Atrações

Clos-Montmarte – Uma vinha em plena Paris

6 de dezembro de 2017

Hoje vou mostrar para vocês um lugar em Paris que sempre vemos, mas que só visitamos em ocasiões especiais. É o Clos-Montmatre, uma pequena vinha bem no coração do 18ème arrondissement.

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Ela não é a única vinha da região parisiense, temos, por exemplo, a do Parc de Bercy , entre outras. Mas, é a mais famosa e, com certeza, quem já visitou Montmarte já a viu. Ela fica ali, ao lado do Lapin Agile. Quando passamos pelo local, sempre notamos aquela pequena área com algumas parreiras e é impossível não perguntarmos o que é aquilo. Os mais entendidos ficam surpresos: “Mas, uma vinha no meio de Paris? É um terreno muito pequeno! Será que produz alguma quantidade?” A resposta é: sim, produz. E a história e curiosidades do lugar são bem legais.

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Durante a Idade Média, havia muitos vinhedos em Paris e região, inclusive na área da Butte Montmartre. No século XII, a maioria das vinhas do bairro já era propriedade das Dames de Montmartre, uma congregação religiosa, que cuidava de uma abadia ali. Um século depois, uma contagem mostrou que já havia uma dezena de vinhedos no lugar, ainda controlado pelas irmãs. Atrás da igreja Saint-Pierre havia, inclusive, um lagar (local onde são espremidas as uvas).

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Porém, na metade do século XIX, a concorrência dos vinhos que vinham do Vale do Loire, da Alsace, da Bourgogne e do Bordelais (região de Bordeaux) fez com que o cultivo dos vinhedos na região parisiense praticamente desaparecesse.

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Já no começo dos anos 1920, Montmartre era alvo da especulação imobiliária. Um terreno vazio, na esquina da rue des Saules e da Saint-Vincent, iria ser loteado para a construção de habitações populares. A medida atraiu a oposição dos moradores do bairro, liderados pela Association du Vieux Montmartre (uma associação que existe até hoje).

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Eles conseguiram anular o loteamento. Então, uma praça com jardim foi construída ali, chamada de Square de la Liberté. O problema é que o lugar era constantemente depredado pelas crianças do bairro e a prefeitura de Paris se recusava em fazer a manutenção. Por isso, em 1933, os moradores decidiram que videiras seriam plantadas ali e que as vindimas seriam coroadas com a Fête des Vendanges. Vendange significa vindima em francês. A iniciativa foi da Commune Libre de Montmartre (outra associação que ainda existe). Francisque Poulbot, artista ilustrador e um dos integrantes da Commune Libre, foi um dos maiores defensores do lugar

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Placa em homenagem a Francisque Poulbot

A vinha tinha e ainda tem apenas 1469 metros quadrados. No terreno foram plantadas cerca de 1700 mudas, vindas de várias partes da França. O problema é que a primeira Fête des Vendanges havia sido marcada para o ano seguinte, 1934. Só que para um vinhedo em geral “amadurecer” leva tempo, anos. Assim, a época da festa chegava e nada de uvas maduras.

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E os viticultores da vinha de Montmartre, que, naquela época, não entendiam coisa nenhuma sobre o cultivo, ainda resolveram reclamar com as regiões que forneceram as mudas, dizendo que estas eram de má-qualidade. Para se ter uma ideia, até o presidente da República queria vir para a festa. Mas como fazer uma festa de vindimas sem uvas?

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Então, as regiões vitícolas francesas, as mesmas que forneceram as mudas, resolveram ajudar, apesar da carta desaforada do pessoal de Montmartre. Elas enviaram as uvas para que a festa pudesse ser realizada e o vinho produzido. E assim aconteceu, com sucesso, a primeira Fête des Vendanges de Montmartre.

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Curiosidades da vinha
Hoje, quem cuida do espaço são os jardineiros da prefeitura de Paris. As variedades das uvas cultivadas no terreno são três: gamay, pinot noir e landay. A temperatura de Paris, principalmente em Montmartre que fica em um lugar alto, não ajuda. O solo também é extremamente seco e tem que ser irrigado sempre.

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Um dos jardineiros que cuidam da vinha

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O vinho produzido ali é chamado de Clos Montmartre. Na parcela de cima da vinha, é produzido o rosé. E no resto, o tinto. As vindimas acontecem por volta de 15 de setembro e são colhidos mais ou menos 1300 quilos de uvas. Hoje a vinha tem 1800 videiras, mas muitas não produzem mais. Todos os anos, algumas são trocadas, para melhorar a qualidade do vinho produzido ali.

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Atualmente, toda a produção é orgânica. Além das videiras, outras plantas e flores são cultivadas no local. Um exemplo é a lavanda, que além de enfeitar, também afasta os insetos. Ali também são cultivados algumas frutas e legumes fornecidos pelas regiões especialistas de cada um. Por exemplo, Carpentras, uma cidade na Provence conhecida pelos morangos, cedeu algumas mudas para a vinha de Montmartre. Então, ali, no final de uma fileira de parreira, na primavera, vemos vários morangos suculentos.

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Era outono quando tirei essas fotos, então, nada de morango
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Oliveiras doadas pelo departamento de Vaucluse na Provence

E a produção do vinho não para: de 1500 garrafas produzidas anualmente, esse número já chegou a 2700, um recorde. São garrafas de 500ml, que não são baratas: são vendidas a 50 euros durante as Fêtes de Vendanges e em outras ocasiões. O dinheiro arrecadado é doado para várias obras sociais do bairro. O mais interessante é que a produção de cada safra tem um nome que combina com o espírito de Montmartre: em 2015 foi “La Cuvée de la Liberté” e em 2016, “La Cuvée des Lumières” (esta última vendida na festa de 2017).

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E todo o trabalho para a produção da bebida é feita por voluntários, desde as vindimas até o engarrafamento e venda. Aliás, as etapas de elaboração do vinho são realizadas em uma cave localizada nos subterrâneos da Mairie (prefeitura) do 18ème arrondissement.

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Ao passar em frente à vinha, temos a visão de toda a sua superfície. Porém, tive a chance de entrar nela, durante as Fêtes de Vendanges de 2017, em uma visita guiada e posso dizer que vale muito a pena. Porém, ela só abre em ocasiões especiais, como no período da festa, que acontece sempre em outubro.

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Clos Montmartre
14 rue des Saules
75018 Paris
Metrô: Lamarck Caulaincourt, linha 12

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Renata Rocha Inforzato

<p>Sou de São Paulo, e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.</p>

Comentários (3)

  • Natalie Responder    

    11 de dezembro de 2017 at 14:55

    Oi, Renata. Tudo bem? 🙂

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia – Natalie

  • rui batista Responder    

    16 de dezembro de 2017 at 20:56

    Post super-interessante: ADORO vinho, gosto da vinha e amo Paris 🙂 E não sabia de nada disto. Muitos parabéns pelo trabalho!

  • Carla Mota Responder    

    17 de dezembro de 2017 at 9:38

    Nem dá para imaginar uma quinta dessas mesmo em Paris. Que delícia. Ora aí está um programa maravilhoso para se fazer na cidade e bem diferente do habitual. Maravilhoso.

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