Newsletter Direto de Paris #8

Newsletter 8
O Hôtel de Ville, a prefeitura de Paris

 

Olá! Você está bem? Aqui está a oitava edição da Newsletter Direto de Paris. Se você está recebendo o link dela por email é porque optou por ser assinante. Se mudar de ideia, basta me enviar um email para contato@diretodeparis.com que removo seu endereço da lista sem problemas. Só não esqueça de colocar o assunto, senão vai para a caixa de spam. Para ler as outras sete edições da Newsletter, basta clicar aqui.

Setembro chegou e com ele, logo mais, vai chegar o outono. É difícil pensar nisso, pois neste ano o calor está enorme e temos a impressão de que não vai passar. Para mim, o outono é uma das estações mais bonitas na França, pois as folhas das árvores começam a mudar de cor e é um espetáculo, principalmente nos parques. Setembro também é o mês das Journées Européennes du Patrimoine, quando vários países europeus abrem seus monumentos para visitas bem interessantes. E em terras francesas não é diferente. O evento, que neste ano acontece nos dias 17 e 18 de setembro, é um dos meus preferidos aqui e você vai entender o motivo agora.

 

Journées du Patrimoine – Conhecendo os monumentos franceses

 

Bom, apesar de ser um evento que acontece em vários países europeus, vou focar na França, afinal ela é o tema de todo este site. Como disse acima, é um dos meus eventos favoritos, pois é a chance de visitar lugares que normalmente são fechados ao público ou ver de outra forma aqueles que normalmente são abertos às visitas.

Vários lugares do governo e sedes de poder ficam abertos, como, por exemplo, o Palais de l’Elysée, onde vive e trabalha o Presidente da República, o Hôtel de Ville de Paris, que é a prefeitura da cidade, os Ministérios e Secretarias e por aí vai. Eu, por exemplo, já visitei o Hôtel de Ville (vou escrever em breve), o Palais Royal (você pode ver o texto aqui), onde ficam vários órgãos do governo, o Senado (veja aqui) e vários outros. Ainda quero tentar o Élysée ou a Assemblée Nationale, mas tem que reservar antes. Alguns desses lugares têm filas, mas até hoje nunca fiquei muito tempo nelas.

Ainda há os lugares que normalmente já recebem visitantes, como, por exemplo, os  museus. Eles apresentam programação especial em comemoração ao evento e muitos deles são gratuitos neste dia. Para saber o que cada um vai fazer, é só consultar o site oficial do museu escolhido. Até parques, que normalmente já ficam abertos e são gratuitos, oferecem atrações especiais. 

Palais Royal

 

E, no meio de tudo isso, destaque para as visitas diferentes, insólitas. Eu, por exemplo, já fui visitar um vinhedo em Argenteuil e depois, na mesma cidade, visitei um moinho com um carrossel gigante do século XIX. Foi no Moulin d’Orgemont. Sem contar as visitas para ver como funcionam os metrôs, a de lugares escondidos em grandes estações e muito mais. E lembrando que o evento acontece na França toda, então, tem muito lugar para visitar.

E aí vem a curiosidade: como as Journées Européennes du Patrimoine começaram? Apesar de acontecerem em toda a Europa, as journées são uma criação francesa. A primeira edição do evento aconteceu em 1984, por iniciativa do então Ministro da Cultura, Jack Lang (o mesmo da Fête de la Musique, veja o texto na Newsletter 5). O evento se passava em um dia somente, que era o terceiro domingo de setembro. 

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A biblioteca Sainte-Geneviève, em Paris

 

No ano seguinte, o Conselho da Europa torna as jornadas um acontecimento europeu. E em 1999, é a vez da União Europeia abraçar o evento, que, na edição seguinte, em 2000, passa a se chamar Journées Européennes du Patrimoine (em francês, pois o foco aqui é França). Em Portugal, obviamente, se chama Jornadas Europeias do Património, pois cada país traduz o evento para a sua língua e sua cultura.

Hoje elas acontecem em mais de 50 países. São mais de 70 mil eventos em toda a Europa que atraem não somente turistas, mas os habitantes de cada país. Aqui na França, por exemplo, os franceses adoram e esperam ansiosos para dar um “alô ao Macron”, pois a visita ao palácio presidencial é a mais procurada. Se quiser saber mais sobre as Journées du Patrimoine, veja o site oficial e veja também o que já foi publicado aqui no Direto de Paris sobre o assunto.

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O Palais Brongniart, em Paris, que foi sede da antiga bolsa de valores

Para quem gosta de ler!

 

Um Domingo para Sempre (Un Long Dimanche de Fiançailles), Sébastien Japrisot.
Editora Relume-Dumará (1 de janeiro de 2005)
368 páginas

 

Li este livro em francês e me surpreendi ao saber que já foi publicado no Brasil. Foi uma história que amei, mas que também me perturbou. O enredo é o seguinte: durante a Primeira Guerra Mundial, cinco soldados são condenados por terem praticado a automutilação para escapar do combate. A punição: foram jogados na neve em frente à fronteira inimiga, para que morressem ou pelo inimigo ou pelo frio. Mas, durante um dia e uma noite, eles fazem de tudo para sobreviver. 

Depois da Guerra, Mathilde, a noiva do mais jovem, Manech (que tinha apenas 20 anos quando foi enviado para a guerra), vai lutar para encontrá-lo, nem que seja morto. E é com essa esperança e coragem que ela faz de tudo para atingir seu objetivo, levando o leitor por uma viagem ao passado. O autor, Sébastien Japrisot, para escrever este livro, teria se inspirado nas histórias que seu avô lhe contava sobre a Primeira Guerra Mundial. Um Domingo para Sempre foi levado para as telas pelo diretor Jean-Pierre Jeunet, em 2004, com o nome de Eterno Amor e teve Audrey Tautou no papel de Mathilda.

 

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Personagem

Séraphine De Senlis – Uma artista quase desconhecida

 

Séraphine De Senlis é uma artista ainda desconhecida até por muitos franceses. Eu aprendi um pouco sobre ela em uma palestra muito interessante sobre pintoras francesas. Infelizmente, é grande o número de artistas mulheres que não têm o devido reconhecimento em vida (e várias nem depois da morte). E Séraphine foi uma delas.

Séraphine Louis nasceu em Arsy, no departamento do Oise, na região Hauts-de-France (no Norte da França), em 3 de setembro de 1864. De família modesta, ela fica órfã aos sete anos e é criada pela irmã mais velha. Em 1881, Séraphine entra para o convento de la Charité de la Providence (da Caridade da Providência), em Clermont-de-l’Oise, onde trabalha como empregada doméstica até 1901.

Em 1906, ela se muda para Senlis, na mesma região, e continua a trabalhar como doméstica, desta vez para as famílias burguesas da cidade. Algum tempo depois, ela se muda para um apartamento na mesma cidade, e é quando começa a pintar. Ela desenha e pinta em telas pequenas, em painéis de madeira, em potes de cerâmica, enfim, em todo o suporte que cai em suas mãos.

 

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Albert Benoît – Séraphine pintando, tiragem fotográfica, 1927-1928 • © Musées de Senlis

 

Autodidata, Séraphine nunca pode frequentar um curso. Ainda guardando uma forte religiosidade da época do convento, dizia que tinha visto um anjo e que ele lhe mandara pintar. Seus temas são flores e frutas, que via nas gravuras dos livros de Botânica das casas que limpava. A representação é bem realista e muitas vezes as frutas flutuam no espaço, sem nenhum suporte, como as figuras dos livros que a inspiravam.

Em 1912, ela começa a trabalhar como doméstica na casa de Wilhem Uhde. Crítico e negociador de arte, amigo de artistas como Picasso, ficou conhecido por ter descoberto o Douanier Rousseau, pintor francês, nos anos 1900. O patrão repara o talento de Séraphine e a encoraja. Porém, a Primeira Guerra começa e Uhde, que era alemão, é obrigado a deixar a França.

Aos poucos, Séraphine vai passando a produzir obras de formatos cada vez maiores. Algumas telas chegam a medir dois metros de altura. Em 1927, a artista apresenta seis destas telas em uma exposição da Sociedade de Amigos das Artes, que ocorre na prefeitura de Senlis. Ela reencontra Uhde, que havia voltado para a França, a quem vende algumas telas. Uma curiosidade é que Séraphine não falava de sua obra, nem sequer dava nomes às suas pinturas. E assinava S.Louis antes de começar a pintar e depois cobria a assinatura com cores. E era Uhde quem nomeava suas telas. O misticismo continua: dizem que ela cantava – muito mal – cânticos religiosos enquanto pintava.

 

obra de Séraphine
Séraphine De Senlis – Fleurs et fruits (Flores e Frutas), década 1920 , Óleo sobre tela, Collection Dina Vierny, Musée Maillol

 

Em 1929, Séraphine participa da exposição Les Peintres du Coeur Sacré (Os pintores do coração sagrado, em tradução livre), em Paris, ao lado de outros “Primitivos Modernos” (termo usado por Uhde para nomear os pintores autodidatas da época). Ela consegue, assim, uma certa reputação e dinheiro, mas não sabe administrar seus ganhos. Nos anos 1930, com dificuldades financeiras, Wilhem Uhde cessa de ajudá-la. Então, não poder mais pintar, por falta de meios, é muito duro para a artista. Ela volta aos serviços de doméstica. E é aí que começam seus problemas psiquiátricos.

Em 21 de fevereiro de 1932, Séraphine tem uma crise psicótica e é internada em um hospital psiquiátrico em Clermont-de-l’Oise. O diagnóstico é que ela sofre de “psicose crônica, com ideias de grandeza, alucinações auditivas e ideias delirantes”. Ela para de pintar, mas escreve muitas cartas, de maneira quase obsessiva. Nelas, a artista descreve suas alucinações, suas perseguições, mas também se queixa de maus-tratos. Séraphine De Senlis morre dez anos depois, em 1942, em um anexo do hospital em Villers-sous-Erquery. Ela tinha 78 anos e a causa oficial da morte é câncer de mama. Mas é provável que tenha morrido de desnutrição. Esquecida, ela é enterrada em uma fossa comum de Clermont-de-l’Oise.

 

A artista
Séraphine De Senlis, fotografada em torno de 1935 © Musée Henri Theillou

 

Após a morte de Séraphine, Wilhem Uhde continua a expor suas obras. Ela é tema de uma exposição em 1945, em Paris. Mas sua arte atrai muito interesse a partir dos anos 1970, quando a Arte Naïf, corrente na qual ela é classificada, é redescoberta. Hoje, o museu de Senlis possui 21 de suas 109 obras. Outras estão em alguns museus franceses e há ainda outras que devem estar em coleções particulares, pois Séraphine tinha o costume de pagar com sua arte os comerciantes de Senlis. 

Atualmente, suas telas valem milhares de euros. Um filme sobre a vida da artista foi realizado por Martin Provost em 2008. A obra, chamada Séraphine, foi recompensada com sete Césars no Festival de Cannes de 2009, dentre eles o de melhor filme e o de melhor atriz para Yolande Moreau, que interpretou a pintora.

 

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Séraphine diante do quadro “Fleurs des Champs” (Flores dos Campos), em seu ateliê

 

Para Passear

Senlis – Hauts-de-France

 

Já que vimos a vida  de Séraphine De Senlis, que tal conhecermos a cidade que lhe deu o apelido? Situada na região de Hauts-de-France, Senlis é conhecida pelo seu centro histórico medieval super bem preservado. Mas a história do lugar remonta à época em que os romanos dominaram a região, quando ainda se chamava Augustomagus, o que significa “Mercado de Augusto”. Dentre as atrações de Senlis, temos ruínas da época do Império Romano, como as das arenas; edifícios mais “recentes”, como a Catedral Notre-Dame, que foi construída entre os séculos XII e XVI; museus, como o Musée d’Art et d’Archéologie, onde estão as obras de Séraphine De Senlis e muito mais. Caminhar pela cidade é uma verdadeira viagem ao tempo. Não é à toa que ela e os arredores fazem parte da lista de Pays d’Art & d’Histoire (País de Arte e de História, em tradução livre), um selo atribuído às cidades que preservam seu patrimônio histórico e artístico. O melhor de tudo é que Senlis é de fácil acesso a partir de Paris: fica a apenas 1h30 da capital.

 

Senlis

 

Hôtel de Soubise – Paris

 

Hôtel de Soubise

Continuando a falar das Journées du Patrimoine, uma das visitas mais legais que já fiz durante o evento foi ao Hôtel de Soubise, no Marais. Esse palacete, com aparência típica do século XVIII e restaurado no XX, abriga o Musée des Archives Nationales (Museu dos Arquivos Nacionais) desde o século XIX. Durante as Journées du Patrimoine, além de visitar o museu e sua exposição temporária, temos acesso a áreas que normalmente são fechadas ao público, além de vermos documentos bem antigos. E muitos deles são manuscritos. Quando fui, tinha até documentos da época medieval, mais velhos do que o Brasil. 

Também podemos visitar a outra face do Hôtel de Soubise: a de palacete aristocrático. Visitamos os cômodos e vemos como era a vida de uma família do século XVIII, época da última grande mudança na estrutura e aparência do lugar. Cada peça está mobiliada como se ainda morasse alguém ali, com móveis realizados pelos melhores ateliês franceses, tecidos luxuosos confeccionados pelas grandes “maisons” do país e muito mais luxo. O destaque vai para as pinturas, realizadas por alguns dos artistas mais renomados do século XVIII, como François Boucher e Carl Van Loo, por exemplo. São magníficas. Como escrevi ali em cima, o palacete e, consequentemente, seus cômodos foram restaurados na segunda metade do século XX e reencontraram todo o seu brilho. Durante as Journées, também acontecem vários eventos no jardim do Hôtel de Soubise. Para saber mais, consulte o site oficial do museu e veja também o texto que escrevi sobre o Hôtel de Soubise aqui no blog.

 

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Alguns eventos interessantes pela França

 

Bom, o grande evento do mês são as Journées du Patrimoine. Não é à toa que falei tanto dela aqui nesta edição da Newsletter. Mas há também outras coisas bem legais marcadas para setembro e menciono très delas abaixo:

 

1) Chartres en Lumières – Chartres – Centre-Val de Loire

Uma das cidades mais interessantes e fáceis de ir a partir de Paris, Chartres é conhecida pela sua catedral, que é esplêndida. Pois, desde abril e até janeiro de 2023, ela e outros monumentos históricos da cidade recebem uma bela iluminação desde que o sol se põe. É uma caminhada mágica em um lugar encantado e cheio de história. E tudo gratuito. São 19 iluminações, uma mais bonita do que a outra. Vai até 14 de janeiro. Mais informações aqui

 

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2) Festival du Cinéma Américain – Deauville – Normandie

É o segundo maior festival de cinema que acontece na França. O charme de Deauville, a 2h30 de Paris, é o cenário especial para o evento. Já em sua 48 edição, são 60 filmes divididos em oito categorias. Há tanto obras inéditas, como também as mais antigas. Um dos clássicos na programação  é Day of the Outlaw, um western do diretor André Toth, de 1959. E é a chance também de ver algumas celebridades francesas e mundiais. Catherine Deneuve e Pierce Brosnan, por exemplo, já desfilaram por ali. Acontece até 11 de setembro. Mais informações, veja o site oficial.

 

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3) Maison de Monet Argenteuil – Argenteuil – Arredores de Paris

Esta é uma das melhores notícias do mundo das artes aqui na França. Antes de morar em Giverny, uma das casas em que Claude Monet viveu fica em Argenteuil, a 15 minutos de Paris. Essa cidade foi cenário para as obras de muitos artistas impressionistas, inclusive eles sempre visitavam Monet nessa casa. Comprada pelo município, a residência até ano passado abrigava um anexo da prefeitura de Argenteuil. Até que foi decidida sua restauração e a transformação do lugar em museu, para retratar a vida de Claude Monet ali. A inauguração será em 17 de setembro. Para saber mais, clique aqui.

 

Monet
A casa está como na época em que Claude Monet morou

 

E a oitava edição da Newsletter do Direto de Paris fica por aqui. Espero que você tenha gostado. Se tiver sugestões de conteúdo, coloque aqui nos comentários ou me escreva para contato@diretodeparis.com. Você não imagina o quanto sugestões me ajudam. E é super bom também ter um feedback para aprimorar cada vez mais este trabalho aqui do site.

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Renata Rocha Inforzato

Sou de São Paulo, e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.

Comentários (2)

  • Monica Responder    

    7 de setembro de 2022 at 22:00

    Ficou muito boa sua newsletter. Adorei conhecer a pintora. Que história e que pinturas lindas. E também vou procurar o livro. Obrigada por compartilhar.

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