Versailles

Domaine de Madame Élisabeth – o outro château de Versailles

5 de Março de 2018

Versailles é uma cidade que, além de linda, esconde muitas atrações além do seu castelo. O Domaine de Madame Élisabeth é uma delas. Composto por um parque e um palacete, é uma atração muito apreciada pelos locais e ainda desconhecida pelos turistas.

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Para entender melhor o lugar, nada como falar de sua história. O Domaine fica em Montreuil, que hoje é um bairro de Versailles. Mas, no século XII, era um senhorio, independente da cidade.

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No século XIV, foi construída uma fortaleza nos arredores, que foi desmanchada um século depois, no governo de Charles VI. As ruínas foram dadas para a ordem dos Célestins de Paris, que fazem do terreno uma fazenda. A área, cheia de campos e lagoas, era propícia para isso.

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Mas foi na época de Louis XV, no começo do século XVIII, que o vilarejo de Montreuil se torna um lugar apreciado pela nobreza para descansar da “loucura” de Versailles. Nessa época, Madame Marsan, governanta dos filhos do rei, ocupa a hoje chamada Maison des Musiciens Italiens, ali perto.

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Seguindo a moda, a família Guéméné encomenda, em 1770, a Alexandre-Louis Étable de La Brière, arquiteto do rei, um palacete e um parque, numa das áreas em que os Célestins de Paris ocupavam. Os trabalhos duram de 1772 a 1782. Mas, logo depois, apesar de muito poderosos na Corte, os Guéméné vão à falência.

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Então, em 1783, Louis XVI adquire a propriedade e a dá de presente à sua irmã mais nova, Élisabeth de France. Eles eram muito próximos. Mas, como ela havia completado apenas 19 anos, e a maioridade naquela época era 25, não podia dormir no palacete. Assim, ela passava os dias na propriedade, em companhia de uma pequena corte composta por suas amigas, e à noite ia dormir no Château de Versailles, ali pertinho.

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A rotina da princesa no pequeno castelo era formada por diversas atividades, como a leitura, a música, equitação, bordado, etc. Ou seja, coisas comuns para as moças da nobreza. Mas, diferentemente das outras jovens bem-nascidas, ela recusava o casamento e os pretendentes.

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Élisabeth era muito inteligente e tinha uma personalidade peculiar: ao mesmo tempo em que era irreverente – ela assinava várias das cartas ao irmão, o rei, como “Élisabeth, a louca” – , era também uma católica fervorosa e dedicava seu tempo às boas-obras.. Havia uma leitaria nas terras da propriedade, de onde ela retirava o leite para distribuir para os pobres da vizinhança. A princesa também usou o dispensário – lugar físico para ajudar os necessitados – construído ali para suas obras de caridade. Com isso, ficou conhecida como “la bonne dame de Montreuil” (A boa senhora de Montreuil). Há uma estela em homenagem a ela na Conciergerie

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Quatro anos depois de ganhar o Palacete e o parque, Élisabeth encomenda algumas mudanças na propriedade ao arquiteto Jean-Jacques Huvé. Aos poucos, ela vai encomendando também os móveis para os artesãos mais prestigiados da época. A Orangerie não fica de fora da reforma, pois era o lugar onde se guardavam as árvores durante o inverno, muito comum nos castelo franceses.

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Assim, o parque abrigava, além da leitaria, do dispensário e da Orangerie, uma série de itens na moda no século XVIII. Existia no lugar uma horta, cercada por árvores frutíferas, que, além das verduras e legumes locais, abrigava até plantas raras, trazidas de países distantes pelo botânico e médico do rei, Louis-Guillaume Le Monnier.

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À leste, um rio artificial foi construído. Ele cercava uma ilha e desaparecia em uma gruta. Havia também no parque uma área para o rebanho e alamedas sinuosas que contribuíam para a beleza do lugar.

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Mas a Revolução Francesa chega e, no dia 06 de outubro de 1789, a princesa é levada junto com o resto da família real para Paris. Ela não voltará mais ao então chamado Domaine de Montreuil. Recusando o exílio, Madame Élisabeth morre guilhotinada em 10 de maio de 1794, com apenas 30 anos, e é enterrada em uma vala comum.

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Busto anônimo

Logo no começo da Revolução, o palacete e o parque são desapropriados. Em 1793, as plantas são vendidas: 245 espécies raras. No ano seguinte, é a vez dos móveis irem a leilão. Pensam em fazer do lugar um hospital militar. Porém, em 1795, é uma fábrica de relógios que se instala na propriedade. Cinquenta operários chegam da Suíça para trabalhar ali. A fábrica funciona até 1801.

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Em 1802, a propriedade passa para as mãos de Jean-Michel-Maximilien Villers. A partir daí, não se sabe muito bem o que aconteceu com o Domaine. Algumas fontes dizem que ele foi revendido em cinco lotes, mas não há certeza quanto a isso.

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O que se tem provado é que em 1846, o banqueiro Denis Sauvage compra a propriedade. Parece que foi nesta época que o palacete adquire a aparência que vemos hoje, incluindo a decoração de algumas salas. O parque pega a forma de um jardim inglês. Assim, Sauvage e a esposa, Louise Mosselman, restauram o lugar. Mas, em 1879, a propriedade é vendida novamente pela filha do casal, a condessa de Montesquiou, para outro banqueiro, Salomon Stern. Em 1890, Edgar Stern, filho de Salomon, herda o lugar, mas o vende rapidamente.

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Em 1905, Stevens Tennysson-Chantrell compra o Domaine. Sua esposa era Louis Callot (conhecida como Regine) que, junto com suas irmãs, era a proprietária de um ateliê de alta costura. Viùva, ela começa a restaurar o palacete e a adquirir os móveis e objetos que pertenceram à princesa. Porém, logo após a Segunda Guerra, seu filho, o arquiteto Jean Chantrell, aluga a propriedade ao diretor do jornal New York Herald Tribune, Mr Whitelaw Reid.

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Logo em seguida pensam em construir uma escola secundária no parque. Porém, em 1955, Lydia Chantrell, neta de Regine, vende todo o Domaine a Philippe Najar. Os móveis de Madame Élisabeth, que sua avó havia reunido, são doados por Lydia ao Louvre em 1958. O novo proprietário pretende lotear o terreno do parque e construir ali 276 residências, mesmo a propriedade tendo sido parcialmente tombada em 1953. Najar tenta aprovar seu projeto por anos e, apesar de contar com o apoio do prefeito de Versailles da época, há uma grande oposição na cidade contra a destruição do parque.

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Até que, em 1967, acontece uma tragédia: Philippe Najar morre, junto com a esposa e os filhos mais velhos, em um acidente de carro. No mesmo ano, todo o Domaine é classificado como Monumento Histórico.

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Porém, somente em 1983 a ameaça de destruição do lugar termina: é quando o Conseil Général (Conselho Geral) de Yvelines – que administra a área onde fica Versailles- compra o palacete. O Domaine é restaurado no final dos anos 1980. Alguns anos depois, em 1994, o parque é aberto ao público. Em 1997, é a vez da Orangerie ser adquirida pelo conselho. Toda a propriedade hoje é conhecida como Domaine de Madame Élisabeth.

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A visita
Infelizmente, na maior parte do ano, o palacete é fechado ao público. Ele ainda passa por alguns trabalhos. Acredito que, com o tempo, ele ficará mais aberto para visitação. Mas, enquanto isso não acontece, o Office de Tourisme de Versailles realiza várias visitas guiadas ao longo do ano para conhecer o interior do “castelo”. E ele também fica aberto durante as Journées du Patrimoine, em setembro. Já o parque é aberto ao público de março a novembro e é um lugar bastante frequentado pelos moradores da cidade.

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Uma curiosidade: o Domaine de Madame Elisabeth é um dos últimos domínios de príncipes do século XVIII a continuar conservado até hoje. Apesar de ter sido reduzido ao longo dos tempos, o palacete mantém a arquitetura Neoclássica e unidade da segunda metade do século XVIII.

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Palacete – Possui cinco cômodos para visita, três deles completamente originais, decorados, em grande parte, à moda do final do século XVIII e começo do XIX. Algumas boiseries também foram conservadas.

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Le Grand Salon (Salão) – É como uma sala de estar, aqui decorada em tons de branco e vermelho. Em um estilo típico do século XIX, é bem iluminada. Acima de cada porta, baixos relevos abordam temas comuns na época, como cestas de flores, pavões, etc. Nos anos de Madame Élisabeth neste lugar havia vários pequenos cômodos.

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La Chambre (Quarto) – Tem a decoração de um escritório, já que a princesa nunca dormiu no castelo. Por ser menor de idade, ela não poderia passar a noite ali. Isso só seria possível quando atingisse a maioridade, porém, a Revolução Francesa chegou ao mesmo tempo que os 25 anos da jovem.

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Le Salon Turc (Salão Turco) – Não achei a origem deste nome, mas acho que tem a ver com a fascinação da nobreza do século XVIII pelos países do “Oriente”, considerados exóticos. Os móveis, assim como das outras salas, recriam a atmosfera dos tempos da princesa. E as réplicas de quadros na parede mostram o exotismo apreciado na época.

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Le Salon de Musique (Salão de Música) – Hoje, esta sala não tem nenhum instrumento musical. Porém, podemos imaginar a princesa estudando música ou se dedicando a outras atividades neste cômodo que tem um ar mais intimista e é o menor do castelo. Na parede, um retrato da proprietária.

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Salle à Manger (Sala de Jantar) – Esta sala é bem maior do que as outras e tem grandes janelas. Na época de Madame Élisabeth, este cômodo não existia, o palacete terminava antes. Datado da época do Império (começo do século XIX), com certeza este salão era usado para recepções e pequenos bailes. Assim como nas outras salas, as boiseries são o destaque. Acima das portas, a decoração trata de temas da Antiguidade. Vemos também uns vestidos que mostram como as mulheres da nobreza se vestiam na época de Madame Élisabeth e um pouco depois.

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A visita do parque

O parque tem pouco mais de sete hectares e apenas algumas coisas restam do projeto original de 1772 do arquiteto La Brière. As duas perspectivas, margeadas por bosques foram mantidas. Mas muita coisa foi criada depois, no século XIX, no estilo dos jardins ingleses.

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Das árvores originais, apenas um cedro e uma sequóia foram conservados. Isso porque, em 1999, o parque teve 200 árvores destruídas ou danificadas por uma grande tempestade. No mesmo ano, novas árvores foram plantadas e o terreno recuperado com um projeto paisagístico mais atual. Hoje encontramos, carvalhos, pinheiros, macieiras, dentre outras árvores locais, assim como espécies vindas de países distantes, como o Cedro do Líbano, por exemplo.

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Outro elemento conservado da época de La Brière é a Allée des Tilleuils (Alameda das Tílias). Ela passa sobre a Avenida de Paris, que desde muitos séculos liga a capital até Versailles. As árvores, bem ordenadas, fazem um contraste com o resto do parque ao fundo.

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O rio não existe mais, mas podemos ver a gruta. Aliás, o fundo do parque guarda muito do aspecto original. E para chegar ali ou voltar para o palacete, podemos pegar um caminho margeado por árvores e arbustos, uma espécie de catedral verde, que fica ainda mais bonita com a luz do sol penetrando entre os galhos.

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Desde 2003, o parque é cuidado com uma preocupação maior com a ecologia e a sustentabilidade. Um apiário foi instalado ali, que produz mel orgânico. Os mesmos princípios orgânicos regem o pomar. A relva e grama do terreno são podadas da maneira mais natural possível: usando carneiros e ovelhas, que se tornam uma atração à parte no local.

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A Orangerie, outra atração que restou do projeto original, é aberta ao público. Ela acolhe um café e exposições temporárias, que têm como temas a natureza, arte e cultura. Diversas outras animações e exposições são organizadas durante o ano também em todo o parque.

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Então, para quem vai visitar Versailles, sugiro passear também pela cidade e conhecer o Domaine de Madame Élisabeth. Pode ser um bom lugar para relaxar antes de pegar o trem para Paris. E, com sorte, você pode encontrar o palacete aberto.

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Domaine de Madame Élisabeth
73 Avenue de Paris
78000 Versailles
Horários do parque: aberto de 1o. de março a 30 de novembro. De 1o. de abril a 30 de setembro, das 11h às 20h. De 1o. de outubro a 30 de novembro e de 1o. a 31 de março, das 11h às 18h.
Gratuito
Palacete: Aberto nas Journées du Patrimoine e em visitas guiadas ao longo do ano. Mais informações aqui.

Como ir ao Domaine de Madame Élisabeth: em Paris, na estação Montparnasse, você pega o trem transilien linha H até a estação de Versailles Chantiers. Você também pode pegar o RER C, em várias partes de Paris, e descer também em Versailles Chantiers.
Outra opção é pegar o ônibus 171, na estação Pont de Sèvres, direção Château de Versailles e descer na parada Mermoz. Mas esta é para quem não tem pressa e quer desfrutar com calma do trajeto. Para saber mais sobre cada um dos itinerários, veja este site

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Renata Rocha Inforzato

Sou de São Paulo, e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.

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