Meudon

O outro museu Rodin

28 de março de 2016

Esta semana é o Museum Week, ou seja, a semana dos museus. Por isso, estou participando de uma blogagem coletiva promovida pela RBBV (Rede Brasileira dos Blogueiros de Viagem) sobre o assunto e escolhi um museu muito especial, pouco conhecido até pelos franceses: o Musée Rodin de Meudon.

Museu Rodin

A história desse museu começa em 1895, quando Auguste Rodin, um dos maiores escultores de todos os tempos, compra por leilão a casa que alugava. A propriedade pertencia a Delphine de Cool, pintora e escultora, e foi comprada pelo artista por 27 300 francos.

Museu Rodin

A Villa des Brillants, nome do lugar, é feita de tijolos, pedras e telhas de ardósia, e tem aparência simples. O terreno em que ela fica é bem inclinado, com uma bela visão do vale do rio Sena, que Rodin não tarda a aproveitar. Ali, nas partes altas da cidade de Meudon, cidade nos arredores de Paris, o escultor constrói seu santuário.

Museu Rodin

Ele arruma o lugar a seu gosto: dispõe sua coleção de peças da Antiguidade em todos os cômodos e no jardim, que era a sua inspiração. No entanto, os móveis eram simples, principalmente para um artista no auge da carreira, que era o caso de Rodin. Mas se algum convidado fizesse alguma observação sobre o aspecto austero da residência, o escultor logo revidava dizendo que era uma decoração autêntica em harmonia com o cenário simples e natural dos arredores.

Museu Rodin

Foi ali que o artista criou algumas das suas obras mais importantes, como Balzac, Le Penseur (O Pensador), L’Homme qui Marche e tantas outras. Em 1900, cerca de 50 pessoas trabalhavam em torno dele ali na Villa des Brillants.

Museu Rodin

Mas ele não tardaria a ampliar o lugar: em 1899, Auguste Rodin recebe do Conselho Municipal de Paris uma concessão para usar durante a Exposição Universal de 1900, a fim expor sua obra em uma retrospectiva. Ele faz acordo com três banqueiros e constrói um pavilhão com uma rotunda e que privilegia a entrada de luz: é o Pavillon de l’Alma. Com o final da exposição, que tenta preservar a construção, mas não consegue e tem que deixar o lugar. Então, o que ele faz? Ele simplesmente reconstrói o pavilhão ali na sua propriedade de Meudon, ao lado da casa principal.

Museu Rodin
Maquete do Pavillon de l’Alma feito pelos alunos da École Nationale Supérieure des Arts Appliqués et des Métiers d’Art-Design Olivier de Serres, 1999-2000

E ele faz desse Pavillon de l’Alma seu museu e ateliê e é ali que recebe seus convidados, assim como as pessoas que trabalham com ele, entre eles Antoine Bourdelle e Camille Claudel. Talvez a Villa também tenha sido um dos últimos cenários do tórrido romance entre o escultor e Camille.

Museu Rodin

Apesar de ter seus ateliês em Paris, era em Meudon que acontecia o íntimo da sua criação. Situada perto de Paris, a cidade, onde Rodin já residia antes de comprar a Villa, tinha acesso facilitado pela linha férrea, aberta em 1901.

Museu Rodin

E, assim, ele vai vivendo no paraíso que ele mesmo criou: saindo logo depois da aurora para aproveitar a luz da manhã trabalhando no Pavillon de l’Alma, ao lado da residência, enquanto sua esposa, Rose Beuret, cuidava das tarefas cotidianas de toda a propriedade.

Museu Rodin

Até que em 1916, já doente, decide doar ao Estado Francês todas as suas obras e sua coleção de objetos da Antiguidade. Rodin era um artista que guardava absolutamente tudo relacionado a sua arte, incluindo os gessos que haviam servido de modelo às suas obras finais. E tudo isso ele doa, com a condição de que um museu seja criado no Hôtel Biron, em Paris. Por que nesse palacete? Porque era onde Rodin e vários outros artistas haviam possuído ateliês e que agora corria risco de ser demolido.

Museu Rodin
Les Bourgeois de Calais, 1889

Enquanto isso, o artista vivia calmamente seus últimos meses em Meudon. Em 29 de janeiro de 1917, após sofrer uma nova crise de paralisia, Auguste Rodin se casa com sua companheira de sempre, Rose Beuret, depois de 52 anos de vida em comum. A cerimônia é celebrada pelo prefeito de Meudon e tem vários convidados ilustres, entre eles o ministro de Estado, Étienne Clémentel. Porém, 15 dias depois Rose morre acometida por uma pneumonia. Deprimido, Rodin sobrevive somente mais alguns meses, morrendo em 17 de novembro de 1917.

Museu Rodin

A decisão de fazer da Villa des Brillantes um museu acontece logo após a morte do artista. O primeiro conservador, Léonce Bénédit, procura primeiro preservar o espírito do lugar deixado por Rodin. Começam a articular a criação não de um, mas de dois museus: o de Paris e o de Meudon.

Museu Rodin

Em 1919, uma doação de Kate Simpson, amiga e modelo do escultor, permite restaurar a residência e os móveis. A intenção era abrir o museu já em 1922. Porém, o Pavillon de l’Alma estava em estado crítico, assim como o jardim. Após algumas tentativas de salvar o pavilhão, em 1927, decidem demoli-lo.

Museu Rodin

Fica decidido, então, que uma nova construção vai substituir o Pavillon de l’Alma. Em 1926, Julius Mastbaum, um empresário americano e colecionador das obras de Rodin, visita o lugar e mostra a intenção de fazer uma doação de 700 mil francos para a restauração e abertura do Musée Rodin em Meudon.

Museu Rodin
Cariatide, 1900

Porém, ele morre tragicamente em dezembro do mesmo ano. Então, sua viúva dá prosseguimento a seus projetos e executa a doação. Ela abre também um Museum Rodin na Filadélfia só com as obras que o marido colecionava.

Museu Rodin

Em 1931, a construção do museu é terminada. O arquiteto é Henri Favier. Ele faz um edifício amplo, com muita luz, assim como era o Pavillon de l’Alma, que o novo anexo substitui. Em 1946, o Musée Rodin em Meudon abre timidamente, por dois meses. Em 1947, é aberto ao público, mas a inauguração solene só acontece em 29 de maio de 1948.

Museu Rodin

Mas a Villa propriamente dita, isto é, a residência, ainda está em trabalhos e é aberta em 1953, com uma exposição dedicada às terres cuités de Rodin. Em 1972, todo o domínio da Villa des Brillantes (residência, museu e parque) é classificado como monumento histórico.

Museu Rodin

Em 1997, a casa passa novamente por uma restauração. Desta vez, com a ajuda de fotos antigas, três cômodos são restaurados assim como eram na época de Rodin. A visita é então completa com a casa (Villa), o museu e o parque.

Museu Rodin
Monument à Victor Hugo

O que visitar

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que, se você espera encontrar em Meudon a mesma quantidade de cômodos, obras e objetos do museu de Paris, vai se decepcionar. A Villa des Brillants deve ser vista como um complemento da visita ao Hôtel Biron (o museu de Paris) e um mergulho na intimidade de Rodin. É como se penetrássemos ali na sua alma de artista, sentindo a mesma paz e a doce melancolia que ele deve ter sentido nos anos em que viveu ali.

Museu Rodin

A entrada da propriedade é quase como no tempo do escultor: com uma bela alameda de castanheiras. À direita, uma reprodução do Monument à Victor Hugo.

Museu Rodin

A residência
Ela é composta de dois andares e a cave, mas somente o térreo é visitado. Nas Jornnées du Patrimoine, em setembro, pode-se visitar o andar superior também, mas no resto do ano ele é fechado. No térreo, há três cômodos:

Museu Rodin

Le Petit Salon
Tem decoração bem austera e, como o nome diz, é bem pequeno. É composto por uma pequena mesa redonda, uma secretária e por poltronas de acaju. Nela, há fotografias que mostram como a Villa era nos tempos de Rodin.

Museu Rodin

Museu Rodin

La Salle à Manger (Sala de Jantar)
Ao observarmos este cômodo, temos a impressão de que os moradores acabaram de sair e vão voltar logo. A mesa de jantar está posta, com as louças que pertenceram a Rosa Beuret. No meio de tudo, um torso antigo, que faz parte da coleção de Rodin. Confesso que quando vi a obra pensei: “Será que Rodin realmente fazia suas refeições com esta escultura à mesa?”. Pois minha dúvida foi sanada com uma das fotos do artista na sala de jantar.

Museu Rodin

Museu Rodin

Le Salon Atelier
Uma parte da coleção de obras da Antiguidade de Rodin está ali, em vitrines e também espalhadas pelo cômodo. Ao fundo, uma cama em estilo renascentista de madeira escura e sem colchão está ali assim como na época do escultor. Segundo documentos antigos, ela servia para proteger as obras mais frágeis das travessuras dos cães.

Museu Rodin

Museu Rodin

Le Musée (O Museu)
Fica um pouco abaixo da residência, na construção de 1931. É composto por uma sala ampla, onde ficam expostos os estudos em gesso das obras do mestre. É um lugar onde podemos entender um pouco o espírito criador de Rodin, que fazia vários modelos preliminares de suas obras, em gesso, modificando-as com extrema liberdade.

Museu Rodin

E cada um desses estudos está agrupado segundo as obras, em tamanhos naturais. Assim, vemos várias etapas sucessivas de seu Balzac, do Monument à Claude Lorrain, do Monument à Victor Hugo, entre outras.

Museu Rodin
Claude Lorrain, 1889
Museu Rodin
Claude Lorrain, figure vêtue, 1889 (Figura vestida)

Em uma das extremidades da sala, a Porte de l’Enfer, em gesso. A obra só foi feita em bronze após a morte do artista e hoje está no Museu Rodin, em Paris. Então, ver esse exemplar em gesso, montada ainda na época de Rodin, é muito emocionante.

Museu Rodin
La Porte de l’Enfer, 1880-1900
Museu Rodin
Detalhe da obra

Há também vitrines onde se misturam pequenos estudos do escultor e objetos de sua coleção de antiguidades.

Museu Rodin

O Túmulo de Rodin e Rose Beuret
Em 1917, a prefeitura de Meudon concedeu uma permissão especial para que a esposa do escultor, Rose Beuret, fosse enterrada no jardim da Villa. Alguns meses depois, foi a vez de Rodin ser enterrado ali. Em cima do túmulo, coberto de vegetação, está uma estátua gigante de O Pensador, de 1919. O responsável pela construção deste túmulo foi Henri Eustache.

Museu Rodin

Museu Rodin

A fachada do Château d’Issy
Na cidade vizinha de Meudon, chamada Issy-les-Moulineaux, havia um castelo do século XVII, que foi destruído por um incêndio em 1871. Em 1907, quando o castelo estava para ser demolido, Rodin compra a fachada e a instala ali na Ville des Brillantes. O edifício do museu é colado a ela de um jeito tão harmonioso, que nem parece que são construções separadas.

Museu Rodin

O Parque
Na verdade, é mais um grande jardim. É mais ou menos conservado como na época de Rodin, que costumava espalhar as antiguidades em pontos estratégicos da área verde, além de construir grutas e fonte. Hoje, podemos encontrar algumas dessas obras antigas “perdidas” em meio aos arbustos. É um passeio agradável e a vista do vale do rio Sena é bem bonita.

Museu Rodin

Museu Rodin

Musée Rodin Meudon
19 avenue Auguste Rodin
92190 Meudon
Horários: Aberto o ano todo, de sexta a domingo, das 13h às 18h
Tarifa: 5 euros. Reduzida: 3 euros
Metrô: Mairie d’Issy – linha 12
Depois pegar os ônibus 190, 290 ou 169 e descer na parada “Hôpital Percy”
Da parada de ônibus, são uns 10 minutos de caminhada contornando o hospital

Museu Rodin

Este texto fez parte de uma blogagem coletiva da Rede Brasileira de Blogueiros de Viagem. Confira os outros blogs participantes:

A Fragata Surprise – Casas-museus: A vida cotidiana de gente muito especial
Despachadas – 5 Museus Interativos ao redor do mundo
D&D Mundo Afora – 9 museus no Brasil

Europa
Alemanha
Tá indo pra onde? – Ilha dos Museus
Viajoteca – 5 museus inusitados em Berlin
Pelo Mundo com vc – MEMORIAL DO HOLOCAUSTO EM BERLIM E O MUSEUM WEEK PELO MUNDO
Já Fomos – Visitando o Campo de Concentração em Dachau
Pequenos pelo Mundo – Os 5 melhores museus de automóveis da Alemanha
A Li na Alemanha – Museu Mercedes-Benz

Bulgária
Escolho Viajar – Museu Nacional de História Militar

Croácia
Rodinhas nos pés – Museu Croata de Arte Primitiva

Museu Rodin

Espanha
Comendo Chucrute e Salsicha – Museo de Artes y Costumbres Populares de Sevilla
Esto Es Madrid, Madrid – Museu de Altamira
Sol de Barcelona – Fundación Joan Mirò

França
Viagem Lado B – Musée D’Orsay
A Path to Somewhere – Centre Pompidou
Destinos por onde andei – Musée du Louvre
SOSViagem – Museu do Louvre X Museu d’Orsay
Apure Guria – Egito Antigo no Museu do Louvre

Grécia
Viaje Sim! – No centro das Cíclades: Museu Arqueológico de Delos
Fourtrip – Museus de Atenas

Holanda
Novo Caroneiro – SexMuseum

Museu Rodin
Musée Rodin Meudon

Hungria
Juntando Mochilas – Museu do Terror

Irlanda
The Life of isa – 4 museus gratuitos em Dublin

Itália
Passeios na Toscana – Palazzo Pitti
The Nat’s Corner – Pinacoteca de Brera
Vou pra Roma – Museus do Vaticano
Roma Pra Você – Galleria Borghese
Grazie a Te – Corredor Vasariano

Malta
Viagens Invisíveis – Palácio dos Grandes Mestres e Armaria

Museu Rodin
Les Bourgeois de Calais – Jean d’Aire nu

Reino Unido
No Mundo da Paula – Museum of London
Vamos Viajar – British Museum
Segredos de Londres – Victoria and Albert Museum
Mochilão Barato – Madame Tussauds – O Museu de Cera de Londres

República Tcheca
Trilhas e Cantos – Museu do Comunismo

Rússia
Love and Travel – Hermitage Museum
Viajei Bonito – Museu da Vodka

Suécia
Viajar pela Europa – Museu Vasa

Suíça
Carta sem Portador – Fondation Gianadda

Turquia
Viagem a Dois – Palácio Topkapi
Travel with Pedro – Museu de Arte Islâmica e Turca

Museu Rodin
O Pensador do túmulo de Rodin

América do Sul
Argentina
Sonhando em Viajar! – https://sonhandoemviajar.com/2016/03/28/buque-museo-fragata-a-r-a-presidente-sarmiento-buenos-aires-2/

Brasil
Coisos on the go – Inhotim
E aí, Férias! – Museu Imperial
Outro Blog – Museu do Amanhã
KariDesbrava – Museu Nacional de Belas Artes
O Melhor Mês do Ano – Museu do Futebol
Cantinho de Ná – Museu do Frevo
De Cá Pra Lá – Museu Palácio dos Bandeirantes.
Viagens que Sonhamos – Fundação Iberê Camargo
Nativos do Mundo – Museu da República
Atravessar Fronteiras – CCBB
Embarque neste blog – Museu Casa Guilherme de Almeida
Vida de Turista – Museu de Ciências e Tecnologia da PUC-RS
Mel a Mil pelo Mundo – Museu Julio de Castilhos
Devaneios de Biela – Museu Oscar Niemeyer
Tirando Férias – Museu de Zoologia da USP
Viagem em Detalhes – Museu Catavento – Espaço Cultural da Ciência
Estrangeira – Museu Histórico de Alcântara
Viajar hei – Os melhores museus para levar as crianças entre Rio e São Paulo.

Museu Rodin
Vista de Meudon

Chile
Gastando Sola Mundo Afora – Museo Chileno de Arte Precolombino

Peru
De Mochila e Caneca – Museu da Inquisição

América do Norte
Estados Unidos
Família Viagem – Fernbank Museum of Natural History
Janela para o Mundo – Graceland
Renata Pereira TV – Bibliotecas Presidenciais nos EUA
Aquele Lugar – Museu do Ar e Espaço
Fica Dica Viagens – Vizcaya Museum
Casal Califórnia – Museus no Balboa Park
Malas e Panelas – The Broad Museum
Felipe, o pequeno viajante – Museu de Anchorage
Ideias na mala – Melhores Museus de San Francisco

México
Viagem de Fuga – Museu Frida Kahlo
Uzi Por Aí – Museu Soumaya
Eu sou à toa – Casa-museu de Frida Kahlo e Casa-estúdio de Diego Rivera

Museu Rodin

Ásia
China
Like Wanderlust – Museu Qin e os Guerreiros de Terracota

Vietnã
Brazuka – Museu da Guerra (War Remnants Museum)

Japão
A Aventura Começa – Meijimura

Oceania
Austrália
Coordenadas do mundo – Museu de Arte Contemporânea

Museu Rodin

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Renata Rocha Inforzato

Sou de São Paulo, e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.

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