Dicas gerais

Alguns conselhos para quem quer vir estudar na França

3 de outubro de 2016

Resolvi fazer este texto como resposta para várias perguntas que recebo sobre a preparação para vir estudar na França. Claro que ele não esgota as dúvidas, mas ao menos dá uma luz para quem quer passar uma temporada estudando aqui e não sabe por onde começar. Não é um guia oficial, quase tudo o que escreverei aqui foi tirado da minha experiência.

Estudar na França

1) Defina o quê, como e quando – Pode parecer besteira, mas, meses antes, já ter um plano na cabeça sobre o que quer estudar ajuda muito. Você quer fazer curso de francês ou um curso superior? Pretende voltar ao Brasil após o curso de língua ou continuar e fazer uma faculdade, mestrado ou doutorado? Vai fazer um intercâmbio universitário? Vai tentar bolsa (no caso de cursos superiores) ou trabalhar? A época também é importante, pois, para os cursos de idiomas, existem datas flexíveis e fixas. Em algumas escolas, o preço é mais alto no verão. Mas, para a universidade, o começo do ano letivo é em setembro, então, você tem que considerar seus planos para chegar nesta época.

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2) Pesquise a escola – Para os cursos de francês, se você quer ficar mais de 90 dias, ou seja, o tempo permitido para turista, vai precisar de visto (falo dele mais para frente) e, para obtê-lo, é preciso se inscrever em uma escola com o selo FLE (Français Langue Étrangère). As escolas que têm esta certificação são autorizadas pelo governo da França e a inscrição em uma delas é garantia de obter o visto de estudante. Por mais que seja tentador e barato se inscrever em uma escola sem o selo FLE, se for ficar mais de 90 dias aqui e não tem passaporte europeu, esqueça, pois não vai conseguir o visto de estudante. Eu vendo cursos de francês e todas as escolas que vendo têm a certificação FLE. Saiba mais aqui

Estudar na França

No caso das universidades, o Campus France, a agência do governo francês responsável pelo processo para obtenção de vistos de estudos na França, disponibiliza uma listas das universidades francesas. Veja bem os cursos que cada uma oferece e a coerência com o percurso que você quer seguir. Esteja preparado também para ter que fazer um tempo a mais de estudos. Explico: aqui na França, os cursos universitários têm em média três anos (L1, L2 e L3). Se você quer cursar um mestrado, mesmo que no Brasil a faculdade dure quatro anos, pode ser que você tenha que refazer o último ano do curso aqui. Isso porque a grade curricular é diferente nos dois países. Se acontecer isso com você, não fique triste, pois é uma ótima oportunidade de aprendizado.

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3) Planejamento financeiro – Depois de definida a data e duração do tempo de estudos, é hora de começar a guardar dinheiro. Muita gente, mesmo chegando com visto que permite trabalhar, pensa que vai chegar aqui e encontrar um trabalho antes do final do primeiro mês. Salvo raras exceções, não é bem isso que acontece, ainda mais para quem ainda não fala o idioma. Então, venha com dinheiro para passar os primeiros seis meses. Aí vai de você a maneira de economizar antes da viagem. Eu, por exemplo, economizava em tudo: esqueci o que era cinema, shopping, não tinha carro e até minhas saídas ao Mc Donalds eram controladas. Como era meu sonho vir para cá, todo este sacrifício valia a pena. Para quem vem fazer curso universitário e vai ter bolsa de estudos: mesmo assim, economize antes de vir. Não conte em viver 100% da bolsa, tenha um dinheiro guardado. Cansei de ver gente desesperada – mesmo bolsistas franceses – porque o pagamento da bolsa atrasou.

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4) Quanto dinheiro levar – Essa também é uma questão muito particular. Segundo o Campus France, você tem que provar que tem 615 euros por mês. Mas, na prática, você vai gastar muito mais do que isso, mesmo que você viva fora de Paris e coma só sanduíche. Só para se ter uma ideia, nas cidades vizinhas à capital, alugar um quarto normalmente custa mais de 500 euros. Já vi gente dividindo apartamento aqui na região onde moro, que é ao lado de Paris, pagando 700 euros por mês cada um. Por isso, com bastante antecedência, faça um exercício de autoconhecimento e veja como é seu nível de vida, as coisas que você não vive sem e aquelas onde você pode economizar. Não adianta: por mais que você seja asceta ou tenha dinheiro, sempre vai abrir mão de alguma coisa ao vir para cá, até porque a vida aqui na França é mais simples e com menos ostentação do que no Brasil.

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5) Defina quanto tempo ficar – Além das questões do item 1, você precisa verificar se vai precisar de visto ou não para vir estudar na França. Para cidadãos não-europeus, para até 90 dias de curso, não precisa de visto. Se for ficar mais, precisa de um visto de estudante. E são dois tipos: o visto de até seis meses, onde você não pode trabalhar e, se quiser ficar mais tempo, tem que ir ao Brasil para fazer a renovação. E o visto com mais de seis meses, onde você pode trabalhar e renova aqui mesmo na França. Todo o processo para ter o visto, com exceção do doutorado e intercâmbio acadêmico, é feito pelo Campus France Brasil. No caso de cursos de francês, é preciso estar com o curso todo pago antes de iniciar o processo para obtenção do visto de estudante.

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6) Tenha todos os documentos a mão para iniciar o processo do visto – Veja no site do Campus France o que é necessário para pedir seu visto, de acordo com o tipo de estudo. Prepare tudo, deixe bem claro como é que vai financiar seus estudos e sua carta de motivação. Nesta carta você vai explicar o motivo pelo qual quer vir estudar aqui e como esses estudos vão ajudar na sua carreira, o que vai fazer depois, etc. Mesmo para cursos de francês tem que fazer esta carta. Quanto mais exatos e claros forem seus documentos, mais chances de conseguir seu visto de estudante. Falo isso porque às vezes o Campus France ou o consulado podem querer te dar o visto de visitante, que não permite que você trabalhe mesmo que fique mais de seis meses.

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7) Local de moradia – Embora você não precise ter um local definitivo para moradia, é bom já ter isso definido na hora de passar pelo processo do visto. Isso porque eles pedem um comprovante de que você tem onde ficar por pelo menos 90 dias. É complicado encontrar um lugar estando no Brasil e sem conhecer a cidade de destino, mas você pode pegar um local provisório (Airbnb, hotel ou casa de amigo) e depois aqui procurar com calma. Mas, em qualquer uma dessas opções, tenha contrato ou attestation d’hébérgement (no caso de um amigo te hospedar) para apresentar ao consulado.

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Levallois-Perret, uma cidade ao lado de Paris

8) Não caia das opções fáceis de hospedagem – Em sites ou grupos de facebook, há várias propostas de pessoas oferecendo casas, apartamentos ou quartos. Fique esperto. No caso de casas e apartamentos, muitos não querem alugar “às claras”. Ou seja, querem que você pague aluguel, mas não te fornecem um contrato. Ao contrário, te fornecem a attestation d’hébérgement como se você estivesse hospedado de graça no imóvel deles. Isso é a maior furada. Primeiro, porque a pessoa pode mudar o preço quando bem entender ou te botar para fora, e você não tem como provar que pagava aluguel para exigir seus direitos (eu caí nessa). Segundo que, para qualquer processo administrativo, você precisa apresentar a attestation ou o contrato de aluguel. E se você aluga, não tem por que apresentar um atestado em vez do contrato. Isso só serve para ajudar esses proprietários a sonegar imposto.

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Outra foto de Levallois

No caso de aluguel de quarto, veja bem se a pessoa que aluga é a dona do apartamento ou, no caso de apartamento dividido entre vários locatários, veja se a pessoa tem autorização do dono para alugar. Isso porque em muitos casos a sublocação é proibida. E também porque em qualquer procedimento administrativo, eles vão te exigir ou o contrato ou a attestation d’hébérgement, e, no caso desta última, o atestado só pode ser feito pelo proprietário, que fornece também um documento de identidade.

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Saint-Maur-des-Fossés, outra cidade perto de Paris

9) Escolha bem a cidade – Ainda no Brasil, comece a ver onde quer morar. Na região de Île-de-France, onde fica Paris, o custo de vida é mais caro, mas, por outro lado, tem mais chances de emprego. Estude o lugar para onde quer ir: quais escolas ou universidades a cidade tem, qual a sua economia, etc. Para quem quer ficar em Paris, um conselho: alugar uma casa ou quarto nas cidades vizinhas pode sair até 50% mais barato. Muita gente me escreve falando: “quero um lugar próximo do metrô e com comércio no bairro”. Praticamente, todas as cidades da região têm uma ótima malha de transporte, fazendo com que a gente chegue rapidinho em Paris, e possuem também vários comércios. Eu, por exemplo, moro numa cidade ao lado da Cidade Luz, a cinco minutos de trem, e tenho tudo o que preciso aqui: mais de dez padarias, cinco supermercados, não sei quantas farmácias, etc. Vou a Paris mesmo para passear e fazer minhas reportagens, não porque preciso.

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Outra foto de Saint-Maur-des-Fossés

10) Estudante nem sempre é estudante – No Brasil, os descontos para estudantes são dados para quem tem a carteirinha, não é? Pois aqui na França não é bem assim. Em terras gaulesas só é considerado estudante quem tem até 28 anos. Então, mesmo que você estude, se passou desta idade não tem direito aos descontos e gratuidades.

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11) Faça seguro saúde – A França tem seu sistema de saúde e todo mundo com residência aqui tem direito a ele. O regime depende da sua situação: se é considerado estudante (veja o item acima), de quanto ganha, etc. Porém, até você enviar os documentos que eles pedem, esperar a resposta pelo correio, enviar mais documentos, esperar mais respostas, enviar foto pra fazer a carteirinha, etc, pode levar muito tempo. Essa é uma das partes mais enroladas da burocracia francesa. Por isso, aconselho a você a contratar um seguro saúde (eu vendo aqui no site a Real Seguro Viagem e a Mondial Travel) por no mínimo três meses e, se precisar, renová-lo até receber o sinal verde do sistema francês. A gente nunca sabe o que pode acontecer, né? E seguro saúde tem sido exigido por alguns consulados franceses para autorizar o visto.

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Tours, na região do Vale do Loire, é outra cidade universitária

12) Trabalhe – Se você tirou o visto para mais de seis meses, tem direito a trabalhar na França. Muita gente me escreve querendo trabalhar na mesma área de sua formação no Brasil. Mas isso é difícil, primeiro porque em muitas áreas o diploma brasileiro não é aceito. Segundo, porque várias delas estão saturadas aqui na França. E quem tem visto de estudante só pode trabalhar no máximo 20 horas por semana, o que significa meio período. Então, muitas vezes, o emprego encontrado é o típico para estudantes, como babá, garçom, caixa, vendedor etc. No Brasil, há um preconceito com muitos desses trabalhos, mas aqui não. Quem trabalha nessas áreas é bem visto, ganha o suficiente e, quase sempre, tem chances de crescer. E são ótimas oportunidades para interagir, praticar a língua e conhecer pessoas, se inserir na sociedade. Não desperdice. E não caia na tentação de trabalhar no “Black”, isto é, sem autorização e documentos. É garantia de ser explorado e perder seu visto.

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Louvre

Estas são algumas coisas que lembrei. Como escrevi no começo do texto, elas não esgotam o assunto, mas acho que ajudam. Com um pouco de planejamento e pé no chão, é possível vir para cá tranquilamente, mesmo que você não conheça ninguém e não tenha uma família por trás que te ajude. Se quiser saber mais sobre os cursos de francês que vendo, clique aqui.

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Renata Rocha Inforzato

Sou de São Paulo, e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.

Comentários (17)

  • Cristiany Barbosa Responder    

    9 de outubro de 2016 at 7:18

    Oi Renata…..estou adorando suas dicas…..estou indo a Paris este mês e pretendo utilizar suas dicas….parabéns e obrigada por compartilhar.

    • Renata Rocha Inforzato Responder    

      10 de outubro de 2016 at 20:35

      Oi Cristiany, obrigada você por ler o blog. Espero que sua viagem seja tudo de bom. Se quiser, deixa um outro comentário contando como foi. Um beijão

  • Martinha Andersen Responder    

    12 de outubro de 2016 at 18:31

    Post muito bom Renata.
    Tudo muito bem explicado, para tirar todas as dúvidas do pessoal. Com certeza vai ajudar muita gente.
    Beijos =)

  • Gabi Moniz Responder    

    13 de outubro de 2016 at 0:29

    Amei suas dicas!!! Não é nem um pouco fácil tomar a decisão de morar fora. Fico imaginando como é difícil chegar a um país estrangeiro, sem suporte, e ainda cair em furadas, como no caso dessas pessoas que “alugam” quartos sem ter um contrato de aluguel.
    Obrigada por compartilhar suas experiências! Com certeza ajudarão muitas pessoas que sonham em morar na França 😉

    • Renata Rocha Inforzato Responder    

      6 de novembro de 2016 at 13:45

      Oi Gabi, pois é! Mas a gente vai aprendendo e ficando mais esperta. Serviu pra ver também que picareta tem em tudo quanto é lugar. Eu tb espero que ajuda muita gente, um beijão

  • Luciana Rodrigues Responder    

    13 de outubro de 2016 at 9:12

    Já pensei tanto em estudar na França, pois estudei francês por muitos anos. Agora lendo o seu post me deu vontade de um dia tentar realizar esse sonho. Principalmente agora com a cidadania italiana e sem precisar de vistos, etc.
    Em tempo: a foto de abertura do texto está linda!
    Beijos,
    Lu

    • Renata Rocha Inforzato Responder    

      6 de novembro de 2016 at 13:44

      Oi, Lu, obrigadão! Vem sim, nem que seja por um mês. Eu te entendo, pois tenho o mesmo desejo em relação a estudar o italiano por aí. Um beijo

  • Ester Responder    

    15 de outubro de 2016 at 17:09

    Renata, adorei o post! Estava fuçando o site e achei esse post, hehe. Não sei se vais conseguir me ajudar por ser algo mais específico, mas já que parei nesse post vou te perguntar, haha! Tens ideia de como funciona a residência médica na França? Estou no quarto ano de medicina e sonho com uma residência na França, hehe! Sou muito apaixonada por Paris e quase que sinto necessidade de morar na cidade por um tempo. Muito obrigada, Renata! Parabéns pelo teu blog, ele é lindo!

    mapanamao.com.br

    • Renata Rocha Inforzato Responder    

      6 de novembro de 2016 at 13:41

      Oi Ester, eu não sei como funciona porque minha área é outra. Acho que fazer a residência talvez seja difícil. Eu tenho uma amiga de infância que depois de formada veio pra cá por um ano em um programa de doutorado e depois de pós-doutorado. Talvez na sua faculdade ou região tenha algo similar, tipo um intercâmbio. tenta ver com a sua secretaria, a da sua faculdade. Obrigada pelo comentário, um beijo

  • Fernanda Souza Responder    

    27 de outubro de 2016 at 0:06

    Certamente o post mais completo que já li. Parabéns! Uma amiga minha está louca para estudar em Paris. Vou mandar o link desse post para ela.

  • Rafaella Responder    

    22 de janeiro de 2017 at 23:30

    Olá Fernanada,

    Pretendo ir estudar francês durante uns 7 meses, na França. Caso consiga um emprego nesse período, consigo renovar meu visto? Ou é necessário que eu esteja estudando?

    • Renata Rocha Inforzato Responder    

      9 de julho de 2017 at 0:53

      Oi Rafaella, com visto de estudante, só estudando. E em sete meses você não aprende o francês suficiente para já largar o curso…. Um abraço

  • Tina Wells Responder    

    23 de julho de 2017 at 8:26

    Muito interessante e bem explicado, principalmente a parte financeira. Muita gente pensa que é só fazer as malas e partir, mas é preciso planejamento para não passar perrengue, ainda mais se vai para estudar!

  • Michela Borges Nunes Responder    

    23 de julho de 2017 at 14:34

    Que legal este post. Muito esclarecedor para quem quer estudar na França, o que deve ser uma delícia. Agora, que danadinhos também com essa questão do aluguel e o que te aprontaram, né? Obrigada pelas dicas.

  • rui batista Responder    

    23 de julho de 2017 at 18:59

    Um belo post – e muito completo – para a diversidade de motivos para visitar a França. Muito útil. Nada como saber com o que contar. E a parte do planeamento financeiro é vital. Parabéns pelo post.

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