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Place Dauphine – uma linda praça escondida em Paris

16 de janeiro de 2019

Depois de uma pequena pausa, é hora de voltar ao trabalho. E para começar bem, escolhi mostrar para vocês um lugar super charmoso e tranquilo bem no coração de Paris: a Place Dauphine.

Place Dauphine

Esta, que é uma das praças mais bonitas da cidade, fica quase na extremidade da Île de la Cité, entre o Palais de Justice e a Pont-Neuf. O porquê do nome, a história e as curiosidades dela, vamos saber agora.

Place Dauphine

Até o começo do século XVII, o lugar onde hoje fica a Place Dauphine era ocupado por uma extensa horta e pomar, de propriedade da Coroa. Esse terreno era composto, então, por três ilhotas do Sena: Îlot du Passeur-aux-Vaches, a Île du Patriarche e a Île aux Juifs. Com a construção da Pont-Neuf, entre 1578 e 1607, este pequeno arquipélago é reunido e anexado à Île de la Cité.

Place Dauphine

A reunião das ilhotas, a elevação do solo no local e a construção de um cais, o Quai des Orfèvres, possibilitaram a formação de um pequeno espaço. E por que não aproveitá-lo como parte da operação de urbanismo que estava sendo realizada pelo rei Henri IV? Após anos de Guerras de Religião, com uma França mais pacificada, era hora de dar uma mudada na cara de Paris. A construção da Pont-Neuf e todas as realizações descritas
acima faziam parte deste projeto de urbanização da capital.

Place Dauphine

Assim, neste pequeno espaço criado, ele resolve construir uma praça. Mas não seria uma praça qualquer: a intenção era realizar ali uma Place Royale, isto é, construir uma praça em um terreno da Coroa, onde todos os imóveis teriam as mesmas características. Para ver como é esse tipo de praça, veja sobre a Place des Vosges, a Place des Victoires e a Place Vendôme, para citar algumas.

Place Dauphine

Então, como parte do projeto, em 1607, Henri IV cede o terreno ao Presidente do Parlamento, Achille de Harlay. Como condição, ele teria que construir a praça de maneira simétrica e as casas ao redor teriam de obedecer algumas recomendações bem precisas: elas deveriam ser idênticas, construídas em pedra e tijolo, com a mesma altura (dois andares), as mesmas decorações, o mesmo tipo de telhado em ardósia. O térreo deveria ser formado por arcos, assim como na Place des Vosges.

Place Dauphine

Para realizar a praça, foram chamados os arquitetos Louis Métézeau e Jacques II Androuet du Cerceau, além do engenheiro topográfico Claude Chastillon. Os três já haviam trabalhado na construção da Place des Vosges. Assim, as casas foram construídas em lotes do mesmo tamanho na atual rue de Harlay, Quai des Orfèvres e Quai de l’Horloge.

Place Dauphine

O nome da nova praça, Dauphine, é em homenagem a Louis, filho mais velho de Henri IV. Desde o século XII, o herdeiro do trono francês é chamado de dauphin (delfim). E como place é um substantivo feminino também em francês, acrescenta-se a letra E (palavras terminadas com E, na Língua Francesa, geralmente são femininas). O delfim Louis é o futuro rei Louis XIII.

Place Dauphine
Árvores de Natal na praça

Os compradores das casas são advogados, mercadores, comerciantes, livreiros, pintores e escultores. Porém, o assassinato do rei Henri IV, em 1610, atrasa a finalização da praça. Em 1620, os trabalhos ainda não estão completamente terminados.

Place Dauphine

Mesmo assim, a Place Dauphine é um sucesso e, com seus belos imóveis simétricos, provocava a admiração de todos. De acordo com um poeta da época, François de Malherbe, ela era a praça mais bela e útil de Paris.

Place Dauphine

O local logo se torna um espaço propício para a realização de vários tipos de atividades e profissões, principalmente ao ar livre. Lojas são instaladas no térreo das casas, sob as arcadas. Alguns de seus ocupantes são os vendedores de ervas e poções e os arrancadores de dentes. Estes últimos trabalhavam ali mesmo no meio da praça, sob os gritos da multidão, que se divertia com o sofrimento dos pacientes.

Place Dauphine

Porém, os imóveis ali eram “maisons de rapport”, ou seja, casas para alugar. Então, para aumentar o valor do aluguel, os proprietários não hesitam em abrir novas janelas e em aumentar a altura das casas. Assim, pouco a pouco, a praça vai perdendo sua simetria.

Place Dauphine

Mas, por dois séculos e meio, apesar das mudanças nas construções, a Place Dauphine ainda guarda sua característica de uma praça homogênea e quase fechada, tendo somente duas aberturas: uma na rue de Harlay e outra perto da Pont-Neuf. Até que, entre 1856 e 1867, a parte oeste do Palais de Justice é reconstruída e várias casas da rue de Harlay, que fechavam a praça, são demolidas.

Place Dauphine
A fachada do Palais de Justice que dá para a praça

As construções que sobraram nesta rua foram destruídas em maio de 1871, durante a Commune de Paris, em um incêndio que também atingiu o Palais de Justice, ali do lado.

Place Dauphine

Em 1874, o arquiteto Viollet-Le-Duc, que havia restaurado, entre outras construções, a Sainte-Chapelle, realiza alguns trabalhos na Place Dauphine. Ele arruma a perspectiva da rue de Harlay, eliminando os escombros das casas destruídas, e restaura a praça. A partir de então, a Place Dauphine não é mais fechada e tem mais ou menos a aparência que vemos hoje.

Place Dauphine

Curiosidades sobre a Place Dauphine

1) Uma das manifestações religiosas de Paris era a Fête-Dieu. Uma das partes da festa era uma procissão que tinha uma das paradas na Place Dauphine, onde era instalado um altar. A decoração do lugar era formada por objetos de prata e tapeçarias, fornecida principalmente pelos ourives, que também ocupavam algumas das lojas na praça. Eles até emprestavam quadros de seus amigos pintores. com temas religiosos e também profanos.

Place Dauphine

Assim uma vez por ano, as fachadas da Place Dauphine ficavam bem decoradas, o que atraía a admiração dos parisienses. E, por causa desse costume, a partir de 1710 a praça se tornou o palco de uma exposição ao ar livre durante a Fête-Dieu. Pintores de todo o país passaram a expor suas obras ali, das seis da manhã até às duas da tarde, antes da passagem da procissão.

Place Dauphine

O evento atraía admiradores de arte, magistrados, comerciantes, aristocratas ou seja, futuros compradores. E isso era uma oportunidade principalmente os artistas debutantes. Vários pintores famosos do século XVIII expuseram na Place Dauphine: como Jean Siméon Chardin, François Boucher, Charles-Antoine Coypel, Carle Van Loo, Jean-Baptiste Oudry, Jean-Marc Nattier, etc. Muitos deles já eram ou se tornariam os pintores responsáveis pelas encomendas da Coroa.

Place Dauphine

E as mulheres, normalmente especializadas em retratos, também colocaram suas obras à vista de todos na Place Dauphine. O exemplo mais conhecido é o de Élisabeth Vigée Le Brun, que depois seria responsável por alguns dos retratos mais famosos das Cortes Europeias, incluindo um bem conhecido de Marie-Antoinette (Maria Antonieta). Este salão em plena praça vai até 1791, quando é suspenso pelo governo durante a Revolução Francesa.

Place Dauphine

2) De todos os 32 imóveis originais da Place Dauphine, somente dois ainda existem. Eles ficam a oeste da praça, em frente à estátua equestre de Henri IV. As duas construções são simétricas, o que dá uma ideia de como era o desenho original da praça. Ela era quase fechada: do outro lado, havia dois imóveis semelhantes a esses que sobraram.

Place Dauphine

3) Normalmente, as Places Royales possuíam em seu centro uma estátua equestre do rei. No caso da Place Dauphine, a estátua fica fora da praça, ao lado da Pont-Neuf. Em cima do cavalo, está Henri IV, um dos reis mais amados pelos franceses.

Place Dauphine

A obra havia sido encomendada a Giambologna, na Itália, que começa os trabalhos, mas morre em 1608. Seu aluno, Pietro Tacca, termina, então, a estátua em 1613. Após uma viagem difícil, ela chega à França. O lugar escolhido em Paris é ali ao lado da Pont-Neuf e a razão da escolha é que ele fica no centro de várias obras realizadas pelo rei Henri IV: a própria ponte, a Place Dauphine, a rue Dauphine e a Galerie du Louvre.

Place Dauphine

Essa primeira estátua é destruída em 1792, durante a Revolução Francesa. Em 1814, com a volta da Monarquia, uma estátua provisória é colocada no mesmo lugar da antiga. Em 1818, uma escultura em bronze, realizada pelo escultor François-Frédéric Lemot, ocupa definitivamente o lugar. E é a que vemos hoje. Uma coisa bem interessante no dia da inauguração da estátua, em 25 de agosto de 1818, é que caixas com objetos foram colocadas no ventre do cavalo. Elas continham papéis sobre a estátua e a inauguração, a lista dos doadores, obras sobre Henri IV (incluindo La Henriade, de Voltaire) e medalhas. Hoje este tesouro, retirado da estátua durante sua restauração de 2004, está nos Arquivos Nacionais franceses.

Place Dauphine

4) A Place Dauphine teve alguns moradores ilustres. Dois deles são Yves Montand e Simone Signoret. O casal se mudou para o número 15 logo no começo do casamento, em 1951. A atriz e escritora cita, inclusive, a praça em sua autobiografia La nostalgie n’est plus ce qu’elle était, de 1975.

Place Dauphine

5) Outro morador famoso foi André Antoine, ator e criador do Théâtre Libre. De 1912 a 1934, ele mora no número 18 da Place Dauphine.

Place Dauphine

Place Dauphine

6) O poeta surrealista André Breton tinha o hábito de frequentar a Place Dauphine. A praça faz parte de vários cenários de sua obra Nadja, de 1928. Uma das passagens diz: “Cada vez que estive ali, senti abandonar-me aos poucos a vontade de estar em outro lugar” (a tradução é minha).

Place Dauphine

7) O local exato onde o líder dos Templários, Jacques de Molay, foi queimado provoca debates entre os historiadores. Alguns dizem que a fogueira ficava na ponta do Square du Vert-Galant (onde hoje há uma placa lembrando o evento). Outros dizem que era no local onde está a estátua de Henri IV. E, por fim, há aqueles que sustentam que a fogueira ficava no atual número 26 da Place Dauphine. É que, na época, em 1314, ali ainda existia a Île aux Juifs (uma das ilhotas anexadas à Île de la Cité) e foi nesse lugar que a fogueira foi montada, no dia 11 ou 18 de março do mesmo ano. Hoje, tanto a praça, quanto a estátua e o Square estão onde ficava essa ilha.

Place Dauphine

8) A Place Dauphine está também na canção de Jacques Dutronc: Il est cinq heures, Paris s’éveille, de 1968. Ele canta: “Je suis le dauphin de la Place Dauphine” (Sou o dauphin [delfim] da Praça Dauphine).

Place Dauphine

9) Entre os anos de 1792 e 1814, a praça teve o nome de Place de Thionville. É que dauphin (delfim) era um nome relacionado demais à Monarquia para os revolucionários e depois para os partidários de Napoleão I. Somente com a volta dos reis, na pessoa de Louis XVIII, é que a praça voltou a se chamar Dauphine.

Place Dauphine

10) Durante o Segundo Império, o prefeito de Paris, Georges Eugène Haussmann, cogitou destruir a Place Dauphine. Sua intenção era construir uma nova praça, com jardim, e cercada por construções em estilo Neogrego. Porém, o prefeito deixou o cargo e, felizmente nesse caso, nem chegou a começar o projeto.

Place Dauphine

11) Em 1660, um obelisco e um arco do triunfo são colocados na Place Dauphine para celebrar a entrada triunfal de Louis XIV e da rainha Marie-Thérèse em Paris. Já em 1803, foi a vez de uma fonte, em honra do general Louis Charles Antoine Desaix. É a primeira vez, então, que uma praça acolhe uma estátua que não é de um soberano. A fonte é retirada em 1814.

Place Dauphine

12) Hoje no lugar dos imóveis da rue de Harlay, “fechando” a praça, há um pequeno jardim e árvores. Ele foi criado em 1970.

Place Dauphine

Place Dauphine

Apesar de ficar bem no centro de Paris, a Place Dauphine é um oásis de tranquilidade. Hoje, ela abriga livraria, galeria de arte, um jornal e restaurantes. É bem gostoso passear ali com calma e depois parar para comer ou beber alguma coisa. Muitos advogados frequentam o local, pois na praça também fica o Barreau de Paris, ou seja, a ordem dos advogados da cidade.

Place Dauphine

Place Dauphine
6 rue de Harlay
75001 Paris
Metrô Pont-Neuf, linha 7

Place Dauphine

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Renata Rocha Inforzato

Sou de São Paulo, e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.

Comentários (9)

  • Gabriela Torrezani Responder    

    5 de fevereiro de 2019 at 11:04

    Que linda é a Palce Dauphine, já fui algumas vezes a Paris mas acho que nunca passei por ela! E a história em detalhes, super interessante 🙂

  • Marcela Marques Responder    

    5 de fevereiro de 2019 at 17:39

    Que gracinha a Place Dauphine. Consigo me ver ali lendo um livro e tomando um café, imaginando toda a história do lugar. Adorei seu relato, obrigada por compartilhar!

  • Ana Carolina Responder    

    7 de fevereiro de 2019 at 0:34

    Adorei conhecer a história por traz dessa linda praça em Paris. Certamente estará no meu roteiro na cidade. Obrigada pelas dicas

  • Flávia Donohoe Responder    

    7 de fevereiro de 2019 at 13:50

    Que praça tão charmosa e encantadora, realmente Paris é um desses lugares que dá pra se passar meses conhecendo, não conheço essa praça e com certeza quero incluí-la na próxima visita à cidade.

  • Carolina Responder    

    8 de fevereiro de 2019 at 6:38

    Impressionante como um lugar tão visitado e comentado pode ainda reservar gratas surpresas…vc achou um tesouro! Amei a dica!

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