Newsletter Direto de Paris #2

Lille
Lille, uma cidade situada no Norte da França

 

Este é o segundo número da Newsletter do Direto de Paris. Espero que tenha gostado da primeira e que goste também desta nova. Se você quiser ler o número anterior, basta clicar aqui. Mais uma vez atrasei o envio do e-mail com o link, mas logo pegarei o jeito. Tenha paciência! Bom, o importante é que este número coloquei bastante coisa legal e interessante sobre a França, este país que tanto amamos.

                                               

                               É primavera!

 

Março é um mês muito esperado na França – e  também em outros países do Hemisfério Norte. É que é o mês da primavera, quando as temperaturas geralmente começam a subir, as árvores ganham folhas e as flores aparecem. Usei a palavra “geralmente” porque ainda pode haver temperaturas bem baixas em março. Lembro que há alguns anos, uns quatro ou cinco anos atrás, voltei do Brasil no meio do mês e encontrei gelo no meu jardim. E esperava ver flores.

Mas mesmo quando ainda está friozinho, a aura de primavera, de dias mais longos, já aparece. E há um ambiente mais alegre: as pessoas começam a sair mais às ruas, a sorrir mais. Os parques não deixam de ser frequentados no inverno, mas na primavera eles ficam mais vivos, mais animados e abertos até mais tarde.

A primavera é a estação que mais gosto aqui na França. Um dos motivos, é claro, é a beleza da paisagem, dos parques, jardins e até das cidades. Mas é a estação do renascimento depois do inverno e da promessa do verão. Com a primavera, inicia-se um período cheio de eventos em todo o país, que vai até o outono. É como se, depois do recolhimento do inverno, as pessoas saíssem e vivessem intensamente para compensar o tempo de “hibernação”. Elas querem passar mais tempo fora de casa e o que não falta é o que fazer, ainda mais com os dias já ficando mais longos.

 

Newsletter 2
Tulipas no Parc Floral de Paris

É na primavera que acontece a maior festa medieval da França, as Médiévales de Provins (mês de junho), a Festa de Joana d’Arc em Orléans (final de abril, começo de maio), as comemorações do Dia D na Normandia (começo de junho) e por aí vai. E vale a pena participar de alguma festa típica francesa (a lista é imensa), pois é um modo diferente de fazer turismo e a gente se sente parte de um fato histórico e aprende mais sobre ele. Fora que os lugares onde acontecem os eventos já são lindos e ficam ainda mais com as decorações festivas.

Outra vantagem destes tempos primaveris é que muitas atrações e monumentos que fecham no inverno reabrem agora na estação, como, por exemplo, os jardins de Monet, em Giverny, em 1 de abril. Bom, se você quiser saber mais sobre essa época tão gostosa por aqui, veja este texto do blog sobre a primavera em Paris. Vai gostar!

 

Cerejeiras
Cerejeiras no Parc de Sceaux, na região de Paris

 

Para quem gosta de cinema!

 

8 Rue de l’Humanité –  Ano de estreia : 2021
Direção: Dany Boon 
Onde assistir: Netflix

Se há uma dica de filme mais atual, desconheço. A história conta como os moradores de um imóvel lidam com a pandemia durante o primeiro confinamento em Paris, o pior de todos, que aconteceu de março a maio de 2020. Foi a época em que as ruas ficaram vazias e a gente só podia sair de casa uma vez por dia para fazer coisas essenciais e com atestado, senão levava multa. 

O filme conta essa época com humor, com muitas situações bizarras, mas que no fundo nos identificamos. As paranóias dos moradores com medo de serem contaminados – quem nunca? -, os conflitos de vizinhança e de relações familiares, exacerbados pelo confinamento em espaços pequenos… tudo isso é mostrado com leveza e sensibilidade. 8 Rue de l’Humanité é um projeto de Dany Boon, que também atua no filme. Ele é um dos atores mais populares na França e um dos que mais gosto.

 

Newsletter 2

Personagem

Berthe Morisot – A rainha do Impressionismo

 

Berthe Morisot é uma das mulheres do começo do Impressionismo. Ela nasceu em 14 de janeiro de 1841 em Bourges. Seu pai, Edmé Morisot, era Prefeito do Departamento (aqui departamento engloba várias cidades) e Berthe tinha duas irmãs e um irmão. Quando o pai é nomeado para um cargo em Paris, a família se muda para a capital. 

Berthe e seus irmãos recebem uma educação das famílias abastadas da época e isso inclui formação artística, como piano e desenho. Berthe e Edma, sua irmã, revelam ter talento para a arte, o que talvez venha de família, pois elas são sobrinhas-tataranetas de Jean-Honoré Fragonard (1732-1806), bem famoso aqui na França. Ainda por cima, elas têm artistas como professores e vão sempre ao Louvre copiar algumas obras-primas. Berthe se interessa pela grande inovação da época, a pintura ao ar livre, defendida pelos artistas da École de Barbizon (Barbizon é um vilarejo perto de Paris e fica perto da floresta de Fontainebleau, que era retratada pelos pintores da época).

 

Berthe Morisot
Berthe Morisot em torno de 1877 – autor desconhecido

 

Em 1864, Berthe expõe suas paisagens no Salon de Beaux-Arts, em Paris. Sua irmã Edma também participa do salão. Elas continuam nos anos seguintes. A família Morisot, muito culta, organiza frequentemente jantares e encontros culturais em casa e é convidada por outras famílias, como os Manets.  Assim, Berthe e seus irmãos entram em contato com vários intelectuais da época, como o escritor Émile Zola, o pintor Charles-François Daubigny, entre outros. Berthe se torna, inclusive, aluna de Édouard Manet e até posa para ele. Enquanto isso, continua a expor suas pinturas nos salões e até vende algumas.

Em 1874, Berthe Morisot, Claude Monet, Pierre-Auguste Renoir, Camille Pissarro e Edgar Degas fundam a Société anonyme des artistes peintres, sculpteurs et graveurs. A intenção era poderem expor suas obras sem precisar passar pela aprovação da Académie des Beaux-Arts, que organizava os salões oficiais. Em abril do mesmo ano, acontece a primeira exposição impressionista, da qual Berthe participa. Ela será presente em todas as outras, menos na de 1879, por causa do nascimento de Julie, que havia ocorrido alguns meses antes.

 

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Édouard Manet – Berthe Morisot étendue, 1873. Musée Marmottan-Monet

Em dezembro do mesmo ano, ela se casa com Eugène Manet, que, assim como Édouard, era pintor, porém menos reconhecido. O casal tem uma filha, Julie, nascida em 1878. Nos anos seguintes, o reconhecimento da obra de Berthe não para de crescer: sua pintura luminosa, captando instantes felizes da vida em família, encontra muitos admiradores. Ela recebe sempre em casa seus amigos artistas, dentre eles Monet, Degas, Gustave Caillebotte, Renoir e Stéphane Mallarmé, que se torna um de seus melhores amigos. 

São anos felizes para a artista: em 1887 ela expõe em Bruxelas. Em 1892, tem sua primeira exposição individual, na Galeria Boussod et Valadon, em Paris. Porém, no mesmo ano, Eugène morre, deixando Berthe sozinha com Julia, que tinha, então, 14 anos. 

Três anos depois, a artista contrai uma espécie de gripe (alguns biógrafos dizem que foi congestão pulmonar) e morre, em 2 de março de 1895, com apenas 54 anos. Ela é enterrada no cemitério de Passy, em Paris. Uma triste curiosidade é que em seu túmulo está escrito somente “Berthe Morisot, viúva de Eugène Manet”, pois, por mais sucesso que Berthe tenha tido, uma mulher não era reconhecida como profissional, ainda mais artista. Ainda bem que o tempo pareceu render justiça a ela, que figura como um dos maiores artistas (isso mesmo, incluindo os homens) da História da Pintura.

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Berthe Morisot – Enfants à la vasque, 1886. Musée Marmottan-Monet

 

Para Passear
Musée Marmottan-Monet

 

Musée Marmottan-Monet
A maior coleção de obras de Berthe Morisot está no Marmottan-Monet

 

Falando em Berthe Morisot, o maior acervo dela está no museu Marmottan-Monet, em Paris. Grande parte dos quadros, desenhos e até móveis que pertenceram à artista foi resultado da doação de seu neto, Denis Rouart, em 1993. 

Aliás, a história deste museu é bem interessante. Paul Marmottan, colecionador de arte e dono do palacete onde hoje é o museu, era contemporâneo dos impressionistas e criticava o movimento. E quem diria que, tempos depois da sua morte, sua residência, já um museu, acolheria obras impressionistas e se tornaria referência no assunto?! E “pior” ainda: que junto ao seu sobrenome, Marmottan, seria acrescentado o sobrenome do mestre do Impressionismo, o Monet, de Claude Monet?! Já pensou? Aliás, se quiser saber mais detalhes do museu, veja o guia aqui no site sobre o Marmottan-Monet.

 

Bougival e um museu para Berthe

Outro lugar bem importante para quem quer saber mais da vida de Berthe Morisot é a cidade de Bougival, nos arredores de Paris. É um lugar lindo ainda hoje, banhado pelo rio Sena. Então, imagine o quanto de inspiração rendeu para os artistas! Entre 1881 e 1884, Berthe alugou uma casa na cidade, onde passava principalmente os verões ao lado de Eugène e Julie. O lugar serviu de cenário para muitos de seus quadros mais famosos. Porém, até pouco tempo atrás, uma das coisas mais tristes é que essa casa era propriedade particular e não aberta ao público. Algo que vai mudar, já que a prefeitura de Bougival comprou o imóvel em 2015 e começou os trabalhos de restauração para fazer dele um museu dedicado à artista. A previsão de abertura é na primavera de 2023.

 

Maison Berthe
A casa como era até pouco tempo atrás
Newsletter 2
O futuro museu e centro de interpretação

 

Alguns eventos interessantes pela França

Como escrevi ali em cima, a primavera é o renascimento aqui na França. Então, eventos voltam a pipocar. Se eu for escrever todos, dá uma bíblia. Resolvi colocar três dos que acho mais interessantes. Fica a sugestão se você estiver ou pensa viajar até a França nos próximos dias.

 

Journées Européennes des Métiers d’Art

Entre os dias 28 de março e 2 de abril, acontecem as Journées Européennes des Métiers d’Art. Como o nome diz, é um evento que abrange não só a França, mas outros países europeus. Em diversos lugares há encontros, debates, trocas, demonstrações ao vivo de profissões ligadas à arte, além de vários ateliês de artistas e artesãos que ficam abertos para visitas. É uma oportunidade de conhecer belos trabalhos e seus autores. E o melhor: é tudo gratuito. Para saber mais, veja o site oficial . 

 

Newsletter 2

Pionnières – Musée du Luxembourg

Esta exposição é imperdível! Através de pinturas, esculturas, fotografias, filmes, obras têxteis e literárias são mostrados os talentos de diversas pioneiras, que, na primeira metade do século XX, “ousaram” invadir terrenos e escolas até então reservados aos homens. Até 2 de julho, no Musée du Luxembourg.

 

Newsletter 2

Le Printemps de la Sculpture – Arredores de Paris

Este evento acontece de 25 a 27 de março nos arredores de Paris, nos departamentos de Hauts-de-Seine e Yvelines. Ele tem por finalidade valorizar as esculturas de vários lugares destes departamentos. Dentre várias atividades, destaque para os percursos Vélo-Sculpture, que, como o nome indica, são percursos de bicicleta pela região para ver e explorar as belas esculturas de cada lugar. Para mais informações sobre todas as atividades e atrações, veja aqui .

 

Escultura frança

 

 

E, assim, encerro mais uma Newsletter. Espero que tenha gostado. Como sempre, se tiver sugestões, é só me escrever no contato@diretodeparis.com . Se você se inscreveu na lista e não quer mais participar, basta me escrever também. Que este final de mês de março seja excelente para você! Um grande abraço e muito obrigada!

 

Newsletter 1

 

Renata Rocha Inforzato

Sou de São Paulo, e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.

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