Atrações

Place Saint-Michel – a praça dos encontros em Paris

23 de junho de 2021

Last Updated on 23 de junho de 2021 by Renata Rocha Inforzato

Um dos lugares mais lembrados como ponto de encontro em Paris é a Place Saint-Michel. Não é à toa que, passeando por ali, sempre vemos ao menos uma pessoa em pé, esperando alguém. Mas a charmosa praça tem muitas histórias e curiosidades a contar.

Place Saint-Michel

História
Em meados do século XIX, durante o império de Napoleão III, o prefeito de Paris, barão Georges Eugène Haussmann, promoveu uma ampla reforma na capital. Ele criou bulevares, praças e promoveu outras mudanças urbanas a fim de melhorar a circulação pela cidade. Dentre elas, estava prevista a abertura de um novo bulevar como prolongamento do Boulevard de Sébastopol.

Place Saint-Michel

Este novo bulevar seria entre o Pont (ponte) au Change até o Observatoire (perto do Jardin du Luxembourg). Os trabalhos começam em 1859. Em um primeiro momento, o nome da nova via é Boulevard de Sébastopol Prolongé (prolongado). Até que, em 1864, ele é “dividido” em dois e ganha novos nomes: a primeira parte, do final da Pont au Change até a Pont Saint-Michel e que passa pela Île de la Cité, passa a se chamar Boulevard du Palais. E a segunda, que vai da Pont Saint-Michel até o Observatoire, recebe o nome de Boulevard Saint-Michel.

Boulevard Saint-Michel
O Boulevard Saint-Michel visto da praça

Acontece que o Segundo Império era obsessivo com perspectivas e pontos de vista. E ali, na saída da Pont Saint-Michel, não havia uma boa perspectiva do novo bulevar de mesmo nome, já que havia um imóvel que fazia a bifurcação da nova via com a rua Danton e atrapalhava a perfeição do lugar. Então, decidiu-se construir uma praça “encostada” neste ímovel.

Place Saint-Michel
A fonte “abraça” toda a altura do imóvel

É assim que vai nascer a Place Saint-Michel, uma praça mirante, pois foi criada para dar uma perspectiva monumental do Boulevard Saint-Michel a partir da ponte. Também seria a entrada triunfal para o mesmo bulevar. Para embelezar ainda mais essa parte da cidade, ficou decidida a reconstrução das pontes: Pont au Change e Saint-Michel.

Place Saint-Michel
A Força

Como em muitos trabalhos do Barão Haussmann, a abertura da Place Saint-Michel provoca o desaparecimento de pequenas vias, como a rue de l’Hirondelle e uma parte da rua Saint-André-des-Arts. O nome Saint-Michel (São Miguel) é devido a uma antiga praça que havia ali perto, mas não exatamente no mesmo lugar, e que desapareceu na construção do Boulevard Saint-Michel.

Vista da praça
Vista a partir da Fontaine Saint-Michel

Para a construção da praça, Haussmann chamou o jovem arquiteto Gabriel Davioud, que mais tarde seria conhecido como um dos arquitetos mais famosos do Segundo Império. A ideia de Davioud era criar uma praça, cercada por construções uniformes e algumas árvores, tendo como elemento principal uma fonte monumental. A fonte seria o elemento-chave para “disfarçar” a parede do imóvel que estragava a perspectiva.

Place Saint-Michel
Olhem como a fonte disfarça bem a parede do imóvel

O fato de ter uma fonte também seria um triunfo para o Segundo Império, pois, até pouco tempo antes, a falta de água era uma realidade em Paris. E a construção de fontes pela capital mostrava que o governo havia resolvido este problema. Tanto que Eugène Belgrand, responsável pelo abastecimento de água na cidade e pela criação de parques e jardins, também supervisiona a criação da praça, ao lado de Davioud.

Fontaine

A Fontaine Saint-Michel
Concebida à maneira de um arco do triunfo, a fonte (fontaine) tem 26 metros de altura e 15 de largura. Colunas coríntias de mármore vermelho do Languedoc (região francesa) emolduram um nicho onde está Saint Michel (São Miguel em português) derrotando o demônio, quase jogando-o nas águas. A estátua de bronze, inspirada em uma obra de Rafael, hoje no Louvre, foi realizada por Francisque Duret e simboliza a luta entre o Bem e o Mal.

Estátua São Miguel

De cada lado do nicho, como mencionei acima, duas colunas de mármore vermelho. Entre as colunas, um escudo com o lema de Paris. Logo acima de cada uma delas, está uma cabeça de leão, que faz parte de uma frisa. Tudo isso sustenta quatro esculturas representando as quatro virtudes cardeais: A Prudência, esculpida por Jean-Auguste Baure; A Justiça segurando uma espada, obra de Élias Robert; A Temperança, realizada por Charles Gumery, e a Força com a clava de Hércules, vestida com a pele do leão de Néméia, do escultor Hyacinthe Debay. Nos intervalos das estátuas, vemos escudos com referências a Saint Michel.

Place Saint-Michel
A Justiça

As guirlandas e os anjinhos da frisa e acima do nicho foram esculpidos por Noémie Constant e colocados um pouco depois, em 1863. Um frontão de estilo renascentista coroa o conjunto. No centro dele, há uma inscrição comemorativa, que diz: “Fontaine Saint-Michel. Sob o reino de Napoleão III, imperador dos franceses, este monumento foi construído pela cidade de Paris, no ano MDCCCLX”. E, acima de tudo, há um barco, que representa a cidade de Paris, cercado pelas alegorias do Poder e da Moderação.

Place Saint-Michel

Símbolo de Paris
O barco – símbolo de Paris

Duas quimeras aladas, que ficam uma de frente para a outra, realizadas em bronze por Henri-Alfred Jacquemart, cospem a água, que corre por três degraus e vai parar em um tanque semi-circular. O líquido jorra a sete metros de altura.

Quimeras aladas

Como a orientação da fonte não é favorável, ela recebe pouca iluminação natural. Gabriel Davioud tentou compensar esse “defeito” através do emprego de pedras coloridas no monumento. Há mármores vermelho, branco e verde. Além deles, o tanque é em pedra de Saint-Ylie (da região do Jura, na França), de um cinza meio amarelado; o rochedo de Saint Michel é em pedra azul de Soignies (Bélgica); e o resto da elevação da fonte é em pedra branca de Banc Royal de Méry (um calcário da região do Oise, perto de Paris).

Place Saint-Michel

O conjunto da Fontaine é inspirado no Arc de Triomphe du Carrousel du Louvre, de 1809. E não é à toa: a fonte deseja fazer uma homenagem ao Primeiro Império e seu prestígio. Inclusive, a ideia original de Davioud era colocar uma estátua de Napoleão I ali onde está Saint Michel. Não vamos nos esquecer que estamos em pleno Segundo Império e o imperador, Napoleão III, era sobrinho de Napoleão I, o Bonaparte. Assim, ao glorificar o governo de seu ancestral, Napoleão, o III, glorifica o próprio império.

Conjunto fonte

Os imóveis homogêneos que Gabriel Davioud concebeu para Place Saint-Michel foram inspirados nos que Charles Percier desenhou para a Rue de Rivoli, durante o Primeiro Império. E tem mais: a Place Saint-Michel foi inaugurada em 15 de agosto de 1860, dia do aniversário de Napoleão I.

Place Saint-Michel

Uma multidão estava presente nesse dia, curiosa, pois, até o final dos trabalhos, a Fontaine estava escondida por uma espécie de véu. Porém, a recepção do monumento é dividida. Várias pessoas reprovam a praça por ser encostada no imóvel (aquele que estragava a perspectiva). Outras dizem: “Neste monumento execrável, não vemos nem talento, nem gosto. O diabo não vale nada, Saint Michel não vale o diabo”.

Baixo relevo Atributos São Miguel

Curiosidades sobre a Place Saint-Michel
1) Na época da Commune de Paris, 1871, Davioud teve medo de ver sua fonte destruída, por causa das alusões aos Primeiro e Segundo Impérios. Porém, em 24 de dezembro de 1872, ele foi encarregado pela prefeitura de Paris de diversos trabalhos de reparação pela cidade. Foi o alívio e a constatação de que sua obra era validada pela República.

Escudo de Paris
Lema de Paris: “Fluctuat nec mergitur”, o que significa, em tradução livre: “É atingido pelas ondas, mas não afunda”

2) No número 1 da praça, havia o Caveau du Soleil d’Or é frequentado por artistas e intelectuais. Alguns de seus habitués eram Alfred Jarry, Apollinaire, Max Jacob, Picasso, por exemplo. O local também era a sede das reuniões da revista literária e artística La Plume.

Place Saint-Michel

3) De 19 a 25 de agosto de 1944, a Place Saint-Michel foi palco de um evento importante entre os ocupantes alemães e as FFIs (Forces Françaises de l’Intérieur), que faziam parte da Resistência Francesa e lutavam contra os alemães.

Frisa anjinhos

É que perto da praça, do outro lado do Sena, a polícia parisiense, em greve, se insurge contra o comando alemão e invade, na manhã de 19 de agosto, a Prèfecture de Police (a polícia responsável pela capital e arredores), localizada ali perto, na Île de la Cité. A ordem era a insurreição geral, com o patrulhamento de Paris e a ocupação de edifícios públicos, fábricas, estações etc, para facilitar a chegada dos Aliados e a Liberação de Paris.

A Prudência

Como o Boulevard Saint-Michel, e consequentemente a praça, eram lugares de passagem para as tropas alemãs, a ideia da FFI foi ocupar a Place Saint-Michel para impedir os alemães de se deslocarem e chegarem à Préfecture de Police. Em 21 de agosto, barricadas começaram a ser erguidas na praça e nos arredores. Os moradores dos V e VI arrondisssements (distritos) tomaram parte nos combates ao lado das FFIs. O grupo de Resistentes reunido aqui será batizado de Maquis Saint-Séverin, por causa da igreja de mesmo nome no Quartier Latin. Maquis é um termo inicialmente utilizado para denominar o lugar onde grupos da Resistência Francesa se reuniam e depois passou a ser usado também para denominar os próprios grupos e suas organizações.

Place Saint-Michel
Uma das placas lembrando o combate de 1944

Os enfrentamentos fazem vários mortos do lado da Resistência Francesa. Assim, a Place Saint-Michel tem duas placas colocadas na fonte lembrando o evento. Em uma está escrito: “À memória dos soldados das Forces Françaises de l’Intérieur e dos habitantes dos V e VI arrondissements que, neste lugar, encontraram a morte combatendo”. Já na outra placa, lemos: “No ano MCMXLIV (1944). Do 19 a 25 de agosto, após cinquenta meses de ocupação alemã, o povo de Paris, com a aproximação dos exércitos libertadores, se revolta contra a opressão”

Place Saint-Michel
A outra placa lembrando os acontecimentos de 1944 na praça

4) Nos protestos de maio de 1968, a Place Saint-Michel é novamente palco de confrontos, desta vez entre os policiais franceses e os estudantes.

relevo da fontaine Saint-Michel

5) Ao longo do tempo, a Place Saint-Michel foi servindo de inspiração para vários artistas, como os pintores que retratavam Paris em suas obras. Alguns exemplos: Eugène Galien-Laloue (1854-1941), Édouard Léon Cortès (1882-1969) e Antoine Blanchard (1910-1988).

Place Saint-Michel
Eugène Galien-Laloue – Place Saint-Michel, começo do século XX

Hoje, a Place Saint-Michel, apesar de pequena, é um dos lugares mais apreciados de Paris. Além de ser local de ponto de encontro, como mencionei no início do texto, é um lugar de passagem, pois embaixo dela estão o metrô e o RER (o trem que vai para os subúrbios). E também as ruas dos arredores, cheias de lojas, cinemas e restaurantes, atraem muitas pessoas, que acabam passando pela praça. Por isso, ela é um lugar alegre e movimentado.

Place Saint-Michel

A Place Saint-Michel também é palco para apresentações musicais ou de dança, o que atrai muita gente, muitas vezes até tarde da noite. É como se fosse um aperitivo da animação do Quartier Latin. E ainda tem a proximidade com o rio Sena para dar ainda mais movimento à praça. As luminárias antigas e a entrada Art-Nouveau de Hector Guimard para o metrô, junto com a própria fonte, tornam a Place Saint-Michel ainda mais charmosa.

Place Saint-Michel

O comércio que a rodeia está mudando: muitas lojas tradicionais foram para outro lugar ou fecharam as portas. Mas espero que essas mudanças, até normais em lugares antigos como este, não alterem a identidade e a personalidade democrática que a Place Saint-Michel sempre teve.

Place Saint-Michel
A Temperança

Place Saint-Michel
75005 – Paris
Metrô: Saint-Michel, linha 4
Cluny-La Sorbonne, linha 10 (andando cinco minutos).
RER B e RER C – Saint-Michel-Notre-Dame

Place Saint-Michel

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Renata Rocha Inforzato

Sou de São Paulo, e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.

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