu na difícil tarefa de fazer a triagem dentre os vários eventos que acontecem nesta França de tantas possibilidades. Aqui está a seleção do mês.

 

1) Exposição Femmes Photographes de Guerre – Musée de la Libération de Paris

 

Através do olhar de mulheres fotógrafas de várias gerações, vemos como foram alguns conflitos que sacudiram o mundo em diversas épocas. A exposição tem, além das fotos dessas profissionais, documentos, revistas e jornais, que retratam a participação feminina em todas essas guerras. Além da exposição, o próprio museu vale a visita, ainda mais para quem se interessa pelo tema da Segunda Guerra. A exposição vai até 31 de dezembro de 2022. Para saber mais, veja o site do Musée de la Libération de Paris

 

 

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2) Les Nuits de Chambord – Vale do Loire

 

No final de semana de 20 e 22 de maio, o mais famoso dos castelos do Vale do Loire vai virar palco de um espetáculo mágico de Luz & Som, além de fogos de artifício. Dentre as atrações, várias animações, como dançarinos, malabaristas e espetáculos equestres, vão encantar a família toda. Serão duas noites diferentes, além da própria visita aos cômodos do castelo que fazem do lugar uma passeio e tanto. Mais informações no site oficial do Château de Chambord.

 

Château de Chambord

 

 

3) Fête de la Nature – Paris e arredores

 

É um dos eventos mais legais do ano. De 18 a 22 de maio, vários parques de Paris e das cidades da região propõem muitos eventos gratuitos para celebrar a natureza e sua biodiversidade. Tem ateliês, visitas, demonstrações de jardinagem e muito mais. São mais de 1000 eventos. É um programa para a família toda, ainda mais na primavera, quando os parques e jardins da região ficam ainda mais bonitos. Para saber mais, consulte a página oficial da Fête de la Nature

 

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E termino por aqui esta Newsletter, que teve mais destaque para a Segunda Guerra Mundial. Espero que tenha gostado e se quiser me dar sugestões de temas, é só escrever nos comentários ou me mandar uma mensagem no contato@diretodeparis.com. Um grande abraço e até breve.

 

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Renata Rocha Inforzato

Sou de São Paulo, e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.

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