Atrações

Subindo na Tour Saint-Jacques e vendo Paris de um novo ângulo

26 de julho de 2014

A Tour Saint-Jacques fica no centro de Paris, ali na rue de Rivoli. Andando pela região, é impossível não notá-la. Ela reabriu ano passado por alguns dias e eu já queria visitá-la, mas acabou não dando certo. Até que nesse mês recebi o convite da prefeitura de Paris para uma visita de imprensa e, é claro, fui. Tive a oportunidade de saber mais sobre esse monumento de mais de 500 anos de existência e aqui conto tudo para vocês.

Tour Saint-Jacques

Na verdade, a torre era parte de uma igreja, chamada Saint-Jacques-de-la-Boucherie. O nome boucherie é porque ela ficava na área dos açougueiros (bouchers) e foi financiada em parte por eles. A margem direita do Sena – ao contrário da esquerda e da Île de la Cité, que foram ocupadas desde a Antiguidade – só foi urbanizada na Idade Média e tornou-se lugar de mercadores e comerciantes. Por isso os açougueiros.

Tour Saint-Jacques

Ali onde seria construída a igreja, já havia uma capela do século X que era parte de um dos caminhos franceses da rota de Santiago de Compostela, a Via Turomensis, que passava por Paris. Assim, o nome da igreja era Saint-Jacques (São Tiago).

Tour Saint-Jacques

Aí no século XI, foi decidido construir um templo maior para acolher melhor os peregrinos e ser um ponto de convergência entre eles. A nova igreja Saint-Jacques é consagrada em 1066 e em 1119 se torna paróquia. O Boucherie do nome aparece apenas mais de um século depois, por volta de 1259.

Tour Saint-Jacques

Nos séculos seguintes a igreja continua a ser aumentada graças a doações de comerciantes e burgueses. Um exemplo é Nicolas Flamel, um erudito, copista, escrivão e alquimista (segundo a lenda, ele teria conseguido fabricar a pedra filosofal) do século XIV que financiou um dos portais da igreja no qual ele e a esposa são representados ajoelhados diante da Virgem. Ele foi enterrado ali em 1418.

Tour Saint-Jacques

Em 1501, foi decidida a construção de um novo campanário para substituir o antigo, que datava do século XIII. Os trabalhos começam em 1508, duram 14 anos e têm a direção do mestre Jehan de Félin. Apesar de ser a época do Renascimento, a torre tem o estilo gótico flamboyant, comum em Paris no final da Idade Média.

Tour Saint-Jacques
Vitrais do segundo andar

Como decoração, possui esculturas nos quatro níveis. Nas paredes, nichos acolhem 19 estátuas de santos. No topo, uma escultura colossal representando Saint-Jacques, de 3,50 metros de altura, e os símbolos dos evangelistas (leão para Marcos, touro para Lucas, águia para João e o anjo para Mateus).

Tour Saint-Jacques

No século XVII, a Tour Saint-Jacques parece acolher um ilustre habitante: Blaise Pascal. Segundo algumas fontes, ele teria se instalado na torre para realizar uma parte de suas experiências barométricas. Hoje vemos uma estátua do cientista no térreo, na entrada do monumento, colocada ali em 1857 e obra do escultor Pierre Jules Cavelier.

Tour Saint-Jacques

Com a Revolução, a igreja se torna bem nacional e é vendida como pedreira em 1797. Porém, uma cláusula impedia a demolição do campanário e, assim, a torre é salva. No começo do século XIX, além dela, não resta mais nada do antigo templo.

Tour Saint-Jacques

Em 1824, a torre é comprada por Mr Dubois, um fabricante de balas de chumbo usadas em caçadas. A altura da tour era ideal para sua empresa, pois permitia derrubar o chumbo em estado de fusão do alto da torre que, durante a descida, se transformava em gotas finas e terminava a queda em uma cuba de água quente. Essa empreitada provoca, ao menos, dois incêndios.

Tour Saint-Jacques
Olha a altura da qual o chumbo era derramado

Assim, é em mau estado que a Tour Saint-Jacques é comprada pela cidade de Paris em 1836 por 250 mil francos. François Arago, cientista e conselheiro da prefeitura, é um dos que mais defende a preservação da torre.

Tour Saint-Jacques
Vista do segundo andar

A abertura da rue de Rivoli, em 1853, como parte da reforma de Paris feita pelo prefeito Haussmann, favorece a restauração da torre. A operação, que começa em 1854, é colossal e é confiada ao arquiteto Théodore Ballu. As partes baixas são refeitas, as estátuas e enfeites que estavam destruídos e danificados são substituídos por cópias idênticas. A torre se torna estritamente ornamental, isto é, não é mais um campanário.

Tour Saint-Jacques
Uma modesta reconstituição de laboratório no segundo andar

Em 1856, um square é criado no lugar da antiga igreja. É o primeiro da gestão de Haussmann. Em 1862, a Tour Saint-Jacques é classificada como Monumento Histórico.

Tour Saint-Jacques
o Square de la Tour Saint-Jacques

No final do século, em 1891, um novo uso: ela se torna uma estação meteorológica, ligada ao observatório de Montsouris. O primeiro e segundo andares são compostos por escritórios, enquanto os equipamentos de medição ficam no topo. No começo do século XX, mais precisamente em 1932, a torre passa por uma nova restauração.

Tour Saint-Jacques
A vista do alto da Tour

No começo de 2001, por causa dos danos provocados pelo tempo e pela poluição, a prefeitura de Paris decide restaurar novamente a torre. A idéia é preservar o aspecto arquitetônico e a decoração dos séculos XVI e XVIII e retirar as reparações realizadas com cimento na restauração anterior (1932). As esculturas em bom estado foram mantidas e as outras substituídas.

Tour Saint-Jacques
As esculturas danificadas expostas no primeiro andar

A restauração termina em 2009. No verão de 2013, a Torre é aberta à visitação pública, o que continua até hoje, geralmente de maio a setembro. Durante as sextas, sábados e domingos, o público pode subir os cerca de 300 degraus até o topo.

Tour Saint-Jacques

Durante o percurso, que é guiado e conduzido pela agência Des Mots et Des Arts, paramos no primeiro andar – onde estão algumas esculturas e enfeites retirados durante a última restauração – e no segundo andar, onde um laboratório é reconstituído (nada grandioso). Depois é que se chega ao topo, a 54 metros de altura.

Tour Saint-Jacques

A subida exige preparo físico, mas a vista de lá de cima é recompensadora. Apesar da história da Torre ser bem interessante, é o topo o ponto alto da visita. Mesmo que você não entenda bem o francês, vale a pena ir até lá.

Tour Saint-Jacques

Tour Saint-Jacques
39 rue de Rivoli
75004 Paris
Metrôs: Châtelet – linhas 1, 4, 7, 11, 14
Hôtel de Ville – linhas 1 e 11
RER A: Châtelet les Halles
Datas de 2018 – Visitas de 01 de junho a 04 de novembro, às sextas, sábados, domingos e segundas, das 10h às 17h (tours de hora em hora). Mas somente com reservas.
O site para fazer a reserva é aqui
Atenção: deve-se reservar a visita a partir de segunda-feira para a sexta, sábado e domingo da mesma semana. No site, você escolhe o dia e horário do tour, que é guiado e tem duração de cerca de 50 minutos.
Valor: 10 euros. Tarifa reduzida: 8 euros. Proibido para crianças menores de 10 anos.

Tour Saint-Jacques

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Renata Rocha Inforzato

Sou de São Paulo, e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.

Comentários (9)

  • Elaine Braga Responder    

    26 de julho de 2014 at 21:29

    Que vista! Quero subir! Adorei a matéria!

  • Gislaine Responder    

    31 de julho de 2014 at 15:33

    Quando fui ainda não estava aberta à visitação! Fiquei uma manhã toda no square vendo alguns desenhistas e pintores. Quando retornar, tenho que fazer essa visita, a vista realmente deve ser linda! Dá pra ver as duas Tours (Eiffel e Montparnasse).
    Parabéns pela matéria, Renata!!!

    • Renata Inforzato Responder    

      31 de julho de 2014 at 23:36

      Gi, se puder faça a visita. Vale demais a pena. a vista é linda e a história interessante. Um beijão e obrigada por comentar

  • Square de la Tour Saint-Jacques – um lugar de calma no coração de Paris | Direto de Paris Responder    

    31 de julho de 2014 at 23:27

    […] ← Subindo na Tour Saint-Jacques e vendo Paris de um novo ângulo […]

  • carlos Responder    

    2 de agosto de 2014 at 13:47

    Belíssimo texto sobre essa torre Renata, quando fui a Paris em 2013, passando pela rua de Rivoli, fiquei parado observando esse monumento e querendo entender o que era pois não fazia a menor idéia do que fosse, então esse ano de 2014 descobri o que era aí mesmo em Paris, porém nunca consigo subir pois vou sempre no inverno, fica a pergunta ela não abre nos meses de fevereiro e março ??? ano que vem pretendo ir em outubro ela estará aberta ?? obrigado por nos dar sempre bons motivos para voltar a essa cidade maravilhosa que é Paris.
    Um abraço,
    Carlos

    • Renata Inforzato Responder    

      3 de agosto de 2014 at 22:23

      Oi Carlos, ela abre somente na primavera até o final do verão (setembro). Mas pode ser que por causa do sucesso das visitas, ano que vem eles resolvam aumentar o período. Mas a gente só vai ficar sabendo uns dois meses antes. Muito obrigada pelos seus comentários, me deixam muito feliz. Um abraço

      • carlos Responder    

        25 de agosto de 2014 at 0:13

        Eu é que agradeço pelas excelentes matérias no seu blog. 😉

  • Eme Oliver Responder    

    12 de setembro de 2017 at 9:12

    Sempre aprendendo sobre Paris com os bem embasados, redigidos e ilustrados. artigos da Renata. Numa próxima oportunidade visitarei a torre, que conheço bem por fora mas não sabia da visita. Obrigada.

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