Atrações

Palais Brongniart – a antiga Bolsa de Valores de Paris

18 de outubro de 2016

Ele domina toda a área ao redor de onde foi construído. É impossível passar por ali, ver aquele palácio que mais parece um templo da Antiguidade e não se perguntar o que ele é. Pois agora chegou a hora de saber um pouco mais do Palais Brongniart ou, como ele é mais conhecido, o Palais de la Bourse.

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Assim como várias cidades antigas, Paris teve, ao longo de sua história, vários lugares onde negócios eram feitos e onde havia profissionais que facilitavam a conversão de moedas. Por exemplo, a Pont-au-Change tem esse nome exatamente porque era o lugar de negociações financeiras da Idade Média até o século XVII. Change, em francês, é câmbio. Já no começo do século XVIII, o “tráfico financeiro” acontecia na rue Quimcapoix, no Marais.

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Depois, os negócios começam a ter como palco a atual Plâce Vendôme e o Hôtel de Soissons, respectivamente. O nascimento da Bolsa, formalmente dita, de Paris acontece em 1724, por uma lei do Conselho de Estado do Rei, com regras para as atividades e seus trabalhadores. Nessa época, ela ocupa o Hôtel de Nevers, hoje destruído. Durante a Revolução, a Bolsa volta a ser itinerante, ocupando o Louvre, a atual igreja Notre-Dame-des-Victoires e uma das galerias do Palais Royal.

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Até que em 1808, Napoleão decide que Paris deveria ter uma Bolsa de Valores digna de uma capital do Império. Ele lança, então, um concurso para escolher o projeto do futuro palácio. Dentre todos os participantes, o vencedor é o desenho de Alexandre Théodore Brongniart, que atende todos os requisitos exigidos pelo imperador: uma construção moderna, imponente, mas com linhas clássicas, inspirada na Roma Antiga. Um verdadeiro templo para o dinheiro.

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Brongniart já era conhecido desde a época de Louis XVI. Em 1801, durante o período do Consulado, já havia sido nomeado Inspecteur des Bâtiments (Inspetor de Construções), um cargo alto e de confiança. Dentre os seus vários projetos em Paris, um dos mais conhecidos é a remodelação do cemitério Père-Lachaise.

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Ao ver o projeto do arquiteto para o palácio, Napoleão, satisfeito, teria dito: “Que belas linhas! Ao trabalho com os operários!”. O local escolhido foi o terreno do antigo convento das Filles-Saint-Thomas, que havia sido destruído na Revolução Francesa.

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Inspirado no templo de Vespasiano, em Roma, o monumento tem a forma quadrangular e é cercado por colunas, sendo 24 nas fachadas principais e 40 nas laterais. Porém, Brongniart teve que fazer algumas alterações no projeto: em vez de colocar colunas iônicas, colocou colunas com capitéis coríntios.

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A primeira pedra é colocada em 24 de março de 1808, mas é preciso esperar um mês e meio para continuar os trabalhos: era necessário expulsar os moradores de 140 residências que ficavam ali. Depois, ironia do destino, o Palácio, que seria destinado às finanças, tem dificuldades financeiras e a construção é atrasada. As Guerras Napoleônicas esvaziaram os cofres do Império.

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E, para completar o cenário, em 1813, Brongniart morre, antes do final dos trabalhos. Seu cortejo fúnebre, em direção ao Père-Lachaise, que havia sido remodelado por ele, dá uma parada em frente ao palácio da futura bolsa, inacabado.

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Éloi Labarre, discípulo do finado arquiteto, é nomeado para continuar a obra. Só que, em 1815, Napoleão é derrotado em Waterloo e a construção é parada de novo. Depois, o palácio é retomado, sendo inaugurado em 1826, com o nome de Palais Brongniart, em homenagem ao arquiteto que o concebeu. Porém, ele ainda não tem a forma que conhecemos hoje. Várias reformas são feitas e, entre 1902-1907, duas alas são acrescentadas, dando ao edifício um formato de cruz latina, ou seja, de igreja.

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Da sua inauguração até 1998, ali funcionou a Bolsa de Valores de Paris. E somente em 1967, a presença de mulheres foi admitida nos pregões. Em 1987, o palácio foi classificado como Monumento Histórico. E aí, em 1998, com a informatização total da Bolsa, as instalações foram desativadas.

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Desde então, o Palais Brongniart vem sendo utilizado para eventos, feiras e conferências. Ele também agrupa várias associações de ajuda para a criação de empresas na França e uma escola.

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Visitando o Palais Brongniart
Já estive no palácio em eventos, mas foi durante as Journées du Patrimoine (Jornadas do Patrimônio) que tive a chance de ver detalhes. Como escrevi no começo deste texto, é impossível não notar a antiga Bolsa de Valores de Paris ao passear pelos arredores. Com seu aspecto de templo greco-romano, ela domina área.

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Uma das vistas a partir das escadarias do palácio

Na verdade, a entrada do palácio, assim como o primeiro grande salão, chamado de Nef, ficam no primeiro andar. Há salas para congressos e festas situadas no nível da rua, mas só são visitadas durante os eventos. Assim, o que para nós seria o subsolo é o térreo; o que parece térreo é o primeiro andar e o que parece primeiro andar é o segundo. Então, a visita será somente pelos primeiro e segundo andares. Só para a gente se situar.

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Olhem a altura da entrada. Por isso, ela é considerada primeiro andar

No lado exterior, quatro estátuas, colocadas ali em 1854, guardam o edifício. São elas: La Justice Consulaire, de Francisque-Joseph Duret (esquerda da fachada principal);Le Commerce, de Alexandre Dumont (direita da fachada principal); L’Agriculture, de Charles Seurre (direita da fachada posterior) e L’Industrie, de James Pradier (esquerda da fachada posterior).

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Francisque-Joseph Duret – La Justice Consulaire, 1852

O peristilo, formado pelas colunas de capitéis coríntios, proporciona uma galeria aberta, na qual praticamente podemos dar a volta pela área externa do palácio. São 24 colunas nas faces principais e 40 nas laterais. Nas fachadas, símbolos do comércio, mostrando a finalidade para a qual o edifício foi construído.

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Detalhe do capitéis coríntios.

La Nef – O primeiro salão do térreo é imponente. Ele tem 28 metros de altura e suas inúmeras janelas lhe dão uma iluminação especial. No teto, representações alegóricas de Paris e da França, ligadas ao comércio e à prosperidade, assim como alegorias dos continentes.

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Abel de Pujol – A França acolhendo os produtos dos quatro cantos do mundo, que lhe são trazidos pelos habitantes de cada um desses cantos

Nos cantos, cidades francesas, como Bordeaux, Bayonne, Lyon, Strasbourg, Marseille, Rouen, Nantes e Lille. Todas essas obras de pintura são autoria de Abel de Pujol e Charles Meynier. Entre as arcadas, medalhões de várias cidades europeias que possuíam bolsas de valores.

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Da esquerda para a direita: Abel de Pujol – Bordeaux; e Charles Meynier – Bayonne

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Espace Réamur – É uma das alas que foram construídas no começo do século XX. O piso em mármore é muito lindo.

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Em seguida, temos a escadaria de honra. No corrimão, em ferro forjado, mais uma vez vemos o símbolo do comércio, que está presente em várias partes do palácio.

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No hall do segundo andar, uma tapeçaria de Beauvais, do século XVII. Ela fazia parte de uma série chamada “Jeux d’Enfants”, destinada para o Château de Versailles, e que foi separada das outras provavelmente em um dos leilões dos bens da Coroa na época da Revolução. Não achei informações sobre como ela foi parar ali no Palais Brongniart.

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Salon d’Honneur – É super imponente, onde eram realizados as festas e reuniões mais importantes da Bolsa. No teto, obras de Merry-Joseph Blondel, Thomas Degeorge e Auguste Vinchon. As que estão em grisaille representam alegorias de várias áreas de trabalho, como o comércio, a mecânica, a agricultura, etc. Já as coloridas são representações das virtudes, vícios e ações necessárias para a prosperidade.

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Em cima das portas, a decoração esculpira representa os continentes e mais alegorias de virtudes e foram realizadas por Jean-Baptiste Joseph Debay e Louis-Denis Caillouette.

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Uma das pinturas do teto: Auguste Vinchon – La Vérité dévoilant la Fraude” (A Verdade desmascarando a fraude)
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Em cima da uma das portas, Louis-Denis Caillouette – La Justice

Club du Palais – É uma sala mais reservada, onde se realizavam reuniões. Hoje é um restaurante, que funciona de segunda a sexta, das 12h às 14h.

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No corredor, um sino, que anunciava o começo e final dos pregões.

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L’Espace Corbeille – É aqui que ocorriam os pregões da Bolsa. Do lado direito, vemos várias cabines, antigas, que eram onde ficavam os corretores. Uma delas tem até telefone, para que eles pudessem receber as ordens dos clientes.

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Outra coisa interessante é a cesta (corbeille). É um cercado, no qual os corretores se apoiavam do lado de fora. Assim, ficava mais fácil para localizá-los no meio da “bagunça”. Dentro desta cesta, há areia. Sabem para quê? Para que os corretores pudessem jogar suas bitucas de cigarro. Agora dá para imaginar dezenas de pessoas fumando neste espaço fechado? Outros tempos.

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No painel, as empresas que tinham ações negociadas na Bolsa, com as informações do último pregão “no grito” realizado ali, em 10 de julho de 1987, quando começou a informatização das sessões. Onze anos depois, em 1998, as atividades já estavam 100% informatizadas e a Bolsa deixou de existir “fisicamente”. Nas laterais, vemos as representações das atividades financeiras em diferentes épocas.

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Salle Napoléon – É usada para eventos, assim como o palácio em si. No dia das Journées du Patrimoine, havia ali um filme contando a história do Palais Brongniart.

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Salle des Engrenages – Esta sala tem esse nome porque nela normalmente ficam várias estruturas lembrando engrenagens (mas que haviam sido tiradas no dia das Journées du Patrimoine). Entrando por ela, vemos uma salinha onde ficava o escritório do diretor da Bolsa de Valores. Podemos ver como era a decoração deste cômodo.

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No corredor deste andar, vemos uma placa com os nomes dos trabalhadores da Bolsa que foram mortos durante as Primeira e Segunda Guerras Mundiais.

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Essa visita quase completa que fiz – não incluiu os auditórios – foi durante as Journées du Patrimoine, que acontecem sempre em um final de semana do mês de setembro. O Palais Brongniart não é aberto para visitas, mas, como ele acolhe diversos eventos, vários deles gratuitos, é só consultar o site e ver qual estará acontecendo no momento da sua viagem. Foi em um desses eventos que o visitei pela primeira vez.

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Palais Brongniart
28 Place de la Bourse
75002 – Paris
Metrô – Bourse – Linha 3
Aberto somente para eventos e durante as Journées du Patrimoine (um final de semana de setembro)

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Renata Rocha Inforzato

Sou de São Paulo, e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.

Comentários (10)

  • Martinha Andersen Responder    

    19 de outubro de 2016 at 16:57

    Adoro este prédio. Uns dos mais bonitos de Paris na minha opinião. Os tetos são belíssimos, de ficar admirando por um bom tempo. Preciso retornar para renovar as fotos. Beijos =)

  • Fernanda - Blog Tá indo pra onde? Responder    

    19 de outubro de 2016 at 17:17

    Que arquitetura mais maravilhosa!!! Adoro esse tipo de construção! Visitei em 2014 a Bolsa de Frankfurt, mas da arquitetura antiga, só tem a fachada mesmo. Por dentro, tudo é super moderno!

  • Luciana Rodrigues Responder    

    20 de outubro de 2016 at 7:38

    Imponente por fora, mas por dentro é infinitamente maravilhoso. Eu que sou “a louca dos tetos” fiquei impressionada com a beleza! Mais uma coisa para ver em Paris! Obrigada pela dica.

  • Fernanda Souza Responder    

    9 de novembro de 2016 at 22:19

    O que é a arquitetura desse prédio? Mais um lugar para colocar na minha lista quando eu viajar de volta para Paris. Preciso conhecer 🙂

  • Direto de Paris - Jornalismo em Paris Responder    

    9 de dezembro de 2016 at 17:11

    […] ano, escolhi visitar o Palais Brongniart e a Bibliothèque Sainte-Geneviève. Fazia tempo que queria escrever sobre a biblioteca, mas, como […]

  • Eduardo Araujo Responder    

    16 de agosto de 2017 at 21:12

    Parabéns pelo conteúdo. Excelente! Só fiquei em dúvida sobre localização das instalações atuais da Bolsa.

    • Renata Rocha Inforzato Responder    

      2 de setembro de 2017 at 21:57

      Oi Eduardo. Agora é tudo na internet, então, não existe mais a bolsa de valores física. Um abraço e obrigada pelo comentário

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